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Iraque vive uma das piores crises humanitárias do mundo

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De acordo com as estimativas das Nações Unidas, 11 milhões de iraquianos necessitam de ajuda humanitária imediata, ou seja, cerca de 1/3 dos habitantes do país (34,81 milhões). Civis e oficiais iraquianos expressaram preocupação com a situação humanitária em cidades no oeste, como Fallujah e Ramadi, pois o número de pessoas que necessitam de proteção e assistência humanitária dobrou desde o ano passado (2015). Esta cifra inclui 3,4 milhões de pessoas internamente deslocadas, desde janeiro de 2014, mais de 440.000 repatriados e 246.589 refugiados sírios. A UNOCHA (sigla para o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários) chamou a crise decomplexa e em expansão” e de “uma das priores do mundo”.

Em um comunicado lido no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o enviado da ONU ao Iraque, Jan Kubis, alertou para o potencial de deslocamento em massa de um adicional de dois milhões de iraquianos nos próximos meses. Kubis pediu à comunidade internacional que forneça ajuda à Fallujah, pois, há quase dois anos, ela tem sofrido um cerco imposto, após ter se tornado a primeira cidade a cair sob controle do Estado Islâmico, em janeiro de 2014.

Desde então, o Exército iraquiano tem mantido um bloqueio quase total à Fallujah e o Estado Islâmico (EI) proibiu qualquer civil de sair da cidade. Com apenas algumas rotas permanecendo abertas, há uma grave escassez de alimentos, remédios e combustível. Aproximadamente 50.000 residentes estão em risco de fome. Além do severo domínio do Estado Islâmico imposto à cidade, a Human Rights Watch, juntamente com o Iraq Oil Reports relatam incidentes de crianças e adultos morrendo de fome ou de complicações por subnutrição.

O Governo iraquiano e as milícias xiitas aliadas também são responsáveis pela situação, por terem estabelecido um cerco e bombardearem o local. “As forças iraquianas impedem embarcações contendo alimentos e outros bens de alcançarem a cidade”, denuncia a Human Rights Watch e, conforme vem sendo divulgado, os poucos corredores humanitários estabelecidos para envio de ajuda são barrados pelo EI.

Milhões de iraquianos vivem no território controlado pelo Estado Islâmico no país e demandam alguma forma de assistência. A guerra contra o grupo criou mais de 3,4 milhões de deslocados internos, muitos vivendo em campos sem acesso a cuidados médicos, água ou roupas. Além disso, comunidades carentes hospedando uma alta concentração de deslocados internos, fora dos campos de refugiados, competem por serviços escassos, o que aumenta o risco de conflito social.

Em fevereiro de 2015, Ramadi foi totalmente recapturada pelas forças iraquianas e da coalizão liderada pelos Estados Unidos. A cidade, no entanto, permanece sob necessidade de assistência extrema. A maioria das casas foi destruída, dizem os habitantes. Enquanto os moradores locais reportam que a situação é mais gerenciável em Ramadi do que em Fallujah, eles têm manifestado preocupação com os cortes de energia, a falta de instalações médicas, bem como as minas terrestres não detonadas. “Não temos água potável. Na verdade, não temos o abastecimento de água para nada”, afirmou Fallah Khalifa, residente de Ramadi, à agência de notícias do Qatar Al Jazeera. Além disso, mais de 50 valas comuns foram descobertas nos territórios anteriormente controlados pelo Estado Islâmico, segundo enviado da ONU. Só em Ramadi, três valas contendo até 40 conjuntos de restos mortais foram achadas em um campo de futebol.

O Iraque permanece padecendo de uma severa crise de proteção humanitária, tendo também registrado neste ano (2016) um forte aumento de graves violações dos direitos da criança. Populações foram submetidas a execuções em massa, estupros sistemáticos e atos de violência, incluindo execuções e tortura. Crianças têm sido usadas como homens-bomba e escudos humanos, e mulheres e meninas foram escravizadas e submetidas à violência sexual. Estima-se que 3 milhões de crianças não têm acesso à escolas.

Neste sentido, as necessidades humanitárias no Iraque são mais críticas do que nunca. Novos deslocamentos ocorrem sempre que conflitos são registrados, mas civis em fuga agora possuem menos opções para aceder a áreas mais seguras no Iraque, devido à forte contaminação por resíduos dos explosivos de guerra e de dispositivos explosivos improvisados. O acesso à ajuda humanitária permanece muito restrito pela insegurança. Os números de repatriados que voltam ao Iraque estão aumentando, assim como as preocupações com relação às condições precárias em muitas áreas do país, pois os serviços básicos permanecem limitados, debilitados por anos de conflito, negligência e déficit de orçamento.

Estima-se que 2,4 milhões de pessoas estejam sob situação de insegurança alimentar e a desnutrição é crescente. Em 2015, a agência foi capaz de prover assistência alimentar para 2,1 milhões de pessoas no Iraque e, de acordo com o relatório de 2016 da UNOCHA, US$ 861 milhões são necessários para atender os 7,3 de 11 milhões de iraquianos alcançados pela organização, um aumento de 24%, em relação a 2015.

Além disso, o número de casos de doença aumentou em até 50% em áreas com grandes concentrações de pessoas deslocadas internamente, distendendo de forma severa as precárias instalações existentes. Surtos de doenças, incluindo a cólera, estão ocorrendo. Cada vez mais famílias iraquianas fogem para outros países em busca de segurança e melhores condições de vida. Segundo a ONU, cerca de 2,6 milhões de iraquianos deixaram o país desde o início da mais recente crise, em janeiro de 2014, quando o Estado Islâmico tomou grandes áreas do país.

Adicionalmente, mais de um milhão de iraquianos fugiram entre os anos de 2006 e 2008 devido à guerra sectária no país, que se seguiu a invasão e a ocupação liderada pelos Estados Unidos, em 2003. As forças governamentais iraquianas, apoiadas por ataques aéreos e conselheiros da coalizão internacional, conseguiram recuperar alguma parcela do território tomado pelo Estado Islâmico. No entanto, o grupo ainda controla vastas áreas do norte e oeste do Iraque

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ImagemUm veículo militar das forças de segurança iraquianas é conduzido pelas ruas iraquianas de Ramadi” (FonteReuters/IslamwebFoto de arquivo, 16 de janeiro de 2016):

http://www.islamweb.net/en/article/211030/

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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