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A invasão turca, a resistência curda e os destinos da Síria

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Teve início em 20 de janeiro uma grande ofensiva aérea e terrestre das forças armadas turcas contra as milícias curdas entrincheiradas em Afrin, no norte da Síria. A operação, que recebeu o nome de “Ramo de Oliveira”, tem o objetivo de combater o YPG (sigla em curdo para Unidades de Proteção Popular), grupo que colaborou com a derrota do Estado Islâmico (EI) durante a guerra civil síria, mas que é acusado por Ancara de ter conexões com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), listado por muitos governos ocidentais como uma organização terrorista.

Vista de Afrin

Não é recente a preocupação dos turcos com o fortalecimento dos combatentes curdos concentrados ao longo de sua fronteira sul, sobretudo impulsionada pela decisão do Governo dos Estados Unidos de fornecer-lhes armas e equipamentos com o objetivo declarado de auxiliar na luta contra os “jihadistas” do EI. A opção pela deflagração de uma campanha militar, contudo, veio após a divulgação dos planos estadunidenses de criar uma “força de segurança de fronteira composta predominantemente por curdos e treinada por Washington. Mesmo que esta intenção tenha sido posteriormente desmentida pelo Secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, o presidente turco Recep Erdogan optou por dar prosseguimento à operação.

Em uma região marcada pela volatilidade e onde objetivos estratégicos antagônicos se sobrepõem, torna-se difícil identificar com precisão as possíveis implicações de um eventual sucesso da incursão turca na Síria. É certo que até o momento foram raras as manifestações formais de apoio a Ancara por parte dos diversos atores que formam o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio, o que pode levar a crer em uma desaprovação consensual da comunidade internacional ao ataque a Afrin. Esta percepção, contudo, ainda não foi traduzida em ações concretas contra as investidas das Forças Armadas da Turquia.

A “carta branca” que Ancara parece ter recebido para conduzir suas operações pode ser justificada por interesses convergentes acerca da questão ainda não resolvida da autodeterminação do povo curdo e da hipotética formação de um Curdistão independente, que teria o potencial de abranger territórios hoje pertencentes a quatro países (Síria, Turquia Irã e Iraque). Por certo que o Governo de Erdogan é o principal interessado em desmobilizar as forças curdas no país vizinho, o que não apenas reduziria a capacidade de organização de um movimento emancipatório na Síria e com possíveis ramificações em seu próprio território, mas também iria ao encontro do fervor nacionalista de sua base eleitoral doméstica, que é o sustentáculo de seu poder. No entanto, Rússia, Irã e também o Regime sírio poderão angariar benefícios de um eventual sucesso turco, ainda que cada um a sua maneira.

Militantes do FSA nas cercanias de Afrin

A Rússia colhe hoje os frutos de ter sido a principal apoiadora do presidente sírio Bashar al-Assad em sua luta por se manter no poder ao longo de toda guerra civil que convulsionou o país árabe. Moscou manteve e expandiu suas bases militares na Síria, é responsável pelo controle de boa parte de seu espaço aéreo e permanece sendo a principal fiadora do Regime de Damasco. Desta forma, é improvável que a operação turca tenha acontecido sem o consentimento do Kremlin. A remoção de pessoal militar russo de Afrin no mesmo dia do início dos combates evidencia o alinhamento das ações.

Tendo Assad como fiel aliado, o principal objetivo de Moscou é fortalecer o poder do dirigente sírio e facilitar a reintegração de vastos territórios que ainda continuam fora do controle de Damasco. Uma dessas regiões é a província de Idlib, controlada majoritariamente pelo Exército Sírio Livre (FSA, na sigla em inglês), grupo rebelde sunita que goza do apoio da Turquia. Outra é a porção norte do país, governada de facto pelos curdos. Concomitantemente com o avanço turco em Afrin, que também conta com a participação de militantes do FSA, o Exército sírio ocupou sem resistência uma estratégica base aérea em Idlib, anteriormente nas mãos das forças contrárias ao Regime. Este evento sugere a possibilidade de um acerto entre Moscou e Ancara na direção de oferecer uma acomodação também aos interesses de Assad. Da mesma forma, o provável enfraquecimento das forças curdas provocado pela ação da Turquia poderá facilitar a devolução do hoje autônomo Curdistão sírio ao controle do Estado.

Outro ponto focal de interesse da Rússia é a tentativa de deslegitimação e, se possível, eliminação por completo do resquício de influência que a Casa Branca poderia ter no destino da Síria pós-guerra civil. Atualmente, a participação dos EUA no desenrolar desse conflito está predominantemente restrita ao apoio tático oferecido às milícias curdas e seus aliados. A facilitação da ofensiva turca cumpriria o objetivo de minar as posições estadunidenses na região e, em adição, fomentaria o dissenso entre Ancara e Washington, dois membros estratégicos da principal aliança militar do Ocidente.

Carro de combate estadunidense em meio a combatentes curdos

Já o Irã, lar de uma considerável minoria curda, compartilha dos mesmos receios que a Turquia com relação ao surgimento do Curdistão como uma entidade política coesa. Ademais, se alinha com a Rússia na tentativa de limitar a capacidade dos EUA de imprimir suas políticas no Oriente Médio. Assim, o avanço turco em Afrin não é motivo para maiores objeções em Teerã. No entanto, o componente religioso cumpre um papel importante em sua política externa. Além de contar com contingente militar próprio no país sob a solicitação de Assad, o Irã apoia as forças xiitas largamente favoráveis ao Regime. Dessa forma, o fortalecimento das milícias sunitas financiadas por Ancara pode suscitar o atrito entre turcos e iranianos em um futuro próximo.

Por sua vez, é o Governo sírio que se encontra em posição mais delicada. Diante do que se apresenta como uma invasão externa ao seu país, Assad chamou de “agressão turca” a operação militar agora em curso. Compreensivelmente, a ocupação de parte de seu território por um país estrangeiro e o apoio da Turquia aos combatentes do FSA, contrários ao regime, não é reconfortante para Damasco. No entanto, uma possível derrota dos curdos pode servir ao objetivo do Estado sírio de reunificar o país sob um mesmo controle central. Especialmente interessante seria o fato de que a campanha militar aconteceria sem a participação direta de forças governamentais, o que viria como um alento para Assad, frequentemente acusado nos círculos ocidentais de massacrar a própria população.

No entanto, a confiança de que a Turquia vá se ater aos objetivos formais da missão e posteriormente abdicar das posições conquistadas é a única garantia de Assad para que sua soberania sobre o norte do país seja retomada. Há ainda a esperança de que o Kremlin intervirá em favor de Damasco em caso de uma possível traição turca, o que não desabona o cenário atual como uma cartada de alto risco. Ainda assim, debilitado por oito anos de guerra civil, o líder sírio não parece não ter outra alternativa senão acatar os desígnios que Moscou, e em menor grau, Ancara e Teerã, imaginam para seu país.

Encontro entre Assad e Putin em 2015

Os outros dois atores de grande relevo na geopolítica regional, Israel e Arábia Saudita, não possuem envolvimento direto nos desenvolvimentos atuais na Síria, embora os sauditas tenham sido os principais financiadores das milícias sunitas radicais durante o estágio mais dramático da guerra civil no país. Contudo, tanto Tel Aviv como Riad veem com bons olhos um eventual movimento de desmembramento sírio capitaneado pela emancipação dos territórios controlados pelos curdos. Neste cenário, restaria evidente o enfraquecimento da capacidade de influência iraniana no Oriente Médio, já que Teerã advoga por um Estado unificado sob Assad. Para sauditas e israelenses, o Regime de Teerã permanece sendo a principal força a ser combatida na região.

Finalmente os curdos, que estão cada vez mais isolados. Eles foram força importante durante os combates contra o Estado Islâmico, que agora não mais se apresenta como uma ameaça proeminente. Assim, desprovidos de função objetiva, aos olhos dos grandes atores regionais os curdos retornam paulatinamente ao seu papel histórico de povo sem Estado. Os EUA permanecem sendo a única grande potência a ainda os ter como aliados, seja por gratidão aos serviços prestados contra o grupo terrorista ou por serem os únicos procuradores estadunidenses remanescentes no conflito sírio.

Unidade de combate feminina das forças curdas

Contudo, nem mesmo Washington deverá continuar a acomodar os interesses curdos em seus planos para a região caso essa ação passe a se tornar muito custosa. Ancara já deixou claro que terá como alvo àqueles que apoiarem os combatentes do YPG. Desta forma, diante de um iminente cenário de confrontação com a Turquia, é pouco provável que a Casa Branca priorize os seus laços com os curdos em detrimento de suas já conturbadas relações com sua aliada na OTAN. Não obstante, em caso de vitória das forças turcas, os Estados Unidos sofrerão importante revés estratégico em sua política para o Oriente Médio. Seria mais um baque para o poder estadunidense na região, já contestado após as desastrosas campanhas no Afeganistão e no Iraque, e que parece estar em franco declínio após a chegada de Donald Trump à Presidência.

Por fim, é preciso atentar para o significativo potencial de combate que os curdos demonstraram nos últimos oito anos de conflito na Síria. Não será surpresa, portanto, que o Exército turco venha a ter dificuldade em cumprir com seus objetivos militares. Mesmo defendida por cerca de apenas 10.000 combatentes, Afrin ainda resiste após mais de dez dias de ataques por ar e terra e, caso caia nos próximos dias, quase duas semanas de resistência já terá sido um grande feito. Manifestações contrárias à operação militar e de apoio à autonomia do povo curdo já foram realizadas no Curdistão iraquiano e tendem a se espalhar para outros pontos da região. Ainda que improvável, uma vitória curda ou o prolongamento desgastante das batalhas embaralhará ainda mais o quebra-cabeças no Oriente Médio.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa da Operação Ramo de Oliveira” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Interven%C3%A7%C3%A3o_turca_na_Guerra_Civil_S%C3%ADria_(2018%E2%80%93presente)#/media/File:Operation_Olive_Branch_(2018).png

Imagem 2 Vista de Afrin” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Afrin,_Syria#/media/File:Afrin,south.jpg

Imagem 3 Militantes do FSA nas cercanias de Afrin” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Turkish_military_operation_in_Afrin#/media/File:FSA_Afrin_25-1-2018_(3).jpg

Imagem 4 Carro de combate estadunidense em meio a combatentes curdos” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Protection_Units#/media/File:YPG_and_US_army_Hassaka_1-5-2017.jpg

Imagem 5 Encontro entre Assad e Putin em 2015” (Fonte):

https://ru.wikipedia.org/wiki/%D0%90%D1%81%D0%B0%D0%B4,_%D0%91%D0%B0%D1%88%D0%B0%D1%80#/media/File:Bashar_al-Assad_in_Russia_(2015-10-21)_06.jpg

Imagem 6 Unidade de combate feminina das forças curdas” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Protection_Units#/media/File:YPJ_fighters_shake_hands_with_one_another.jpg

Rodrigo Monteiro de Carvalho - Colaborador Voluntário

Mestrando no programa de Pós Graduação em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduado em História também pela UFRJ. Atua na área de Política Internacional, formação de alianças e segurança regional. Desenvolve pesquisas com enfoque específico no estudo dos países do Cáucaso do Sul, Eurásia e espaço pós-soviético. É membro do Grupo de Pesquisas de Política Internacional (GPPI/UFRJ) e do Laboratório de Estudos dos Países do Cáucaso (LEPCáucaso).

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1 Comments

  1. vanilton ribeiro dos santos 1 de fevereiro de 2018

    Ótima leitura, obrigado!

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Olá!