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Mercado automobilístico brasileiro: a necessidade de reformas na estrutura

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O Brasil vive um momento importante em sua história. Está entre as 7 maiores economias do mundo, entre os principais destinos de investimentos e negócios internacionais, tem diversos mercados cobiçados por grandes corporações estrangeiras, mas ainda deve se preparar para suportar o peso delas. Mesmo passando por muitas transformações positivas, o país ainda tem setores despreparados para suportar a pressão da concorrência dos produtos importados, como é o caso do setor automobilístico.

 

O atual mercado automobilístico brasileiro está sendo atrativo para as grandes empresas do setor. O aumento do consumo por parte dos brasileiros mantêm vivos os investimentos estrangeiros, acirrando a concorrência entre produtos nacionais contra os importados.

Segundo dados publicados pela “Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores” (Fenabrave), este ano de 2012 será mais um ano de crescimento na venda de veículos comerciais leves e de automóveis.  “A Fenabrave espera que o mercado, como um todo, cresça 4,5%. É um número significativo mesmo comparado com os anos anteriores. Ficaria feliz se pudesse crescer linearmente a 4,5% em qualquer tipo de negócio”*, afirmou Flávio Antonio Meneghetti, presidente da Fenabrave.

O levantamento da entidade é animador, pois só no ano passado (2011) a venda de veículos leves havia crescido 2,9% em relação ao ano de 2010. Com este crescimento contínuo das vendas, as montadoras asiáticas, com destaque a “Chery” e “Jac Motors”, chegaram ao mercado brasileiro com boas perspectivas,  ingressando com os preços mais competitivos, chegando a ser atrativos aos brasileiros das classes C, D e E.

Analistas apontam que a entrada dos “carros chefes” destas montadoras e de outras corporações estrangeiras fez com que os empresários brasileiros do setor buscassem e conquistassem o aumento dos impostos sobre os veículos importados junto aos órgãos governamentais competentes e associações, sendo esta a barreira encontrada para não sofrerem com os concorrentes que trouxeram ao consumidor brasileiro melhores opções de “custo-benefício”.

Mesmo com aumento de impostos sobre os produtos importados, as montadoras estrangeiras conseguiram se enquadrar as normas brasileiras. A “Jac Motors” anunciou que irá construir uma fábrica no Estado da Bahia (nordeste do Brasil); a “Chery” já esta em processo de construção de sua fábrica no Estado de “São Paulo” (sudeste do Brasil) e, recentemente, ambas as montadoras anunciaram que desejam contribuir para a entrada dos fornecedores chineses no Brasil.

Analistas apontam que, com a entrada de fornecedores chineses de autopeças no país, essas montadoras conseguirão atingir o índice de 65% de nacionalização, estando, assim, isentas dos impostos atribuídos aos produtos importados. Com os fornecedores chineses no Brasil, o setor ganhará novos atores para iniciar uma disputa por clientes, desencadeando benefícios aos consumidores finais e contribuindo para a redução do desemprego, conforme sejam inauguradas as instalações no território brasileiro.

Além destas duas grandes empresas automobilísticas da China, a “Shiyan Yunlihong Industrial & Trade Co., Ltd”, também chinesa, está estudando sua entrada no Brasil e já está sendo cortejada pelas autoridades do estado do “Rio Grande Do Sul” (sul do Brasil). O vice-governador do estado Beto Grill recebeu Bailing Xiang (o presidente da holding chinesa) e os demais membros de sua comitiva durante sua visita ao Estado que foi iniciada na segunda-feira (9 de abril). Esta já era uma visita esperada, pois os chineses já tinham interesse na região pelo fato dela ter o segundo maior pólo de autopeças do Brasil e ser um local com facilidades para escoar produtos por outros países do MERCOSUL.

A entrada destas empresas será de grande importância para o desenvolvimento socioeconômico das regiões onde estarão instaladas, mas, mesmo com as possibilidades de  investimento no setor, a estrutura brasileira anda na “contra-mão”.

Analistas confluem para a crítica de que a indústria no Brasil faz projeções de crescimento para os próximos anos e exige dos novos fabricantes que atendam as exigências ambientais, sem estimular a criatividade e sem dar incentivos fiscais que atendam às necessidades do setor no Brasil, ou seja, o que vem sendo denominado “Custo Brasil” continua barrando o desenvolvimento industrial no país.

Hoje, “nos escondemos atrás do ataque ao câmbio e ao mercado doméstico brasileiro por não termos executado reformas estruturais no passado recente. Com isso, limitamos a atratividade da indústria para novos talentos e investimentos de alto valor agregado. Ainda estamos na fase de proteger uma indústria ineficiente pela quebra de regras e acordos, privilegiando ações pontuais que potencializam a desindustrialização do setor”**, frisou o diretor da consultoria “IHS Automotive”, Paulo Cardamone, na apresentação do painel de abertura do “III Fórum da Indústria Automobilística”, em São Paulo.

Analisando apenas as três empresas citadas, observando algumas medidas em vigor no país e a “realidade” regional, pode-se perceber alguns “desencontros”. Como a maior parte das frotas modernas de carros fabricados no Brasil disponibiliza mais de uma opção de combustível (os chamados “carros flex”), as montadoras chinesas terão de desenvolver modelos do gênero quando estiverem com suas linhas de montagem em atividade, pois isso se tornou uma exigência do mercado.

Os veículos da Yunlihong, de acordo com as informações disponíveis em seu site oficial, já disponibilizam de motorização a gasolina, diesel e veículos elétricos em todo o território brasileiro e as tradicionais montadoras de veículos leves e pesados já estão se adequando aos motores movidos a Biodiesel. Os novos veículos da Volvo (caminhões e ônibus), Scania, entre outras do seguimento, já têm veículos a biodiesel circulando no país, como ocorre em Campinas e São Paulo, que tem as composições do transporte público movidas a biodiesel.

A crítica de especialistas deste setor não se dá simplesmente para as empresas, mas para a forma como o setor está se estruturando. Segundo apontam, enquanto o país ainda mantém uma postura protecionista, alguns estados e municípios aproveitam da concorrência entre as empresas para exigirem investimentos e desenvolvimento de tecnologias que os beneficiem localmente, já que as políticas públicas acabam se mostrando paroquializadas, sem haver um padrão válido, seguido por todos os estados federativos e municípios.

Como citado, Campinas e São Paulo utilizam de transporte coletivo movido a biodiesel e exigem que as empresas atualizem suas frotas durante um certo período. Ou seja, não existem veículos com mais de 10 anos de uso circulando por estas cidades e há um número considerável de postos de abastecimento que ofertam biocombustíveis. Enquanto estes dois centros industriais e financeiros têm estas exigências, no “Distrito Federal” o transporte coletivo ainda utiliza veículos fabricados a mais de uma década e movidos a Diesel.

Observadores apontam que a forma como as grandes cidades do estado de São Paulo trabalha, usando da concorrência entre empresas, fabricantes, fornecedores etc. para atender seus próprios interesses, não apenas contribui para a qualidade de vida da população, mas prepara o empresariado para o mercado que está cada dia mais competitivo. Com as exigências nestas regiões, as empresas que lá se estabelecem já se preparam para desenvolver produtos diferenciados para atender sua gama de “clientes”, desde concessionárias até os consumidores finais, girando a economia regional de forma dinâmica e atrativa.

A procura da “Shiyan Yunlihong” por um espaço no “Rio Grande do Sul” é semelhante a estratégia de entrada da “Chery” no interior paulista, onde ela conquistou um local que tem oferta de mão-de-obra qualificada, facilidades logísticas para escoar sua produção e receber componentes importados via porto de Santos e Rio de Janeiro, além de estar em uma região onde as famílias possuem mais de uma opção de transporte, ou seja, podem conquistar consumidores finais tanto no mercado principal, quanto no secundário, ofertando veículos para o cotidiano dos cidadãos locais e regionais. A nova empresa chinesa que está por entrar no país já ficará em uma região que tem uma oferta especializada de mão-de-obra e um mercado consumidor que necessitará de seus produtos.

Contudo, surge um alerta: a estrutura brasileira ainda não está preparada para concorrer em pé de igualdade com as empresas estrangeiras que ainda não estão instaladas no país. Existe a necessidade de se criar um “foco” nacional que envolva elementos de inovação tecnológica, desenvolvimento, minimização de custos operacionais e incentivo para uma “corrida” das corporações por “clientes”. Desta forma, elas serão o motor que conduzirá o desenvolvimento da área, podendo ser uma alternativa mais adequada para preparar a indústria brasileira frente aos produtos importados.

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Fontes Consultadas:

* Ver:

http://economia.estadao.com.br/noticias/economia,jac-motors-e-chery-querem-trazer-fornecedoras-chinesas-ao-brasil,108796,0.htm

** Ver:

http://www.automotivebusiness.com.br/noticia/13663/Regime%20automotivo%20n%C3%A3o%20garante%20mudan%C3%A7a%20estrutural%20no%20Brasil

Ver Também:

http://www.gaz.com.br/noticia/339369-comitiva_chinesa_avalia_rs_para_instalacao_de_montadora.html

Ver Também:

http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2012/01/04/fenabrave-preve-aumento-de-4-5-nas-vendas-de-automoveis-em-2012

Imagem: http://sc5.com.br/wp-content/uploads/2012/01/mercado-automobilistico.jpg

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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