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Cerca de uma semana após o início da operação israelense “Protective Edge” – ou, “Margem Protetora”, em português – em Gaza, o Egito buscou assumir um papel de mediador do conflito, propondo um cessar-fogo para ambas as partes[1].

Apesar do fracasso dessa proposta inicial[2], a especialista Lina Khatib caracterizou o cenário atual como favorável à intermediação egípcia. Já em junho deste ano (2014), o recém-eleito presidente Abdel Fattah al-Sisilembrou de sua promessa de campanha de “ressuscitar o papel egípcio de liderança no Oriente Médio[3]ao discutir com o Secretário de Estado americano, John Kerry, a ameaça regional apresentada por grupos extremistas na Síria. Como destaca Khatib, a atual crise em Gaza consiste de uma “oportunidade mais fácil[3] do que o complexo Conflito Sírio para a construção de um papel regional para o Egito.

O primeiro fator que facilitaria tal empreitada, segundo a analista, seria o tradicional papel mediador do Egito entre palestinos e israelenses, tendo como um dos exemplos a mediação que deu fim às hostilidades de novembro de 2012. Em segundo lugar, Khatib ainda destaca o fato de o Qatar, que vinha tentando ocupar o vácuo deixado pela Arábia Saudita e pelo Egito e se apresentando como mediador-chave na região, estar agora emudecido sob a pressão saudita, abrindo espaço para o presidente egípcio Sisi[3].

No entanto, no que concerne a este último fator, é importante mencionar que o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, iniciou neste mês sua visita à região, começando por Doha, capital do Qatar, cujo Governo arranjou o fretamento de avião para as suas viagens. O Egito, por sua vez, criticou a medida como uma “conspiração” contra as tentativas egípcias de intermediar um cessar-fogo entre Israel e Hamas[4].

Antes de prosseguir sua viagem ao Cairo, Ban Ki-moon conversou com o líder do Hamas, Khaled Mash’al, que procurou minar a iniciativa egípcia, insistindo que o Qatar ou a Turquia – tradicionais aliados do Hamas – liderassem as negociações[4]. Esse ponto nos remete ao primeiro, e mais importante, fator mencionado por Khatib: o histórico de mediação egípcia entre Israel e Hamas.

Embora o Egito tenha, de fato, desempenhado papel de intermediário nas negociações de novembro de 2012, aquele cenário apresenta mudanças significativas em relação ao atual, sobretudo no tocante às relações entre o Governo egípcio e o Hamas. Em 2012, o Egito do então presidente Mohammed Morsi provia ao grupo palestino o apoio político de seu partido, que tem por base a Irmandade Muçulmana (da qual o Hamas também é uma ramificação), em uma transformação radical do clima de antagonismo entre Egito e Hamas nos anos de Mubarak[5].

Contudo, a queda de Morsi em 2013 e a subsequente perseguição à Irmandade Muçulmana modificaram a postura do país[6]: não apenas um sentimento anti-Hamas passou a estar presente na mídia e nas Forças Armadas Egípcias[7], como também o grupo foi considerado ameaça à segurança nacional egípcia[8], além de ser proibido conduzir atividades políticas no país[9][5].

Embora essa adversidade nas relações Egito-Hamas tenha sido considerada por Khatib, a capacidade do grupo de minar a tentativa egípcia de liderança em uma mediação entre o ele e Israel parece ter sido subestimada pela analista. Na verdade, o atual conflito em Gaza, por fazer parte de uma questão altamente politizada – a saber, o histórico de atritos entre Israel e Palestina –, se apresenta como um quebra-cabeça político cuja complexidade Khatib também parece ter subestimado. Como observou o especialista Fernando Brancoli, em entrevista à Globo News, o que se tem observado “é que não existe um ator internacional que sirva de mediador para os dois lados[10].

Ademais, o atual conflito em Gaza difere do ocorrido em 2012 (e também em 2008-2009) em ainda dois fatores. Primeiramente, há perspectivas de que as operações israelenses na Faixa de Gaza, já em sua terceira semana, durem mais do que algumas semanas. Nesta segunda-feira passada, dia 28, Netanyahu declarou que “nós não completaremos a operação [Protective Edge] sem neutralizar os túneis[11] subterrâneos usados por grupos armados para cruzar a fronteira entre Gaza e Israel. Ainda, um sentimento de revolta em relação ao sofrimento infligido sobre a população de Gaza impulsionou protestos palestinos na Cisjordânia e em Israel[12]. Essa possível longa duração para o conflito e, principalmente, o transbordamento de tensões para a Cisjordânia (fatores que também foram observados por Brancoli[10]) servem de base para análises como as realizadas por Khaled Elgindy para a Foreign Policy, na qual admite a possibilidade de que a atual crise em Gaza se transforme em uma terceira intifada[12].

Enquanto observadores internacionais, como demonstrado acima, apontam um cenário mais semelhante às intifadas de 1987-1993 e 2000-2005 do que às operações israelenses de 2008-2009 e novembro de 2012, ainda que em menor escala, as demandas políticas em questão parecem também mais ambiciosas, sobretudo a exigência do Hamas pelo fim do bloqueio a Gaza[10], algo que é apoiado também por outras entidades políticas palestinas e internacionais e entendido também por analistas como Elgindy como questão essencial para evitar que outra guerra em Gaza ocorra “em um ou dois ou três anos 12].

Assumir a liderança de uma mediação entre Israel e Hamas contribuiria para que Sisi fortalecesse sua posição internamente, da mesma forma que colaboraria para o fortalecimento da posição egípcia  internacionalmente, mas também permitiria evitar que o conflito desestabilizasse a Península do Sinai[3][13]. No entanto, em um conflito que parece cada vez mais complexo, tanto no desenrolar das operações militares quanto no das tensões e demandas políticas que o circundam, se torna difícil conceber uma mediação com uma única liderança. Ao contrário, parece que o envolvimento internacional nos esforços de negociações de paz só será bem sucedido se multifacetado.

 

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ImagemVeículos israelenses blindados, fora da Faixa de Gaza, em 15 de julho de 2014” (Fonte):

http://www.foreignaffairs.com/articles/141635/benedetta-berti-and-zack-gold/expendable-egypt#

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28305830

[2] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28344637

[3] Ver:

http://carnegie-mec.org/2014/07/23/why-sisi-cannot-let-egypt-s-gaza-deal-fail/hgtz

[4] Ver:

http://www.newsweek.com/arab-nations-vie-broker-gaza-ceasefire-deal-260299

[5] Ver:

http://www.foreignaffairs.com/articles/141635/benedetta-berti-and-zack-gold/expendable-egypt#

[6] Ver:

http://www.fletcherforum.org/2013/07/25/berti-gold/

[7] Ver:

http://www.egyptindependent.com/news/media-accusations-meddling-egyptian-affairs-worry-gaza

[8] Ver:

http://english.ahram.org.eg/NewsContentPrint/1/0/90650/Egypt/0/Egyptian-interior-minister-accuses-Hamas-of-suppor.aspx

[9] Ver:

http://english.ahram.org.eg/News/95825.aspx

[10] Ver:

http://g1.globo.com/videos/t/todos-os-videos/v/nao-existe-um-ator-internacional-que-sirva-de-mediador-diz-especialista-sobre-gaza/3529399/

[11] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/07/29/world/middleeast/israel-gaza-conflict.html?ref=middleeast&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_7.29.14&_r=1

[12] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/07/21/the_last_great_myth_about_egypt_israel_palestine_gaza

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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