LOADING

Type to search

Michel Temer, Um Brasilibanês na Vice-presidência do Brasil

Share

Michel Miguel Elias Temer Lulia, publicamente conhecido como Michel Temer, atual Vice-Presidente do Brasil, nasceu em 23 de setembro de 1940, em Tietê, São Paulo, integrando a História dos brasilibaneses[1] bem sucedidos no Brasil. Filho de libaneses que deixaram a terra natal em 1925, durante o Mandato Francês no Líbano, a família Temer tem suas raízes em Betabura, região de el-Koura, norte do Líbano. Foi de lá que partiram os pais do Vice-Presidente e seus três irmãos mais velhos, com destino ao Brasil.

Caçula de oito irmãos, Michel Temer formou-se em Direito na Universidade de São Paulo e doutorou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sendo atualmente considerado como um dos maiores constitucionalistas brasileiros. Ele iniciou a carreira política como Oficial de Gabinete do então Secretário de Educação do Estado de São Paulo, Ataliba Nogueira, durante o mandato de Governador de Ademar de Barros. Eleito Deputado por seis vezes, ele destacou-se no meio político e, há 11 anos, preside o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Em 2010, chegou à Vice-Presidência da República, tendo sido reeleito para o segundo mandato, em 2014, juntamente com a Presidente Dilma Rousseff.

No cargo de Vice-Presidente, passou a atuar internacionalmente, tendo visitado vários continentes, incluindo a região do Oriente Médio, com a finalidade de estabelecer relações comerciais com diferentes países e viabilizar parcerias e investimentos para o Brasil. A atuação internacional do Vice-presidente, no mundo árabe, é uma atribuição da presidente Dilma Rousseff. A matriz cultural de Michel Temer facilita, estrategicamente, a aproximação com aqueles países, no campo político e econômico, na medida em que a ligação com a cultura árabe não é algo distante do cotidiano do político brasileiro. Segundo ele, os costumes da região originária de seus pais sempre estiveram presentes na sua vida e, conforme afirmou, “na minha casa todo sábado e domingo eram dias de comida árabe”. No que se refere à língua árabe, Michel Temer diz não dominar o idioma, embora consiga compreender o tema da conversa, declarando que “eu ouvi isso por toda a minha infância”. Outros elementos culturais da terra de seus antepassados como, por exemplo, a música, é algo de que gosta, assim como o interesse em se manter informado sobre os acontecimentos da região. Em 2013, quando foi homenageado pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, em São Paulo, Temer falou sobre a sua ligação com o Líbano, ao relembrar suas visitas àquele país. Naquela oportunidade, ele declarou: “Já estive duas vezes no Líbano e nessas ocasiões eu fui à cidade dos meus pais, uma cidadezinha pequena na região de El Khoura, nas montanhas, e fui homenageado pelos parentes e pelos habitantes da cidade, pelo povo libanês”.

A perpetuação dos costumes dos antepassados mantém o elo que une povos distantes, independentemente dos contrastes internos de cada país. O Líbano, por exemplo, em nada se assemelha ao Brasil quanto à dimensão territorial, populacional, aos recursos naturais e à produção. Porém, essas discrepâncias desaparecem na medida em que há um suporte étnico mantido através das famílias e que passa de geração em geração. Território da civilização fenícia, o atual Líbano, cuja identidade está interligada a uma História rica, construída desde ancestrais remotos, não apresenta semelhanças significativas com o Brasil, mas um alinhamento de práticas e costumes adquiridos através da emigração permitiu a evolução das relações e das tradições entre os dois povos. Os libaneses emigram para o Brasil desde a década de 1880 e, atualmente, há mais libaneses e descendentes no Brasil do que no próprio país de origem. De acordo com o boletim informativo do Senado brasileiro, entre naturais e descendentes, os libaneses no Brasil são quase 10 milhões de pessoas, enquanto que a população do País dos Cedros é de 6.184.701 habitantes. Segundo Roberto Khatlab, Pesquisador e Historiador da Universidade Saint-Esprit de Kaslik (CECAL-USEK), em Juniyah, Líbano, “os ‘brasilibaneses’ estão presentes em todo o território libanês, do norte (Dar Beechtar…) ao sul (Kabrikha…), mas principalmente no Bekaa, onde existem aldeias inteiras – como Sultan Yaacoub, Kamed-Lawz e Ghazzé – com 90% de ‘brasilibaneses’ que falam fluentemente o português e perpetuam os costumes brasileiros (gastronomia, música, arquitetura, agricultura…)”.

As trocas culturais entre o Brasil e o Líbano parecem reforçar o objetivo de Michel Temer ao promover uma maior aproximação com o país de seus antepassados e com o mundo árabe, em geral, tendo em vista o aumento das parcerias comerciais com o Oriente Médio. Há anos que o Brasil vem tentando marcar presença na região apesar de, até o momento, não ter tido sucesso. Em 1954, o presidente Getúlio Vargas recebeu a visita de seu homólogo libanês, Camille Chamoun, altura em que foi assinado um Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os dois países. Em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou uma nova fase do Governo brasileiro com relação ao Oriente Médio, traduzida num desejo comum entre as partes de fortalecer as relações bilaterais. O então Presidente foi o primeiro Chefe de Estado brasileiro a visitar a região, depois do Imperador D. Pedro II, nos anos de 1871 e 1876. A etapa iniciada pelo presidente Lula persiste até o momento e Michel Temer é o responsável por colocar em marcha os propósitos do Brasil em relação ao mundo árabe. Os vínculos culturais e afetivos do Vice-Presidente com o Oriente Médio são pressupostos importantes para que ele possa avançar com as negociações com os líderes árabes em busca de capitalização de novos investimentos e na ampliação das trocas comerciais aos níveis bilateral e multilateral.

A partir de uma análise mais ampla é possível verificarmos que os objetivos do Governo brasileiro relativamente aos países árabes, no âmbito das quais as ações de Michel Temer se completam, revelam, também, a realidade de uma possível vertente terceiro-mundista[2] iniciada no primeiro mandato do Presidente Lula, em 2003. Numa entrevista à revista Veja, em janeiro de 2011, o ex-embaixador Roberto Abdenur alertou para a necessidade de o Brasil conquistar um espaço mais significativo no cenário internacional. No entanto, para que isto aconteça, é necessário abandonar a visão de oposição Norte e Sul. Naquela entrevista, Abdenur fez a seguinte afirmação sobre o então Presidente: “Na verdade, ele encampou objetivos que há muito tempo o país persegue”. Entrementes, de acordo com as afirmações do diplomata, os equívocos cometidos pela diplomacia brasileira exigem a “revisão dos conceitos antigos de oposição entre pobres e ricos para abraçar o entendimento de que o mundo hoje é mais complexo e entrelaçado”. O ex-Embaixador acreditava que a presidente Dilma pudesse elevar o Brasil a um patamar qualitativamente diferente em termos internacionais, tornando o país mais visível e com maior representatividade nos mercados mundiais. Abdenur esperava o fim de um período de desacerto diplomático, o que, segundo ele, o levou a decidir-se a se aposentar em 2007, quando era o representante do Brasil em Washington, EUA. Segundo ele, a motivação de sua aposentadoria foi “o desencantamento com o Itamaraty, que no governo Lula, sofreu com os excessos da infiltração ideológica”.

No Governo Dilma, o Brasil não avançou internacionalmente e a escolha de Michel Temer para representar o país junto do mundo árabe talvez tenha sido uma medida acertada devido à procedência identitária do Vice-presidente. Contudo, embora Temer se tenha empenhado em reforçar os laços de amizade e de comércio com esses países, no segundo quesito o sucesso não tem sido acompanhado das expectativas traçadas no plano que ele elaborou e que envolve a aproximação do Brasil com a região em termos políticos e econômicos. Na sua atuação internacional, Michel Temer visitou vários países do Oriente Médio. destacando-se o Líbano, Israel, Palestina, Omã, Catar, Emirados Árabes Unidos, Dubai, Abu Dhabi e Turquia. Todas as visitas oficiais de Temer tentaram articular as negociações para a ampliação do comércio internacional, querendo se afirmar como o interlocutor das empresas brasileiras com interesse em investir nos países árabes. Em Omã, país da região com mais investimentos brasileiros, o Vice-Presidente, em audiência com o Sultão Qaboos bin Said, manifestou o interesse das empresas brasileiras em investirem naquele país, “nos setores de aviação, alimentos, construção civil, defesa, indústria elétrica e eletrônica”, tendo pedido o apoio de Omã à candidatura de São Paulo para sediar a Expo 2020.

As tentativas de Michel Temer para promover a cooperação com o mundo árabe parecem ter surtido maior efeito no que se refere a uma maior presença de representantes árabes em visita ao Governo brasileiro, mas, no que diz respeito à efetivação de negócios, nos setores industrial e comercial, os resultados ainda são inexpressivos. Segundo Tamer Mansur, Gerente de Relações Governamentais da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, “há acordos que foram assinados com os países árabes que ainda precisam de aprovação no Congresso Nacional e que esses acordos são alguns dos que podem impulsionar o aumento das trocas comerciais”. A Liga dos Estados Árabes afirmou ter interesse em aumentar as relações com o Brasil nas mais diferentes áreas, mas há obstáculos que têm que ser superados. Nacer Alem, Embaixador da Liga dos Estados Árabes, em Brasília, enfatizou a importância de se resolverem os problemas relacionados com a bitributação[3], os quais neutralizam o avanço de futuros investimentos. Conforme ressaltou, “temos problemas de acordos de bitributação e de garantias a investimentos. Se chegarmos a um acordo nestes temas, haverá um potencial enorme para investimentos árabes aqui”.

Apesar de, aproximadamente 10% dos parlamentares brasileiros serem de origem árabe, não tem sido possível tramitar projetos para viabilizarem as iniciativas que permitam Acordos capazes de redimensionar comercial e economicamente o país. Consoante a conclusão de vários analistas, a Câmara de Deputados e o Senado brasileiros são disfuncionais, o que implica no desarranjo dos objetivos relacionados ao âmbito nacional e mundial e trava a possibilidade de novos investimentos externos, gerando a falta de credibilidade do Brasil em diferentes aspectos, a nível internacional. A opacidade da imagem do Brasil, no exterior, freia não somente a componente comercial das Relações Exteriores mas, também, a possibilidade de o país poder assumir qualquer posição de destaque nas instituições internacionais. Em 2014, Gebran Bassil, Ministro das Relações Exteriores do Líbano, esteve no Brasil e, em encontro com Michel Temer, solicitou a intermediação do Brasil nos conflitos no Oriente Médio. O Líbano não é um caso isolado ao pedir a participação do Brasil na região. Em 2013, o Sultão de Omã deixou claro, ao Vice-presidente, que “o Brasil pode ter um papel cada vez maior nas relações entre as nações do Oriente Médio”. Neste contexto, a reduzida eficiência brasileira na esfera da intervenção internacional relaciona-se com a baixa produtividade política, o que, consequentemente, compromete o alinhamento estratégico com os países estrangeiros. O cumprimento de uma agenda internacional, por parte de Michel Temer, não se traduziu, até hoje, em resultados efetivos para o país, tanto em termos econômicos quanto comerciais. No entanto, conforme evidências, esta estratégia tem reforçado os laços de amizade do Governo brasileiro com o mundo árabe, porém sem alterar a pouca visibilidade do Brasil, a nível global, a par da insignificante presença diplomática do país no Oriente Médio.

———————————————————————————————–

Imagem Michel Temer, Vicepresidente da República Federativa do Brasil” (Fonte):

https://www.brasil247.com/images/3/4a/34a42c2e68b7ff90b5992c23d6778943ec12491a.jpg

———————————————————————————————–

Fontes bibliográficas:

[1] Ver: Os libaneses, e seus descendentes, no Brasil, formam “uma comunidade de ‘brasilibaneses’ (brasileira-libanesa) com aproximadamente 60 mil pessoas, integrados e presentes, igualmente, em vários setores de atividades profissionais no Líbano. Os ‘brasilibaneses’ estão na política (ministros, deputados, governadores, prefeitos), na administração do governo, no setores acadêmicos, industriais, das artes, na imprensa, no comércio, enfim, em todos os setores da atividade humana. Além deste intercâmbio, o que fortalece ainda mais a relação entre os dois países é o estreito vínculo entre as famílias, por meio de contatos diretos entre as duas sociedades, ultrapassando assim a esfera exclusiva das relações intergovernamentais.”, ROBERTO KHATLAB, BrasilLíbano. Amizade que não Desafia a Distância, Bauru, EDUSC – Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1999, revisão técnica de Neida Regina Ceccim Morales, pág. 20.

[2] Terceiro-mundista: “O terceiro-mundismo é uma corrente no pensamento político de esquerda política que considera a divisão entre nações desenvolvidas, classicamente liberais, e em nações em desenvolvimento, ou do ‘terceiro mundo’ de grande importância política”. Ver:

http://marcosbau.com.br/geopolitica/o-terceiro-mundo-descolonizacao-da-africa-argelia-e-asia-indochina/

[3] A bitributação “ocorre quando um mesmo fato gerador de renda é taxado na origem e no destino”. Ver:

http://www.anba.com.br/noticia/21869972/diplomacia/liga-arabe-quer-ampliar-investimentos-no-brasil/

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.