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Mediterrâneo e as águas do medo e do racismo

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Há pouco mais de 70 anos, mais de 20 milhões de europeus buscaram refúgio durante a II Guerra Mundial e durante as temíveis guerras civis que sacudiram a Europa e região ao longo do século XX. Se incluirmos a esse número os refugiados da I Guerra Mundial e os emigrantes que fugiam dos conflitos sociais e das crises econômicas do final do século XIX e início do século XX, esse número supera facilmente as 50 milhões de pessoas, segundo historiadores.

Parte dessa geração continua viva e hoje constitui um elemento importante na formação da identidade dos países que acolheram esse grande contingente e que absorveram elementos de seus costumes tais como o Brasil, Estados Unidos, Canadá, Argentina, Chile, México, dentre outros.

Barco com imigrantes espanhóis com destino América Latina

Para essas pessoas, as águas do Oceano Atlântico representavam uma nova esperança, liberdade para começar de novo, nostalgia e também temor a um horizonte desconhecido, alimentado pela visão perene de uma América indomada, porém próspera, construída desde a colonização. O ciclo das grandes migrações durou até metade do século XX e voltou com força durante a crise europeia.

Na América, cada país apresentou seu próprio processo de absorção dos imigrantes, sendo este mais fácil em algumas nações com políticas mais abertas e até mesmo programas de incentivo à migração e em outros mais complexo, devido ao elevado volume de migrantes, ou até mesmo devido as diferenças culturais presentes.

Essa experiência humana, social e política derivada dos grandes fluxos migratórios e da movimentação global de refugiados deu origem a diversos protocolos e tratados internacionais, porém, nos últimos anos, tem sido visto um retrocesso importante e que afeta a milhões de pessoas, colocando em risco o futuro da mobilidade internacional.

Os processos migratórios são observados como uma questão de Estado, seja no Estados Unidos de Donald Trump, na Venezuela de Nicolás Maduro ou na União Europeia e seus múltiplos players.

O famoso muro entre Estados Unidos e México possui suas réplicas na Europa, Oriente Médio, África e até mesmo na América Latina.  A xenofobia aumenta conforme o atrito das nações e a espetacularização de um processo tão humano quanto respirar, pois toda humanidade é fruto dessas dispersões geográficas promovidas pela migração.

Barco fretado e símbolo dos Identitários

Recentemente, na Europa, um grupo de jovens entre 18 e 25 anos, autodenominados Identitários, decidiram alugar um barco com o objetivo de impedir o salvamento de refugiados e imigrantes nas aguas do mediterrâneo. Segundo esses jovens, eles estão salvando a identidade europeia e evitando uma invasão migratória. Apoiam-se nos ideais conservadores de extrema direita europeia e cada dia aumenta seu reforço entre os europeus.

O Mediterrâneo é palco diário da chegada de barcos com centenas de imigrantes e refugiados, que se lançam em suas águas buscando melhores condições de vida e, alguns casos, apenas sobreviver. Muitos morrem pelo caminho.

Várias questões podem ser levantadas em relação às ideias que levam esses jovens a se mobilizarem para impedir a ajuda humanitária realizada pelas autoridades europeias, em lugar de reivindicar a geração de políticas de integração ou lutar por melhorias e maior intervenção das potências europeias nos países emissores de emigrantes.

Além do paradoxal de sua ação política o seu discurso também possui argumentos tênues, ao defender uma identidade europeia que está constantemente sendo questionada pelos processos políticos e sociais dentro da própria União Europeia e que está em constante construção.

Ao falar de identidade europeia não fica muito claro ao que se refere o grupo dos identitários, pois, ao final, o Bloco europeu possui cidadão brancos e morenos ao sul da Europa, católicos, protestantes, ortodoxos, além de um importante número de cidadãos muçulmanos e de estar negociando a adesão de países onde o islã é a religião oficial. O Bloco detém mais de 20 línguas oficiais, diferentes identidades nacionais e inclusive muitos países se caracterizam pelo multinacionalismo, como é o caso da Espanha, de modo que, analisando a própria construção da União Europeia e os próprios fatores de integração e formação social, pode-se inferir que o grupo dos identitários não é movido pelos ideais de uma Europa global e  integradora, nem por uma identidade europeia consolidada, mas pela xenofobia, pelo ufanismo e pelo racismo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Pequeno Aylan, cuja foto comoveu o mundo, mas que se soma a de várias crianças” (Fonte):

http://periodicoespacio.com/wp-content/uploads/2015/09/CN74GoKUEAAF-bq_opt.jpg

Imagem 2  “Barco com imigrantes espanhóis com destino América Latina” (Fonte):

https://www.jaberni-coleccionismo-vitolas.com/images/Grandes_Tabaqueros/Barco-Inmigrantes.jpg

Imagem 2  “Barco fretado e símbolo dos Identitários” (Fonte):

http://democracianacional.org/dn/wp-content/uploads/2017/07/Right-Wing-Yacht-Squad-777×397-680×365.png

Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

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