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Em uma leva de documentos obtidos pelo órgão Privacy International, e analisados em um relatório publicado pela entidade, pode-se observar a evolução do projeto de monitoramento da Internet na Síria, de 2007 a 2010, um ano antes de começar a revolução que evoluiu para guerra civil e, atualmente, está no cerne da crise dos refugiados sírios. 

Em 2007, o acesso à Internet na Síria era limitado aos servidores estatais, de forma que serviços como Google, Facebook e Twitter eram inacessíveis. Mas, antes da inevitável expansão do acesso à Internet no país, o Estabelecimento de Telecomunicações Sírio (STE, na sigla em inglês) publicou um pedido para companhias desenvolverem um sistema de vigilância capaz de monitorar todos os dados fluindo pela Internet síria. Nessa publicação, eram delimitados os serviços a serem monitorados, dentre eles: sites visitados, e-mails, chats, mensagens instantâneas, VPNs, e conexões criptografadas. O sistema a ser desenvolvido ficou conhecido como “Sistema Central de Monitoramento de Serviços de Rede de Dados Públicos e Internet”.

Uma das empresas que tentou vencer a concorrência foi a empresa fundada em Berlim, chamada de “Advanced German Technology” (AGT), que, assim como outras empresas europeias, vêm criando uma crescente carteira de clientes ao redor do mundo. A AGT, junto com a empresa italiana RCS Lab, foi a Damasco em 2008 para apresentar um protótipo do sistema de vigilância desejado pelo Governo sírio. 

Documentos dessa apresentação, publicados no relatório do Privacy International, revelam termos como “abrangente solução de monitoramento de telecomunicações” capaz de “identificação de redes” e “filtragem e coleta de pacotes”. O sistema seria hábil para filtrar por palavra-chave, de acordo com o documento, e identificar e monitorar “milhares de diferentes protocolos IP”, como HTTP, os protocolos de e-mail SMTP e POP3, chat e protocolos de vídeo para MSN, IRC, Yahoo, ICQ e outras aplicações.

Porém, quem venceu o contrato foi outra empresa italiana, chamada Area Spa, em conjunto com a empresa alemã Ultimaco, além da empresa francesa Qosmos. Atualmente, a Area Spa está sendo investigada na Itália pelo seu envolvimento com o Governo sírio e a Qosmos está sob investigação na França por, alegadamente, auxiliar o Governo da Síria a torturar dissidentes. 

Em 2009, foi lançado o próximo passo do sistema de vigilância do país. Dessa vez, o alvo era interceptar dois cabos internacionais que conectavam a Internet a Aleppo e Damasco, em uma tentativa de monitorar todo o tráfego de internet entrando e saindo da Síria. A informação a respeito de quem ganhou esse último contrato de expansão do sistema de vigilância não está nos documentos obtidos pelo Privacy International. 

Vale ressaltar que essas concorrências aconteceram antes da Primavera Árabe e da onda de revoluções que perpassou o Oriente Médio, de forma que a Privacy International argumenta em seu relatório que “A preparação para a Primavera Árabe foi uma temporada aberta para as empresas de vigilância – elas forneceram tecnologias aos ansiosos clientes do governo, amplamente conhecidos por serem publicamente engajados na repressão”.

Apesar de o Governo Assad já ser conhecido pelo seu duro tratamento de dissidentes e pouquíssima transparência antes da Primavera Árabe, a União Europeia não proibia a venda de equipamentos de monitoramento de telecomunicações na Síria, assim como os EUA, que, apesar de algumas sanções e restrições, permitiam a venda de equipamentos de monitoramento sob licença

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ImagemCapa do Relatório” (FontePrivacy International):

https://privacyinternational.org/sites/default/files/OpenSeason.pdf

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Breno Pauli Medeiros - Colaborador Voluntário Júnior

Mestrando em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Formado em Licenciatura e Bacharelado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Desenvolve pesquisa sobre o Ciberespaço, monitoramento, espionagem cibernética e suas implicações para as relações internacionais. Concluiu a graduação em 2015, com a monografia “A Lógica Reticular da Internet, sua Governança e os Desafios à Soberania dos Estados Nacionais”. Ex bolsista de iniciação científica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), período no qual trabalhou no Museu Nacional. Possui trabalhos acadêmicos publicados na área de Geo-História e Geopolítica.

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