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Lobos Cinzentos: a presença dos ultranacionalistas turcos nos conflitos atuais

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Os conflitos atuais, em algumas partes do mundo, têm chamado a atenção pela presença de diferentes grupos extremistas que agem num propósito comum de destruição e aniquilamento de vidas humanas, independentemente da nacionalidade. De entre as várias facções insurgentes que atuam, hoje, ao nível do terrorismo internacional, os combatentes turcos, que compõem a organização denominada Lobos Cinzentos, têm sobressaído. Conhecidos como Clubes Idealistas, ou Corações Idealistas [em turco: Ülkü Ocakları], a organização foi fundada na década de 1960. Os combatentes desta organização são ideologicamente originários da extrema-direita, ligados ao Partido do Movimento Nacionalista turco e têm como objetivo unir todos os turcos em um único território. Os Lobos Cinzentos, inicialmente, estiveram sob a liderança de seu fundador, o Coronel Alparslan Türkeş, que foi abertamente um admirador das ideias do líder nazista alemão, Adolf Hitler. A partir de 1997, os ultranacionalistas passaram a ser liderados por Devlet Bahçeli. O grupo se notabilizou entre os anos de 1976 a 1980, durante o período de violência que atingiu a Turquia, estendendo-se a 1981, quando Mehmet Ali Ağca, com ligações aos Lobos Cinzentos, tentou assassinar o Papa João Paulo II na Praça de São Pedro, no Vaticano.

Na Síria, os Lobos Cinzentos têm contribuído para dinamizar o conflito, em curso desde 2011. Segundo informações, os ultranacionalistas turcos ingressaram como combatentes na Guerra Civil da Síria, para defender os turcomanos, a minoria étnica turca que se encontrava na mira da Rússia. As ações daqueles radicais intensificaram-se após o início da campanha militar russa naquele país, em 29 de setembro de 2015, com operações militares contra Bayır Bucak, a região turcomana de Latakia. Suspeita-se que as ações dos Lobos Cinzentos, na Síria, assim como em outras partes do planeta, contam com o apoio do Governo turco. Em solo sírio, os fatos confirmam a criação de unidades de turkmen, sob a orientação da Turquia. Há, também, uma propaganda que revela, de acordo com o sítio web al-Monitor, as aspirações neo-otomanas do Presidente turco Recep Tayyip Erdoğan. Neste sentido, têm circulado na mídia social turca incitamentos como este: “As terras onde estão as relíquias de nossos antepassados estão, hoje, sob bombardeamento russo. Quase todas as nossas aldeias foram confiscadas pelos russos”.

Os ultranacionalistas turcos carregam consigo uma larga experiência em ações terroristas dentro e fora da Turquia. De acordo com informações, eles estão ligados à máfia turca, a qual contribui com o apoio logístico para as operações externas do grupo. Desde os anos de 1990, os Lobos Cinzentos estenderam as suas atividades a “Estados pós-soviéticos com populações turcas e muçulmanas”. Os extremistas também reivindicaram o atentado em Bangkok, Tailândia, que fez aproximadamente 16 vítimas mortais e feriu 81 pessoas, em agosto de 2015, em retaliação ao fato de a Tailândia ter deportado para a China mais de 100 pessoas da etnia turca muçulmana, Uyghurs. Atualmente, consta ainda que os Lobos Cinzentos estão marcando presença na Criméia, ao sul da Ucrânia, encontrando-se em negociações com os nacionalistas ucranianos, o que para os analistas é um risco, na medida em que os ultranacionalistas turcos “nunca tiveram respeito pelos outros povos”.

Os radicais não escondem a oposição à Rússia, que não é considerada, por eles, como um país amigo. Neste contexto, o recrutamento de combatentes para a Guerra Civil síria, por exemplo, é justificado pela defesa de uma minoria étnica e identitária turca, contra as forças militares russas. De certo modo, as relações entre a Turquia e a Rússia se deterioraram, nomeadamente, após um avião russo Sukhoi Su-24 ter sido abatido pela Força Aérea da Turquia, acusado de ter violado o espaço aéreo da Turquia, em finais de 2015. Na ocasião, o Tenente-Coronel russo, Oleg Peshkov, após ejetar-se do avião, foi morto a tiro por Alparslan Çelik, membro da organização Lobos Cinzentos. Recentemente, Çelik foi preso, mas as autoridades turcas de Izmir, localidade onde o miliciano foi detido, afirmaram que a sua prisão não tinha relação com a morte do piloto, estando relacionada com o transporte ilegal de armas e o alegado desvio de ajuda para a comunidade turcomena, na Síria.

A par do apoio do Governo turco aos Lobos Cinzentos, as ações destes insurgentes em diferentes pontos da geografia mundial têm contribuído para o aumento da violência em nome de um ideal nacionalista que constitui, simultaneamente, o perigo de uma escalada maior envolvendo atores estatais.

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ImagemManifestantes do Partido do Movimento Nacionalista fazem o sinal do lobo cinzento enquanto aguardam a chegada do líder do partido, Devlet Bahçeli (Istambul, 5 de outubro 2013)” (Fonte):

https://www.al-monitor.com/pulse/files/live/sites/almonitor/files/images/almpics/2014/02/RTR3FMK7.jpg

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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