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Líder da Ansar Eddine enviado ao TPI por crimes em Timbuktu

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Ahmad Al Mahdi Al Faqi, suposto líder da Ansar Eddine, grupo islâmico radical ligado à AlQaeda no Magrebe Islâmico(AQMI) que atua no Mali, foi entregue ao Tribunal Penal Internacional (TPI) para enfrentar acusações de destruição da cidade de Timbuktu. Este é o primeiro caso levado ao TPI – único tribunal de crimes de guerra permanente no mundo – para julgar o ciclo de violência que tem assolado o país no oeste da África[1].

Faqi é suspeito “de crimes de guerra supostamente cometidos em Timbuktu, Mali, entre cerca de 30 de junho de 2012 e 10 de Julho de 2012, dirigindo intencionalmente ataques a edifícios dedicados à religião e/ou à monumentos históricos[1], informou o comunicado. A Ansar Eddine é um dos grupos que tomaram brevemente o controle do vasto e árido norte do Mali em 2012, implementando uma interpretação rigorosa da sharia, mas que ainda é responsável por ataques terroristas pontuais em Kidal, Gao,Bamako e Timbuktu[2].

Al Faqi foi detido sob um mandado de prisão emitido pelo TPI na semana passada e entregue pelas autoridades do Níger, declarou o Tribunal em um comunicado. Ele chegou a Haia neste sábado, onde o TPI se baseia, para este que é o primeiro caso a ser trazido pelo Tribunal relativo à destruição de edifícios religiosos e monumentos históricos. Faqi, líder Tuareg também conhecido AbuTourab, é suspeito de crimes de guerra e da destruição deliberada em 2012 de edifícios classificados pela UNESCO como patrimônio da humanidade e herança desértica[1].

Em seu papel como parte do Tribunal Islâmico de Timbuktu, ele é acusado de ter encomendado ou realizado a destruição de nove mausoléus, bem como da Mesquita Sidi Yahia. O ICC declarou haver motivos razoáveis para suspeitar que Faqi era “criminalmente responsável por ter cometido, individualmente e em conjunto com os outros, facilitado ou de outra forma contribuído, para o cometimento de crimes de guerra[1] relacionados à destruição dos edifícios.

Grupos islâmicos extremistas como o Ansar Eddine, que iniciaram suas operações no Mali em março de 2012, são responsáveis pela fuga de muitos cristãos do país, devido aos crimes de guerra e contra a humanidade, perpetrados na religião. O grupo impôs uma severa interpretação da lei islâmica sobre a população local. Em Timbuktu, mulheres foram obrigadas a usar o véu em público, adúlteros apedrejados, mulheres forçadas ao casamento e sequestradas, ladrões mutilados e sítios religiosos destruídos por serem considerados idolatria. Uma vez uma das democracias mais estáveis da região, o Mali ruiu em desespero em apenas seis meses, sob um governo impotente, em face da ocupação[3].

A Ansar Eddine (Defensores da Fé) possui laços com grupos separatistas do norte, através do seu comandante tuaregrenegado, Iyad Ag Ghaly – um dos mais proeminentes líderes da rebelião tuareg na década de 1990. Mas foi excluída de um acordo de paz entre o governo do Mali e os grupos armados do norte que tinha como objetivo encerrar décadas de rebeliões tuaregues na região[2]. Separatistas tuaregues seculares contaram com ajuda de grupos armados de orientação islâmica como aAnsar Eddine para conquistarem o norte do Mali em sua insurgência contra o Governo. Contudo, após a tomada da região, em abril de 2012 e a declaração (não-reconhecida) da independência de Azawad, entraram em conflito e romperam com os grupos islâmicos, perdendo o controle das principais cidades em julho[4].  A entidade política declarada não foi reconhecida por nenhuma das nações locais tampouco pela comunidade internacional, entrando em colapso três meses depois, em 12 de julho de 2012[4].

Em 28 de janeiro de 2013, as tropas do Governo francês e do Mali iniciaram a retomada de Timbuktu dos rebeldes islâmicos. O total de 1.000 soldados franceses e 200 soldados malianos retomaram Timbuktu sem luta, uma vez que os grupos islâmicos já haviam fugido para o norte, alguns dias antes, sem antes atearem fogo ao Instituto Ahmed Baba, que abrigava muitos manuscritos históricos importantes[5].

Timbuktu é localizada a cerca de 1.000 quilômetros a nordeste de Bamako, capital do Mali. Em junho de 2012, combatentes ligados à AlQaeda no Magrebe Islâmico destruíram 16 dos mausoléus, que remontam a sua idade de ouro como um centro econômico, intelectual e espiritual nos séculos XV e XVI. Possui uma longa tradição de tolerância e diversidade, sendo considerada uma cidade humanista e cosmopolita, célebre centro de aprendizado islâmico e rota trans-saariana estratégica de comércio de sal e ouro entre os séculos XII e XVII[6]. No pico de sua influência, nos séculos XV e XVI, contou com aproximadamente 200 escolas e universidades que atraíram milhares de estudantes de todo o mundo muçulmano[7].

Chamada de “Cidade dos 333 Santos”, em Timbuktu os mausoléus foram construídos para homenagear santos falecidos que foram considerados piedosos, grandes humanistas e estudiosos de seu tempo – mas as edificações eram consideradas blasfêmias pelos grupos armados[1]. Por volta de 4.000 manuscritos foram perdidos, roubados ou queimados durante a tomada, e outros 10.000 manuscritos foram descobertos em condições de armazenamento inadequadas[1]. No entanto, 370.000 dos pergaminhos de valor inestimável foram contrabandeados para Bamako, em 2012, para protegê-los dos grupos armados, e arquivistas na capital do Mali estão agora meticulosamente classificando e digitalizando-os.

Em 2014, o corpo cultural da ONU, a UNESCO, começou a reconstruir Timbuktu com o Governo do Mali e outras organizações internacionais, depois de uma operação militar liderada pela França, em 2013, dirigida para retirar os grupos armados da cidade. O projeto de reconstrução de $11 milhões se baseia fortemente em métodos tradicionais de construção e de conhecimento cultural local[1]. Quatorze mausoléus destruídos em 2012 já foram recuperados pelas Nações Unidas[7].

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Imagem Antigo santuário em Timbuktu é destruído pela Polícia Islâmica nesta foto tirada em 1o de julho de 2012. O mausoléu levou um ano para ser reconstruído por pedreiros locais usando técnicas tradicionais” (Fonte):

http://edition.cnn.com/2012/10/18/world/africa/mali-shrines/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/2015/09/tuareg-leader-icc-timbuktu-crimes-150926075226347.html

Ver Também:

http://www.icc-cpi.int/en_menus/icc/press%20and%20media/press%20releases/Pages/pr1154.aspx

[2] Ver:http://www.aljazeera.com/news/2015/03/al-qaeda-linked-group-claims-mali-restaurant-attack-150309072613760.html

Ver Também:

http://pulse.ng/world/in-mali-islamist-group-ansar-dine-claims-multiple-attacks-id3943150.html

Ver Também:

http://news.yahoo.com/ansar-dine-claims-mali-attacks-threatens-coast-mauritania-142356461.html

[3] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/africa/2012/07/201273021254165201.html

[4] Ver:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/26661/grupos+insurgentes+no+mali+tem+origens+e+objetivos+diferentes.shtml

[5] Ver:

http://www.reuters.com/article/2013/01/29/us-mali-rebels-idUSBRE90O0C720130129

[6] Ver:

http://www.timbuktuheritage.org/timhistory.html

[7] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-33587325

Ver Também:

http://www.theguardian.com/law/2015/sep/26/alleged-islamic-extremist-accused-of-destroying-timbuktu-monuments-sent-to-hague

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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