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Grupo midiático turco ligado ao Movimento Güllenista é alvo de buscas, após críticas ao Governo

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Na última terça-feira, 1o de setembro de 2015, autoridades na capital turca Ankara fizeram buscas em 23 empresas pertencentes a Holding Koza Ipek. As operações ocorreram em virtude da suspeita de financiamento ao movimento liderado pelo clérigo e intelectual islâmico sunita Fethullah Güllen, que vive em exílio auto imposto na Pensilvânia, nos EUA.

A polícia turca invadiu as instalações do conglomerado empresarial e midiático ligado à figura de destaque da oposição, a quem o Governo acusa de tentar desestabilizá-lo[1]. Seis pessoas foram detidas, mas não houve comentário imediato da polícia[1]. A holding Koza Ipek é proprietária das estações de televisão de oposição Bugün TV e Kanal Turk, assim como dos jornais Bugün e Millet[1][2]. O Governo turco acusa o seu proprietário, Akin Ipek, de ser um líder terrorista[3]. Os críticos denunciaram as operações de terça-feira, dia 1o, como repressão aos opositores à frente das eleições antecipadas em novembro. Centenas de manifestantes responderam, ao protestarem nos arredores das empresas do grupo e opondo-se às batidas policiais[1][2].

A holding Koza Ipek está associada ao movimento de Güllen, que é acusado de ter orquestrado um vasto escândalo de corrupção em 2013, com o objetivo de derrubar o Governo[1][2]. Güllen rejeitou incriminações de que estaria por trás do escândalo que implicava os colaboradores mais próximos ao presidente Recep Tayyip Erdogan[1]. O Governo rejeitou as alegações como uma tentativa de Golpe.  O confronto entre o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) e o Movimento Güllen teve início quando os promotores que foram acusados de fazerem parte do Movimento Güllen lançaram investigações sobre suborno e corrupção contra ministros, famílias de líderes importantes do AKP e empresas próximas ao Governo[3].

Centenas de policiais e funcionários do judiciário suspeitos de ligação com o movimento güllenista foram demitidos. Em maio, o órgão bancário regulador da Turquia confiscou um Banco associado ao Movimento. Já em dezembro de 2014, a polícia turca prendeu mais de vinte jornalistas sêniores e executivos de mídia supostamente vinculados ao movimento de Fethullah Güllen sob várias acusações[1]. Atualmente, o movimento liderado por Güllen possui numerosos apoiadores nos serviços de segurança e judiciário turco.

Ao solicitar a permissão para a operação de busca nas instalações da Koza Ipek, um promotor público disse que Akin Ipek, proprietário da holding, “é um líder da Organização Terrorista Fetullahista [FETO]; seu grupo de empresas financia o terrorismo e realiza propaganda para a organização terrorista[3]. A diferença na ortografia entre ‘Fetullahista’ e ‘Fethullah Güllen’ é considerado um golpe e provocação intencionais, escreve Kadri Gursel para o Al Monitor [3].

A operação policial na sede da holding aconteceu horas depois de o jornal Bugün ter publicado fotos de uma suposta remessa clandestina, feita pelo próprio Governo turco, de materiais para militantes do Estado Islâmico do Iraque de el Sham (ISIS) na Síria. O material seria usado na fabricação de armas[2][3] e seria uma demonstração de apoio logístico turco ao ISIS, grupo que o Governo oficialmente enfrenta através de operações militares e de inteligência[4]. A manchete lia: “material de guerra para o ISIS em Akcakale[3], e foi seguida por duas páginas inteiras de “chocantes imagens[3]. Akcakale está localizada no lado turco da fronteira, em frente a Tell Abyad, na Síria[3]. “Por dois meses, a cada dia duas cargas de semi-reboque de fertilizantes usados ​​na produção de explosivos, uma semi-carga de revestimento metálico e um caminhão de suprimentos e cabos eletrônicos eram transferidos para áreas controladas pelo ISIS na Síria[3], detalhava a reportagem. A agência de notícias francesa Associated Press não foi capaz de verificar a autenticidade das imagens publicadas pelo periódico turco e a Turquia nega veementemente as acusações de que tem ajudado a facção radical islâmica que opera no Iraque e na Síria[2].

Kemal Kilicdaroglu, líder do principal partido de oposição do país, chamou a operação policial de uma tentativa de amordaçar a dissidência. “Nós não podemos falar de democracia em um país onde a mídia está sendo silenciada[1], afirmou.  Conforme publicou o jornal Folha de São Paulo, enquanto isso, um grupo de centenas de pessoas protestou contra as operações de busca da polícia gritando: “A imprensa livre não pode ser silenciada![2]. Uma declaração do Departamento de Estado dos EUA advertiu a Turquia que não violasse “suas próprias bases democráticas[1], ao focar sua atenção em ataques contra meios de comunicação “abertamente críticos ao governo turco atual[1].

Fethullah Güllen, líder do movimento conhecido como Hizmet, que significa “serviço”, em turco, afirma acreditar na ciência, no diálogo inter-religioso entre os povos do Livro e nas democracias multipartidárias[5]. Descrito como um Imam “que promove um Islã tolerante, que enfatiza o altruísmo, o trabalho duro e a educação[6], ele é responsável por diversos trabalhos humanitários e educacionais ao redor do mundo. O Hizmet ou movimento Güllenista é um movimento islâmico da sociedade civil transnacional inspirado pelos ensinamentos Güllen, apesar de não haver qualquer forma de hierarquia. Seus ensinamentos sobre o Hizmet (serviço altruísta para o “bem comum”) têm atraído um grande número de adeptos na Turquia, Ásia Central, e cada vez mais em outras partes do mundo[7].

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Imagem Homem com o jornal turco Sozcu’, onde se lê: ‘Sozcu calado’, ‘Turquia calada” (Fonte Folha de São Paulo, Adem Altan/AFP):

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1676610-jornal-turco-e-alvo-de-buscas-apos-publicar-reportagem-contra-o-governo.shtml

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/2015/09/turkey-police-raid-business-linked-rival-movement-150901151032468.html

[2] Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1676610-jornal-turco-e-alvo-de-buscas-apos-publicar-reportagem-contra-o-governo.shtml

[3] Ver:

http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2015/09/turkey-syria-daily-exposes-transfer-weapons-supplies-to-isis.html?  

Ver Também:

http://www.theguardian.com/media/2015/sep/02/turkey-arrests-more-journalists-alleging-terrorist-links-to-erdogan-opponent

[4] Para mais informações sobre a dupla operação turca contra militantes do PKK e do ISIS, consultar nota analítica de minha autoria publicada no Ceiri Newspaper, intitulada Turquia Intensifica Ataques a Curdos do PKK no Norte do Iraque”:

http://jornal.ceiri.com.br/turquia-intensifica-ataques-a-curdos-do-pkk-no-norte-do-iraque/

[5] Ver:

http://www.economist.com/node/10808408?story_id=10808408

[6] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-13503361

[7] Para mais informações sobre os fundamentos para uma cidadania mais humana e tolerante do mundo proposta pelo movimento Hizmet e sobre seu compromisso com a importância do conhecimento, ver:

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1478-1913.2005.00100.x/pdf

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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