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[:pt]Merera Gudina, líder Oromo e voz da oposição política, é preso na Etiópia[:]

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Na quinta-feira passada, Merera Gudina, importante líder do Congresso do Povo Oromo (CPO), foi preso na Etiópia após retornar da Europa. Naquela ocasião, Gudina se reuniu com os membros do Parlamento Europeu para a discussão da atual conjuntura etíope. No encontro estiveram presentes também alguns exilados políticos, como o maratonista que participou dos Jogos Olímpicos do Rio e que ficou conhecido pelo gesto de resistência Oromo, Feyisa Lilesa.

Segundo nota oficial, o Governo etíope explica o aprisionamento de Gudina sob o argumento de que o encontro com parlamentares europeu desrespeita as condições postas pelo estado de emergência sob o qual o país vive há alguns meses. Desde que promulgado pelo Governo, o estado de emergência aumentou o controle policial sobre o cotidiano da sociedade civil e estima-se que, aproximadamente, 11 mil civis já foram presos.

Gudina constitui-se em uma das principais vozes opositoras ao gradativo monopólio que a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE) – o partido governista – ocupa no espaço político do país. Para o líder Oromo, o estado de emergência trata-se de uma estratégia governamental para aumentar o controle sobre a população Oromo, minando os seus direitos políticos e de livre expressão.

Vale ressaltar que ao longo deste ano o país vivencia uma intensa onda de protestos entre as forças do Estado e a população Oromo, a qual demanda maior representatividade política. Soma-se que uma série de grandes projetos estatais, como a expansão urbana da capital Addis Ababa, vem alterando significativamente o modo de vida desse grupo étnico, ofertando pouca participação civil na formulação das políticas públicas.

Momentos logo após o aprisionamento, autoridades europeias declararam o seu total apoio a Gudina, condenando o uso da força por parte dos governantes etíopes. Ana Gomes, membro do Parlamento Europeu e uma das articuladoras do encontro entre parlamentares e exilados políticos etíopes, afirmou que “é inaceitável que o Dr. Merera Gudina seja preso logo após o seu retorno à Etiópia” e que isto “demonstra o total desrespeito do governo [etíope] aos direitos humanos”. Organizações não governamentais, como o Human Rights Watch, também se posicionaram contra a prisão.

Curiosamente, a prisão de Gudina se deu no mesmo dia em que Siraj Fegessa, Ministro da Defesa da Etiópia, se reuniu com líderes de outros partidos de oposição, a fim de confortá-los de que o estado de emergência não representaria nenhum risco a eles. A contradição somente contribui para a escalada da instabilidade social, à medida que as práticas do Governo não condizem com o seu discurso.

Neste âmbito instável, o projeto desenvolvimentista etíope corre riscos. Primeiro no que diz respeito aos fluxos financeiros externos. Anualmente, o país recebe aproximadamente 600 milhões de dólares dos Estados Unidos em doações, dada a posição histórica de aliança no combate ao terrorismo promovido pela Al-Shaabab, na Somália, além de ambos os países terem um comércio bilateral de aproximadamente 2 bilhões de dólares. No entanto, estes fluxos podem se reduzir – bem como o montante de doações e volume de negócios com outros países do Norte – caso as denúncias de abuso de direitos humanos e a instabilidade social não sejam resolvidas.

Segundo, em termos internos, uma gradativa exclusão das reivindicações da população Oromo tende a reforçar as manifestações e o conflito dentro do país. A transparência quanto à formulação de políticas públicas e a redistribuição do poder político aos mais diferentes grupos étnicos seria, talvez, o único caminho para devolver a estabilidade social à Etiópia.

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ImagemDr. Merera Gudina” (Fonte):

http://www.zehabesha.com/dr-merera-gudina-oromo-protests-and-the-future-of-oromo-struggle/

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Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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