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Luta pela democracia na Tunísia é premiada com o Nobel da Paz de 2015

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Mais do que uma simples honraria curricular, o Prêmio Nobel da Paz destaca-se pelo seu importante papel dentro da geopolítica internacional. O estimo social que o acompanha é capaz de subitamente posicionar o premiado e a sua causa na capa dos principais jornais do mundo, bem como influenciar políticas públicas e mobilizações sociais. Foi assim com as históricas premiações de Nelson Mandela, Martin Luther King, Madre Teresa e Malala Yousafzai.

Na semana passada, o Prêmio Nobel da Paz trouxe à luz a importância do diálogo para o estabelecimento da Democracia. O Quarteto de Diálogo Nacional da Tunísia foi premiado com a mais alta honraria internacional por “permitir com a que a Tunísia, em um curto espaço de tempo, estabelecesse um sistema governamental constitucional, garantindo direitos fundamentais para toda a população, independentemente do gênero, religião ou convicção política[1].

O Quarteto de Diálogo Nacional da Tunísia foi criado em 2013, a partir da união entre membros da União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT), da União Tunisiana da Indústria, do Comércio e do Artesanato (UTICA), da Ordem Nacional dos Advogados da Tunísia (ONAT) e da Liga Tunisiana dos Direitos Humanos (LTDH)[2].

Em conjuntura similar aos países adjacentes naquele tempo, como Egito e Líbia, o futuro da Tunísia em nada se assemelhava às esperanças que brotaram em 2011, na Primavera Árabe: o país que havia deposto o ditador Ben Ali dois anos antes assistia à crescente dominação do partido Ennahda, que visava instaurar um regime oficial islâmico, e de grupos Salafistas extremistas que desestabilizavam o funcionamento da sociedade tunisiana.

Cientes do risco iminente ao sistema político, o Quarteto de Diálogo Nacional da Tunísia foi estabelecido com o objetivo de pôr em prática um plano de ação para a instauração de um regime verdadeiramente democrático. A legitimação deste plano, por sua vez, passou por um incansável diálogo com membros da Ennahda e seus aliados políticos, culminando na assinatura do plano, em outubro de 2013[3]. A principal razão da premiação é justamente este esforço comunicativo, que tanto difere dos conflitos armados entre diferentes grupos que brigam pela dominação política no Egito e na Líbia.

Segundo o próprio Comitê do Nobel: “O Quarteto abriu o caminho para um diálogo pacífico entre os cidadãos, os partidos políticos e as autoridades, além de ajudar a encontrar um consenso para os diversos problemas entre as divisões políticas e religiosas[1].

Espera-se que a premiação sirva de incentivo para o atual governo do presidente Béji Essebsi, uma vez que os recentes ataques ao Museu Nacional de Bardo e à Praia de Sousse sinalizam o surgimento de grupos extremistas islâmicos que ameaçam a recente estabilidade no país[4]. Medidas governamentais para aumentar o poder da polícia amedrontam a população local, que teme a emergência de um governo autoritário, legitimando-se a partir do argumento da defesa nacional[4]. Neste cenário, certamente o legado do Quarteto seria desperdiçado.

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Imagem (FonteToday Online):

http://www.todayonline.com/world/national-dialogue-quartet-tunisia-wins-nobel-peace-prize

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[1] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/oct/09/tunisian-national-dialogue-quartet-wins-2015-nobel-peace-prize

[2] VerG1”:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/10/grupo-da-tunisia-vence-nobel-da-paz-2015.html

[3] VerCarnegie Endowment for International Peace”:

http://carnegieendowment.org/2014/03/27/how-leftist-labor-union-helped-force-tunisia-s-political-settlement

[4] VerCEIRI Newspaper”:

http://jornal.ceiri.com.br/governo-de-essebsi-devera-ter-a-seguranca-nacional-como-questao-politica-chave-nos-proximos-anos/

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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