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Grande Imã Ahmed Mohamed el-Tayeb pede o fim do Terrorismo em encontro com o Papa Francisco

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Na manhã de segunda-feira, 23 de maio, o Papa Francisco recebeu, em sua biblioteca privada, o Xeique Ahmed Mohamed el-Tayeb, Grande Imã da Mesquita al-Azhar e Reitor da Universidade al-Azhar[1], no Cairo. O encontro entre ambos os líderes religiosos constituiu um passo no sentido da reaproximação do islamismo sunita e o catolicismo, após o anuviamento das relações entre as duas confissões monoteístas há alguns anos. Em 12 de setembro de 2006, intervindo num Encontro com os Representantes das Ciências, na Universidade de Ratisbona, o Papa Bento XVI citou o diálogo entre Manuel II Paleólogo, Imperador bizantino, e um erudito persa, mantido em Ankara, no Inverno de 1391. A evocação daquele colóquio, que disse respeito ao cristianismo, ao islã e ao problema da verdade em ambas as religiões, desagradou profundamente aos fiéis e dignitários islamitas[2]. Por outro lado, na sequência do atentado suicida de Alexandria, contra uma igreja cristã copta, em 1o de janeiro de 2011, que matou 23 pessoas, ferindo outras 97, Bento XVI exigiu maior proteção para os cristãos naquele país do Oriente Médio. Agora, cinco anos depois do congelamento do diálogo entre al-Azhar e o Vaticano, os líderes das duas instituições voltaram a se reunir após uma comitiva da Santa Sé ter visitado o Cairo no passado mês de fevereiro.

O Grande Imã foi acompanhado por uma delegação de alto nível, integrada pelo Dr. Abbas Shouman, Subsecretário de al-Azhar; Mahmaoud Hamdi Zakzouk, membro do Conselho de Eruditos da Universidade al-Azhar e Diretor do Centro para o Diálogo de al-Azhar; o Juiz Mohamed Mahmoud Abdel Salam, Conselheiro do Grande Imã; o Dr. Mohie Afifi Afifi Ahmed, Secretário-Geral da Academia para a Pesquisa Islâmica; o Embaixador Mahmoud Abdel Gawad, Conselheiro Diplomático do Grande Imã; Tamer Tawfik, Conselheiro, e Ahmad Alshourbagy, Segundo Secretário. Seguido pelo Embaixador da República Árabe do Egito junto da Santa Sé, Hatem Seif Elnasr, o el-Tayeb foi recebido e conduzido ao encontro com o Sumo Pontífice pelo Cardeal Jean-Louis Tauran, Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, e pelo Bispo Secretário daquele Conselho, Dom Miguel Ángel Ayuso Guixot. Tendo abraçado o Grande Imã, o Papa Francisco sublinhou, ao dirigente muçulmano, o fato de, por si só, “nosso encontro ser a mensagem”. A reunião entre os dois dignitários religiosos foi caracterizada pelo Padre Federico Lombardi, SJ, Porta-Voz da Santa Sé, como tendo decorrido numa atmosfera muito cordial. Ahmed Mohamed el-Tayeb e Francisco assinalaram que o encontro, que durou 30 Minutos, decorreu “no âmbito do diálogo entre a Igreja Católica e o Islã”.

Em meio às atribulações e à desagregação em que Oriente Médio atualmente se encontra mergulhado, Ahmed Mohamed el-Tayeb e Francisco lançaram um apelo global contra o fim do terrorismo. Mais tarde, na entrevista concedida à Rádio Vaticano e ao jornal L’Osservatore Romano, publicada no dia 24 de maio, o dia seguinte ao encontro com o Papa[3], o Xeique el-Tayeb começou por interpretar o vazio do ser humano no mundo atual. O Reitor da Universidade al-Azhar destacou o fato de que, “todas as filosofias e ideologias sociais modernas, que assumiram a liderança da humanidade longe da religião e longe do Paraíso, não conseguiram fazer o homem feliz ou levá-lo para longe das guerras e do derramamento de sangue”. Com efeito, de acordo com el-Tayeb, o ser humano submetido ao puro plano material, sem desejo de transcendência em sua vida, ou seja, o “homem sem religião constitui um perigo para seu irmão homem, e eu creio que as pessoas, agora, no século XXI, começaram a olhar em seu redor para procurar guias sábios que os conduzam ao rumo correto”.

Situado na análise da escalada da insurgência na região do mundo de onde é natural, o Oriente Médio, geograficamente localizado na confluência da África, Europa e Ásia, o Grande Imã afirmou: “Eu venho do Oriente Médio, onde eu vivo e eu sofro, juntamente com os outros, as consequências dos rios de sangue e cadáveres, e não há nenhuma razão lógica para esta catástrofe que estamos a viver de dia e de noite”. Reconhecendo a existência do terrorismo no seio de insurgentes que se reclamam de fiéis do Islã, el-Tayeb aproveitou a oportunidade para dizer que o Islã não tem nada que ver com este terrorismo, e isto se aplica aos Ulama[4] muçulmanos e aos cristãos e muçulmanos do Oriente”. Tal como asseverou o Xeique, “aqueles que matam muçulmanos, e também matam cristãos, não entenderam os textos do Islã ou intencionalmente, ou por negligência”.

O líder muçulmano fez, nesta ocasião, um apelo para o mundo inteiro “se unir e cerrar fileiras para enfrentar e pôr fim ao terrorismo”. Se o problema crescente do terrorismo for negligenciado, declarou Ahmed Mohamed el-Tayeb, então não será unicamente o Oriente que vai pagar um preço elevado, mas “tanto o Oriente quanto o Ocidente poderiam sofrer juntos, como já vimos”. Ao terminar o encontro com a Imprensa, ele deixou, aos ouvintes da Rádio Vaticano e aos leitores do L’Osservatore Romano, o seguinte desejo: “Eu expresso meus sinceros agradecimentos, meu apreço e esperança – que vou levar comigo – de trabalharmos em conjunto, muçulmanos e cristãos, al-Azhar e o Vaticano, para aliviar os seres humanos, onde quer que eles se encontrem, independentemente da sua religião e crença, salvando-os das guerras destrutivas, da pobreza, da ignorância e da doença”. Entrementes, na quarta-feira, 25 de maio, dois dias depois de o Estado Islâmico ter reivindicado dois ataques mortíferos levados a cabo na Síria, o Papa Francisco reforçou o desejo de paz do Grande Imã, apelando a Deus e a Nossa Senhora que convertam “o coração de quantos semeiam morte e destruição”. Durante a audiência semanal realizada na Praça São Pedro, o Papa rezou para que Deus conceda “o descanso eterno às vítimas e a consolação aos familiares” das pessoas que foram alvo do duplo atentado de Tartus e Jableh, Síria, que causou 145 mortos e mais de 200 feridos.

O Xeique Ahmed Mohamed el-Tayeb e o Papa Francisco se encontram entre as autoridades religiosas mundiais que estão cientes de que a violência que o mundo de hoje enfrenta não se solucionará com iniciativas regionais ou, sequer, nacionais. Ante a urgência de “unir e cerrar fileiras para enfrentar e pôr um fim ao terrorismo”, há a necessidade de se adotarem soluções que contemplem a Pátria Terra. Se, no entendimento do Grande Imã el-Tayeb, as “responsabilidades são pesadas e, ao mesmo tempo, graves”, atualmente estamos vivendo, a partir do contributo da máxima hierarquia islamita sunita e católica, um entendimento comum dos grandes problemas atuais que pressupõe a construção do diálogo, em lugar da promoção das barreiras do sectarismo e do confronto, em nome de Deus.

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ImagemXeique Ahmed Mohamed elTayeb e Papa Francisco, Cidade do Estado do Vaticano (23 de maio de 2016)” (Fonte):

https://cdn.guardian.ng/wp-content/uploads/2016/05/Pope-francis-and-Sheikh-Ahmed-al-Tayeb.jpg

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Notas e Fontes Bibliográficas:

[1] A Universidade al-Azhar é um dos legados da dinastia Fatimida, que reinou na África do Norte, entre 909 e 1048, e no Egito, entre 969 e 1171. Anexa à Mesquita al-Azhar, a Universidade al-Azhar é a mais prestigiada instituição de Ensino Superior do islã sunita.

Criada como madrasa – escola corânica, ou centro de ensinamento islâmico – pelo Califa Al-Um’izz li-Din Allah, em 970/972, ela obteve o estatuto de Universidade em 1961. Cerca de 90.000 alunos estudam, atualmente, na Universidade al-Azhar.

[2] No sétimo colóquio (διάλεξις – controvérsia) publicado pelo Prof. [Theodore] Khoury, o imperador aborda o tema da jihād, da guerra santa. O imperador sabia seguramente que, na sura 2, 256, lê-se: ‘Nenhuma coação nas coisas de fé’. Esta é provavelmente uma das suras do período inicial – segundo uma parte dos peritos – quando o próprio Maomé se encontrava ainda sem poder e ameaçado. Naturalmente, sobre a guerra santa, o imperador conhecia também as disposições que se foram desenvolvendo posteriormente e se fixaram no Alcorão. Sem se deter em pormenores como a diferença de tratamento entre os que possuem o ‘Livro’ e os ‘incrédulos’, ele, de modo surpreendentemente brusco – tão brusco que para nós é inaceitável –, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: ‘Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava’. O imperador, depois de se ter pronunciado de modo tão ríspido, passa a explicar minuciosamente os motivos pelos quais não é razoável a difusão da fé mediante a violência. Esta está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma. Diz ele: ‘Deus não se compraz com o sangue; não agir segundo a razão – ‘σὺν λόγω’ – é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Por conseguinte, quem desejar conduzir alguém à fé tem necessidade da capacidade de falar bem e de raciocinar corretamente, e não da violência nem da ameaça…[ ’]”.

[3] O Xeique Ahmed Mohamed el-Tayeb teceu as seguintes considerações sobre o Papa Francisco, após a reunião que ambos mantiveram: “Este homem é um homem da paz, um homem que segue os ensinamentos do cristianismo, que é uma religião de amor e paz e, seguindo Sua Santidade, vimos que ele é um homem que respeita as outras religiões e mostra consideração para com seus seguidores; ele é um homem que consagrou sua vida a servir os pobres e os destituídos, e que assume a responsabilidade pelas pessoas, em geral; ele é um asceta, que renunciou aos prazeres efêmeros da vida mundana. Todas estas são qualidades que partilhamos com ele, e, portanto, queremos nos encontrar com este homem em ordem a trabalharmos juntos pela humanidade no vasto campo que nós temos em comum”.

[4] O Ulama – ou Ulema – é alguém versado na teoria e na prática das ciências do Islã. Ele é, na verdade, o mestre religioso das comunidades islamitas – teólogo (mutakallimun), jurisprudente (mufti), juiz (qadi), professor e religioso ao mais alto nível do Estado (shaikh al-Islām).

J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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