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O anúncio da dissolução das relações diplomáticas com o Emirado do Qatar por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Egito, Iêmen e Líbia expõe para o contexto geopolítico no Oriente Médio uma fratura da ordem regional ao explicitar as diferenças desse grupo de nações, majoritariamente sunitas, com o Irã.

Para Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU), protagonistas do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC na sigla em inglês), a postura amena de Doha em relação a Teerã motivou o rompimento do Emirado catariano com o bloco de nações sunitas.

Os desdobramentos da cisão diplomática perpetrada por Riad e Abu Dhabi resultaram na interrupção de sobrevoos de companhias catarianas em espaço aéreo saudita, o fechamento da fronteira terrestre e a proibição de navios de bandeira do Qatar de navegarem sob suas águas.

Em 22 de maio de 1967 o presidente Nasser discursa para seus pilotos na base aérea de Bir Gafgafa

Em paralelo com dois contextos históricos, especialistas em política internacional classificam o posicionamento do bloco sunita como casus belli similar a Sarajevo, em 1914, com o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, evento que iniciou a I Grande Guerra, assim como com o encerramento das atividades do Estreito de Tiran pelo Egito, que cortou o acesso de Israel ao Mar Vermelho, fato este que, de acordo com alguns historiadores, foi preponderante para eclosão da Guerra dos Seis Dias.

No âmbito presente, agências de notícias internacionais revelam duas versões para a tomada de decisão: A primeira narrativa apresentada é via agência oficial de notícias do Qatar, a Al Jazeera, que transmitiu suposta citação do Emir Tamim bin Hamad al-Thani, afirmando que não haveria razão para as hostilidades árabes contra o Irã. Em complemento, as tais alegações oficiais apresentariam endosso do Qatar à Irmandade Muçulmana, ao Hamas e as boas relações com Israel.

Sheikh Tamin encontra-se com Trump em 21 de maio de 2017

Em contrapartida, a segunda narrativa apresentada por órgãos de imprensa internacionais abre a possibilidade para o hacking orquestrado por Teerã, incomodado com a postura anti-iraniana na cimeira do dia 20 e 21 de maio em Riad, que contou com a participação do presidente dos EUA, Donald Trump.

Após o anúncio das chancelarias árabes, os EUA inicialmente optaram pela cautela. O secretário de Estado Rex Tillerson incentivou os países do Golfo a restabelecerem os laços e James Mattis, secretário de Defesa, afirmou que a fenda não prejudicaria os esforços da coalizão dos EUA na luta contra o Estado Islâmico, ou ISIS (islamic state of iraq and al-sham).

Contudo, o presidente Trump não agiu com a mesma cautela via Twitter ao sugerir o Qatar como ator financiador de grupos terroristas, fato este que pode, segundo analistas internacionais, prejudicar os esforços dos EUA no combate ao terrorismo, haja vista que Washington e Doha cooperam militarmente por intermédio da base aérea de Al Udeid, peça central do comando militar estadunidense na região, e da qual partem os ataques aéreos da coalizão contra a insurgência islâmica do autoproclamado Califado Islâmico.

Rei Salman, Trump e Al-Sisi o Centro Global de Combate ao Extremismo

Na esfera da especulação, Stephen Seche, vice-presidente executivo do Arab Gulf States Institute em Washington acredita que a viagem de Trump a Riad pode ser interpretada como um sinal positivo de endosso das ações da Monarquia Saudita frente a outros atores regionais, uma demonstração de liderança regional e capacidade de ser mantenedor da ordem vigente.

Em linha com esse posicionamento, diplomatas e especialistas consultados afirmaram que as conversas bilaterais de Trump com Sheikh Tamim não foram amigáveis em comparação com outros líderes do Golfo, deixando os catarianos preocupados com os rumos da relação.

Nesse sentido, há possibilidades de o Qatar já ter reorientado toda sua política interna com foco na preparação para ser sede da Copa do Mundo de 2022 e, por isso, ter que ceder aos seus vizinhos, principalmente à Arábia Saudita, que tem capacidade de estrangular economicamente Doha.

Entretanto, há entendimento também de que Doha, aproveitando-se da impopularidade dos EUA no Oriente Médio, use da Al Jazeera, maior rede de notícias do mundo árabe, como disseminador de notícias negativas acerca do posicionamento estadunidense na região, bem como promover a cooperação com grupos islâmicos em toda a região.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente dos EUA, com o Rei Salman em Riad, 20 de maio de 2017” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Salman_of_Saudi_Arabia#/media/File:Donald_Trump_and_King_Salman_bin_Abdulaziz_Al_Saud_talk_together,_May_2017.jpg

Imagem 2Em 22 de maio de 1967 o presidente Nasser discursa para seus pilotos na base aérea de Bir Gafgafa” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Six-Day_War#/media/File:Nasser_and_Egyptian_pilots_pre-1967.gif

Imagem 3Sheikh Tamin encontrase com Trump em 21 de maio de 2017” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Tamim_bin_Hamad_Al_Thani#/media/File:Donald_Trump_meets_with_the_Emir_of_Qatar_(Sheikh_Tamim_bin_Hamad_Al_Thani),_May_2017.jpg

Imagem 4Rei Salman, Trump e AlSisi o Centro Global de Combate ao Extremismo” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Riyadh_Summit_2017#/media/File:President_Trump%27s_Trip_Abroad_(34031496153).jpg

 

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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