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Iêmen: ator estratégico para Estados Unidos e Arábia Saudita

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A deterioração do Estado Iemenita vem acrescida de forte tendência de divisão sectária, convergindo para uma secessão sem antes enfrentar uma guerra civil, cujos desdobramentos podem ampliar as diferenças entrexiitas e sunitas em todo Oriente Médio.

Na tentativa de restabelecer o mínimo de ordem e principalmente salvaguardar seus interesses na região, a Monarquia em Riad (Arábia Saudita) tomou a frente na formação de uma coalizão internacional, composta inicialmente por dez Estados da Região do Golfo, na tentativa de postergar o avanço da frente Houthisxiitas aparentemente financiados por grupos iranianos, e proteger o presidente AbdRabbu Mansour Hadi.

A disposição organizacional para intervenção nesse novo terreno de instabilidade é composta por Emirados Árabes UnidosBahreinKuwait e Qatar que assinaram uma declaração conjunta apoiando a ação militar saudita. EgitoJordâniaSudão disponibilizaram-se para campanhas aéreas, assim como regimentos terrestres uma vez solicitados. O Paquistão analisa um pedido dos sauditas para envio de soldados e o Marrocos, segundo fontes não oficiais, enviará aviões para combate.

Na perspectiva analítica, no que tange a deflagração de uma nova frente de instabilidade regional, o envolvimento restrito de nações árabes chanceladas pelo Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, na sigla em inglês) e com participação limitada dos Estados Unidos (suprimentos, logística e inteligência) nessa primeira fase, segundo fontes de especialistas consultados, não tem a capacidade de limitar as operações das forçasHouthis, da mesma forma que o poder aéreo da coalizão que enfrenta o Estado Islâmico nas porções de terra de Síria e Iraque não foi capaz de aniquilar os avanços do grupo insurgente. As incursões aéreas, grosso modo, não são susceptíveis de mudar o equilíbrio de poder em favor da coalizão fazendo-se necessária intervenção pelo terreno que eventualmente seria composta na sua maioria por forças da Arábia Saudita.

Observando os posicionamentos até agora apresentados, para a cadeia de causalidades que moldam o conflito no Iêmen, dois fatores tornam-se relevantes para composição do cenário:

  1. Ao avançar militarmente por um longo período de tempo em um Estadocujo centro de poder foi deteriorado por forças de oposição, sendo necessária uma mínima intervenção internacional para restabelecimento da estabilidade, a prerrogativa para consolidação de uma guerra civil potencializa o conflito, extraindo do cálculo uma solução rápida e negociada. A sobrecarga que se faz em prol do lado mais fraco, no caso, as correntes que governam junto com o presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi, é pró-cíclica, pois o Estado, com recursos limitados e problemas internos, terá dificuldade de manter a unidade desejada pelos aliados estrangeiros, atraindo mais devastação, mortes e ausência de leis de controle e convívio social;
  2. A considerar também que, no nível de parceria estratégica entre Estados UnidosArábia Saudita, o Iêmené ponto crucial para o enlace histórico das duas nações. A estabilidade no Golfo Pérsico e naPenínsula Arábica depende dos investimentos da monarquia sunita.

Concomitantemente ao último tópico, algumas razões indicam que Washington pode incentivar a intervenção da Arábia Saudita e do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) por imaginar que, no curto prazo, o fortalecimento desses laços servirão de apoio para os esforços contra o ISIS e a Al-Qaeda da Península Arábica. Todavia, o aprofundamento da ingerência em território iemenita pode respingar nas “ilhas de estabilidade”, produzindo um efeito maior de luta sectária que atingiria todo o Oriente Médio, assim como interferir diretamente na estabilidade do Reino no médio e longo prazos.

Ao contextualizar de forma mais ampla a parceria estratégica entre Casa Branca e Casa de Saud, o aprofundamento dessa relação viabiliza o alargamento estratégico com Emirados Árabes Unidos e Kuwait que auxiliam na estabilização e cooperam em negociações de transferências de armas, projetando o poder norte-americano e aumentando sua capacidade de atuação sem grande interferência direta em eventuais cenários beligerantes.

Ao passo que o Iêmen é estratégico na perspectiva militar em anular e retroceder posições de extremistas religiosos, a Arábia Saudita é estratégica nos âmbitos políticos, militares e econômicos, já que, mesmo com fontes alternativas de energia e a suposta independência energética estadunidense, o petróleo dos monarcas sauditas é de suma importância para a economia dos Estados Unidos e para a economia global.

De acordo com o Center of Strategic of International Studies (CSIS, na sigla em inglês), Oriente Médio produziu, em 2013, 32,2% do total mundial de petróleo consumido no mundo, equivalente a 28.358 milhões de barris/dia. Os membros do Conselho de Cooperação do Golfo, excluindo o Bahrein, produziram 23,9% do total de petróleo, o que, em números de barris, significa dizer que foram ofertados 21.234 milhões de barris/dia.

Para qualificar e concluir a análise e a influência da região para o comércio e economia global, o Estreito de Ormuz, localizado na porção Oeste da Península Arábica, dividindo o Golfo Pérsico do Golfo de Omãé um estreitamento marítimo de suma importância para o trânsito de navios petrolíferos. De acordo com Energy Information Administration (EIA, na sigla em inglês), o Estreito foi responsável pelo fluxo de 17 milhões de barris dias de óleo em 2013, equivalente a 30% do petróleo transportado por essa via marítima. Desse montante, estima-se que 85% do petróleo bruto foi para mercados asiáticos, JapãoÍndiaCoréia do Sul e China.

Ao classificar a região como importante entreposto comercial e econômico, as tensões no Iêmen, aprofundadas pela divisão sectária financiada e incentivada por extremistas sunitas aliados de Riad contranacionalistas xiitas Houthis, ao que tudo indica, acobertados por grupos iranianos, pode comprometer as atividades no estreito, já que as animosidades dos governos sunitas contra o Aiatolá e o Regime de Teerãno passado geraram empecilhos no estreito prejudicando a oferta e demanda de hidrocarbonetos e instabilidade nos preços da commoditie no mercado internacional, gerando, por conseguinte, outros desdobramentos macroeconômicos importantes.

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Imagem (Fonte):

https://static.euronews.com/articles/302817/606x341_Yemen-606-mapb.jpg

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://www.npr.org/2015/01/21/378905622/scholar-u-s-drone-use-has-contributed-to-yemens-instability

Ver:

http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2015/01/yemen-hadi-resignation-houthi-al-qaeda-us-saudi.html

Ver:

http://www.aawsat.net/2015/01/article55340858

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http://www.cfr.org/about/newsletters/archive/newsletter/n2723

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http://www.cfr.org/yemen/yemens-houthis/p36178

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http://www.brookings.edu/blogs/markaz/posts/2015/03/26-pollack-saudi-air-strikes-yemen

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http://www.brookings.edu/blogs/markaz/posts/2015/03/26-brookings-experts-yemen-houthis

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https://csis.org/publication/america-saudi-arabia-and-strategic-importance-yemen

Ver:

https://csis.org/publication/yemens-misery

Ver:

https://csis.org/files/publication/0315_menc.pdf

Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,arabia-saudita-envia-equipamento-militar-a-fronteira-com-o-iemen,1657261

Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,arabia-saudita-promete-intervencao-militar-no-iemen-caso-negociacao-falhe-imp-,1656590

Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,xiitas-houthis-se-preparam-para-tomar-aden-no-iemen,1655999

 

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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