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Nessa quarta-feira (dia 26), o grupo militante Hezbollah afirmou que irá reagir ao ataque aéreo israelense da noite de segunda-feira (dia 24), que atingiu a vila de Janta, no “Vale do Beqaa”, próxima à fronteira sírio-libanesa[1][2]. Apesar de Israel não ter admitido, um oficial israelense confirmou que o ataque foi obra do Governo israelita, tendo como objetivo evitar a entrada de armas no Líbano, destinadas ao Hezbollah[3].

Embora fontes libanesas afirmem que o taque se deu em solo sírio, o discurso do Hezbollah sugere que o taque pode ter ocorrido em território libanês[4]. No entanto, um ex-oficial do “Comando do Norte do Exército Israelense” afirmou duvidar que o grupo libanês realmente revide o ataque, já que está “muito ocupado lutando ao lado de forças do governo [Sírio] contra os rebeldes na Síria[1].

Se, por um lado, essa situação evoca uma memória turbulenta de lutas entre o Hezbollah e Israel, também demonstra o quão complexa é a relação do grupo libanês – e do país, como um todo – em relação ao conflito sírio.

Primeiramente, cabe destacar que a rivalidade entre Hezbollah e Israel faz parte da própria origem do grupo, nascido em 1982 – quando da invasão do Líbano por Israel – como uma milícia contra a invasão[5]. Mais recentemente, o sequestro de dois soldados israelenses pelo Hezbollah em julho de 2006 iniciou uma guerra de 34 dias entre os dois lados, marcada por ataques pesados em território libanês[1][6].

Ao mesmo tempo, entretanto, o Hezbollah encontra-se, de fato, largamente e diretamente envolvido no conflito sírio[7]. Isso porque, como observa a jornalista libanesa, Kim Ghattas, o envolvimento sírio na política libanesa, de longa data e assinalado pela presença de tropas sírias de 1976 a 2005 no país dos cedros, faz com que “cada facção, cada comunidade no Líbano sinta que seu próprio futuro está amarrado ao resultado da guerra [no país] vizinho[8]. Nesse sentido, como destaca Ghattas, a luta do Hezbollah é uma luta por sobrevivência.

Como já abordado, o sectarismo[9] marcante da sociedade libanesa está no cerne da postura do país em relação a entrada de refugiados vindos da Síria, posto que o largo afluxo de uma população majoritariamente sunita afeta o delicado equilíbrio político entre os principais grupos étnicos e religiosos do Líbano[10].

Para especialistas como Mohammad Mattar[11], esse sectarismo – ou o sistema confessional – permite que tensões em países vizinhos transbordem para dentro da política libanesa, posto que a sociedade, naturalmente dividida, se polariza mais facilmente. Ainda conforme o acadêmico, foi essa lógica que iniciou a guerra civil no Líbano, de 1975-1990, pois tratou-se de um transbordamento das tensões do conflito árabe-israelense que dividiu a sociedade libanesa entre muçulmanos, a favor do apoio à causa palestina, e cristãos, que preferiam não se envolver na questão.

A memória da guerra civil, que em grande medida atribui aos refugiados palestinos a culpa pelo conflito[12], compõe um cenário complexo de imaginários que fazem do Líbano atual um país que tanto a sociedade libanesa quanto observadores internacionais temem estar à beira de uma nova guerra civil, importando as tensões sírias. Para Ghattas[8], o “transbordamento” já ocorreu. A autora faz referência a constantes conflitos em Tripoli, entre militantes a favor e contra Assad, o que já foi também reportado pela ong “Human Rights Watch[13].

Nesse contexto acentuado por sectarismo, o Hezbollah aparece como um dos atores políticos a pesarem na balança, que também, por sua vez, possui memórias intensas de laços com a Síria de Assad, a qual tenta salvar, e inimizade com Israel, visto como seu arqui-inimigo.

De toda forma, caso realmente opte por retaliar o ataque aéreo israelense, o Hezbollah estará não apenas ampliando suas frentes de luta – atualmente exauridas pelo envolvimento na Síria – como também ramificando ainda mais a trama de atores e interesses no Líbano, que subjazem às tensões libanesas.

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ImagemÀ esquerda, a bandeira libanesa; à direita, a bandeira do Hezbollah” (Fonte):

http://www.foreignpolicy.com/files/imagecache/860x/hezbollahflag.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-26352905

[2] Ver:

http://www.haaretz.com/news/middle-east/1.576489

[3] Ver:

http://world.time.com/2014/02/25/israel-bombs-hizballah-missile-convoy-on-syria-lebanon-border/

[4] Ver:

http://mideastafrica.foreignpolicy.com/posts/2014/02/26/hezbollah_vows_to_respond_to_air_strike_on_lebanese_syrian_border

[5] Ver:

http://smallwarsjournal.com/jrnl/art/why-is-hezbollah-in-syria

[6] Shaery-Eisenlohr, Roschanack. Shiite Lebanon: Transnational Religion and the Making of National Identities. New York: Columbia University Press, 2011, p. 227.

[7] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-26222171

[8] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-26239778

[9] Sobre o sectarismo no Líbano, este é brevemente abordado em:

http://www.jornal.ceiri.com.br/os-desafios-do-novo-primeiro-ministro-libanes/

[10] A esse respeito, ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/refugiados-sirios-no-libano-pais-dos-cedros/

[11] Mattar, Mohammad F. (2007). “Is Lebanese Confessionalism to Blame?”. In: Choueiri, Youssef. Breaking the Cycle: Civil Wars in Lebanon. London: Stacey International.

[12] A esse respeito, ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/a-crise-humanitaria-na-siria-e-os-refugiados-palestinos/; sobretudo notas 16 e 17.

[13] Ver:

http://www.hrw.org/news/2013/12/19/lebanon-sectarian-attacks-tripoli

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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