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Introdução à utilização do Esporte para o Desenvolvimento e a Paz pela ONU e suas agências

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A utilização do Esporte como parte ou início de discussões diplomáticas é comumente associada à chamada Diplomacia do Ping Pong, que nos anos 1970 fez com que houvesse uma aproximação entre os Estados Unidos e o Regime chinês de Mao Zedong, através de um encontro entre jogadores de tênis de mesa durante um campeonato realizado em Tóquio, Japão[1]. Claro que as diferenças entre as duas partes não foram resolvidas pelo simples encontro de jogadores de tênis de mesa, porém o fato deste encontro ter acontecido criou uma ponte entre os dois Governos para o reinício de relações diplomáticas e econômicas.

Evidentemente, somente o uso do Esporte não resolve nenhum conflito ou não traz desenvolvimento para um país, porém a ação conciliadora do Esporte junto com outras atividades pode criar um momentum para o início de discussões diplomáticas, quando se trata de um conflito, e para beneficiar o desenvolvimento de uma determinada região.

A associação do Esporte para o Desenvolvimento e pela Paz também é comumente ligada aos Objetivos do Milênio votados pela ONU durante a Cúpula do Milênio em 2000. Em 2001, o então Secretário General da ONU, Koffi Annan, criou a Agência do Esporte para o Desenvolvimento e pela Paz (UNOSDP) e nomeou o antigo Presidente da Confederação Suíça, Adolf Ogi, como seu primeiro conselheiro especial. A criação da agência se deu pela necessidade de ter uma certa coerência na maneira de utilizar a contribuição do Esporte e também de como promovê-lo.

Desde sua criação em 2001, esta Agência somente teve duas pessoas a sua frente, Adolf Ogi,até 2007, e, desde 2008, o antigo senador alemão Wilfred Lemke. O papel do conselheiro é defender, facilitar e representar. Defender a utilização do Esporte para o Desenvolvimento e pela Paz à frente das outras Agências da ONU e outras partes envolvidas para alcançar os Objetivos do Milênio. Também faz parte da sua agenda trabalhar para que as diversas Agências ligadas a ONU e Estados membros mantenham um diálogo e colaborem criando parcerias para a utilização do Esporte. A última parte da função do conselheiro é representar o Secretario General da ONU em eventos ao redor do mundo.

Diversas Agências ligadas as Nações Unidas já reconhecem o poder e a força do Esporte como auxiliar para atingir os objetivos estabelecidos em 2000. Diversas Organizações Não Governamentais e Governos associam-se a agências das Nações Unidas e, como parte do projeto, utilizam o Esporte para atingir o desenvolvimento, individual e coletivo, e a paz. No Brasil, no início do mês de agosto de 2014, ocorreu a primeira Copa do Mundo dos Refugiados, organizada em conjunto pela ACNUR e Caritas-SP com participação da UNAIDS e ONU Mulheres[2]. Este evento serviu para dar visibilidade aos refugiados e ao trabalho feito no Brasil por essas organizações.

Com participantes de diversos países asiáticos e africanos, a competição foi pouco noticiada devido ao pequeno número de refugiados no Brasil[3]. Exemplos como este do preparo de um Evento para mostrar como se encontra uma situação ou para promover campanhas contra violência doméstica, prevenção de doenças como Aids e promover a integração entre povos acontece ao redor do mundo. Uma grande parte destas iniciativas não estão necessariamente ligadas a agencias da ONU e faz parte do trabalho da Agência do Esporte para o Desenvolvimento e pela Paz mapear estas organizações e estar em contato para criar possíveis pontes para colaborações.

Em 2012, o atual Conselheiro Especial da ONU para o Esporte, Wilfried Lemke, ao se dar conta da falta de recursos e treinamento em diversas de suas viagens para as organizações que trabalham com Esporte para o Desenvolvimento e a Paz, decidiu criar o primeiro projeto desta Agência, o Programa para Jovens Líderes[4]. A ideia deste projeto é dar a jovens que provem de países em desenvolvimento e trabalhem com Esporte a possibilidade de participar de um treinamento intensivo, ministrado por organizações reconhecidas que detém a experiência que muitas vezes falta a estes. Desde 2012, em 12 campos, mais de 400 alunos de mais de 80 países passaram e tiveram treinamento com organizações como Right to Play, UNAIDS, UNHCR e outras que passaram a eles o conhecimento para que pudessem trazer algo a mais para seus projetos.

A utilização a nível governamental do Esporte para o Desenvolvimento e a Paz ainda está somente no seu início e poucos países atualmente utilizam projetos dentro desse escopo como parte de suas cartilhas políticas para atingir os objetivos estabelecidos pela ONU no começo do século XXI.

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Siglas: ONU: Organização das Nações Unidas; UNOSDP: United Nations Office on Sport for Development and Peace (Agência da ONU sobre Esporte para o Desenvolvimento e pela Paz)

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Imagem (Fonte):

http://www.un.org/wcm/webdav/site/sport/shared/sport/Documents/Annual%20Report%202013/UNOSDP%20Annual%20Report%202013%20Front%20Page.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Sobre a Diplomacia do Ping Pong, ver: Itoh, Mayumi (2011). The Origin of Ping-Pong Diplomacy: The Forgotten Architect of Sino-U.S. Rapprochement. Palgrave-MacMillan (Livro) e Wang Guanhua, “Friendship First’: China’s Sports Diplomacy in the Cold War Era”, Journal of American-East Asian Relations 12.3-4 (Fall-Winter, 2003): 133-153. (Artigo)

[2] Ver Site da Copa dos Refugiados:

http://www.kickante.com.br/campanhas/copa-dos-refugiados-acnurcaritassp

Ver também Artigo na Veja:

http://vejasp.abril.com.br/materia/sao-paulo-recebe-copa-mundo-refugiados

[3] De acordo com a ACNUR-UNHCR, são cerca 5200 refugiados reconhecidos no Brasil:

http://www.acnur.org/t3/portugues/informacao-geral/o-acnur-no-brasil/

[4] Sobre o programa para Jovens Lideres (Youth Leadership Programme):

http://www.un.org/wcm/content/site/sport/home/unplayers/unoffice/YLC

Thomas Farines - Colaborador Voluntário Júnior 1

Mestrando em Estudos Políticos do Oriente Médio e do Mediterrâneo no King’s College London. Especialista em História e Política do Oriente Médio e Maghreb. Possui Bacharelado em Historia pela UFSC. Participou de diversos projetos de pesquisa ligados ao CNPQ: A imagem do Outro em relatos de viajantes; Diáspora Africana no Brasil e Movimento Sem Terra. Hoje, além de trabalhar academicamente com Esporte para o Desenvolvimento e para a Paz, é treinador voluntário em um projeto que ensina jovens de bairros desprivilegiados a jogar futebol.

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