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[:pt]Manifestações relembram os dezoito anos dos bombardeios da OTAN à Iugoslávia[:]

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Na última sexta-feira (24 de março de 2017), centenas de cidadãos sérvios se juntaram em Belgrado, próximos à ponte de Grdelica, em luto pelo 18º aniversário da campanha de bombardeios efetuados pela OTAN no ano de 1999, na então República Iugoslávia. O ocorrido fez parte da Guerra do Kosovo, conflito armado que consistiu nos embates entre forças do Exército Iugoslavo, o Exército de Liberação do Kosovo – guerrilha independentista – e uma coalizão de membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a KFOR (Kosovo Force). Entre 24 de março e 9 de junho daquele ano (1999), ataques aéreos diários efetuados por forças da coalizão assolaram Belgrado. Ações que estavam inicialmente focadas em instalações do Exército Iugoslavo alargaram-se, à medida que a oposição de Slobodan Milošević (Presidente da República Iugoslava à época) resistia a assinar os Tratados de Rambouillet*.

Em 9 de julho, Belgrado concordou em retirar seu Exército e a força policial sérvia do Kosovo, suspendendo as incursões aéreas da OTAN, e concordou com a determinação da Organização para a ocupação, temporariamente, de tropas terrestres pela Kosovo Force (KFOR), que assim encerraram os bombardeios.

Na cerimônia da última semana, o Primeiro-Ministro sérvio, Alexsandar Vucic, reiterou que a “Sérvia está mais forte que era naquela época” e adicionou: “nunca mais sofreremos uma agressão de que nós não sairemos como vitoriosos”. Por causa do ocorrido, a Sérvia frui relações que verificam elevada parcimônia com a OTAN. Ambas entidades assinaram o “Partnership for Peace” (Parceria para a Paz, em tradução livre) no ano de 2006, visando uma abertura para o diálogo em torno da segurança do continente europeu. Algumas parcerias foram feitas no decorrer dos anos, porém, o Estado sérvio mantém sua posição de militarmente neutro, sem ambição de se juntar aos Estados-membros da OTAN. Pesquisa feita pelo Institute for European Affairs revela que 64% do país não aceitaria desculpas vindas da OTAN pelo ocorrido.

Em Pristina, capital do Kosovo, a tônica da data foi outra. O Primeiro-Ministro, Isa Mustafa, escreveu em suas redes sociais: “o lançamento da campanha aérea da OTAN […] é um dia histórico para o Kosovo e para a OTAN, mas também carregado de um conceito de liberdade e de nossa proteção contra regimes criminosos”. As duras críticas ao Governo da Iugoslávia, à época, permeiam a consolidação do Kosovo como uma República autônoma até hoje. No dia 16 de março de 2017, o presidente Hashim Thaci anunciou a intenção de instaurar um Exército nacional próprio, desvencilhando-se completamente das forças internacionais que ainda estão presentes no país. Em entrevista para o Voice of America, Thaci salientou que o Exército seria multiétnico, não somente constituído de membros oriundos da etnia albanesa.

O então porta-voz da OTAN, o britânico Jamie Shea, arguiu que a decisão de lançar ataques aéreos na Iugoslávia veio rapidamente “com um consenso verdadeiro e determinação em torno da mesa do Conselho da OTAN”. Ele considera que nos conflitos da Guerra da Bósnia, a OTAN exerceu um papel hesitante, mas que ela conseguiu agir antes de um massacre.

A KFOR, atualmente, ainda está presente no Kosovo e se mostra veementemente contrária a posição do Kosovo lançar iniciativas pela construção de um Exército próprio. Para Shea “o Kosovo realmente precisa se concentrar na reforma política, na luta contra a corrupção e na educação do seu povo […] não vejo como a criação de um exército […] seria útil para a estabilidade”.

Recentemente, em uma nota divulgada para a imprensa, a OTAN e os EUA alertaram o país para a medida. Declararam: “Apoiamos a transformação gradual e transparente da Força de Segurança do Kosovo numa força multiétnica, em conformidade com as normas da OTAN, mas esta transformação deve ser feita de acordo com a Constituição do Kosovo e através de um processo político inclusivo e representativo que reflita a democracia multiétnica do Kosovo”.

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* A Conferência de Rambouillet consistiu em uma série de diálogos no início do ano de 1999 para estabelecer as pazes entre a Iugoslávia e os albaneses do Kosovo (etnia majoritária), que foram mediados pela ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos, Madeleine Albright.

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Imagem 1 Ministério da Defesa da Iugoslávia atingido pelos bombardeios de 1999” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Serb-milit-bomb-nato.jpg

Imagem 2 Emblema da KFOR em ambos os caracteres, latino e cirílico(Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Kosovo_Force

Imagem 3 F117, caça utilizado nos bombardeios da OTAN(Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:F-117_Operation_Allied_Force.jpg

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Matheus Felten Fröhlich - Colaborador Voluntário Júnior

Mestrando em Ciências Sociais pela PUC-RS. Bacharel em Relações Internacionais (2014), pelo Centro Universitário Univates de Lajeado - RS, realizou estudos em Segurança Internacional na Högskolan i Halmstad em Halmstad, Suécia (2013). Áreas de interesse em pesquisa são em Política Internacional, Segurança Internacional, Península Balcânica e etnias nas Relações Internacionais.'

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