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Mitos e realidades do déficit comercial entre China e Estados Unidos

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A eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos (EUA) representa uma mudança de rumos, indicando a possível queda de um regime que estimula o livre comércio e, ao mesmo tempo, a ascensão do nacionalismo. A retórica acerca do déficit comercial estabelecido entre EUA e China ganhou amplo destaque midiático durante a sua campanha rumo à eleição presidencial no ano de 2016, não obstante, esta questão se mostrou mais complexa do que o discurso apresenta.

Balança comercial dos EUA em relação ao PIB (1895-2015)

Existem duas principais razões que superestimam o peso da China como fator prejudicial para o comércio norte-americano: 1) métodos de coleta de dados que estão defasados, visto que não consideram o valor agregado e sim a origem de exportação dos produtos; 2) a dificuldade em medir os impactos domésticos do comércio para o nível de vida dos nacionais destes Estados.

O déficit dos EUA no comércio bilateral com a China foi de US$ 309 bilhões no ano de 2016. No entanto, o método de coleta de dados utilizado contabiliza o valor de um produto baseado no último local de onde este produto foi exportado. Em uma conjuntura na qual a produção se encontra fragmentada em cadeias globais de valor, esta não é uma métrica vista como viável. Por exemplo, um Iphone da marca Apple, que seja exportado da China para os EUA, terá todo o seu valor contabilizado para a balança comercial da China. No entanto, apenas 3,6% do valor agregado de um Iphone permanece no território chinês.

No caso deste produto, os processadores são produzidos nos Estados Unidos, os visores são feitos na Coreia do Sul e no Japão, os sensores são feitos na Alemanha, e outros componentes vem dos mais diversos países. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento (OCDE) está atualizando suas estatísticas para registrar o comércio baseado no valor agregado. A partir deste método, estima-se que o déficit comercial entre EUA e China seja entre 30% a 40% menor do que demonstram os dados atuais.

Principais destinos das exportações e importações dos EUA

O outro ponto a ser tratado diz respeito aos impactos domésticos do comércio. Houve deslocamento de empregos industriais de baixa competência para a China, prejudicando camadas demográficas menos qualificadas nos EUA. Não obstante, este movimento deslocou igualmente os danos ambientais advindos da produção de manufaturas. Além disto, a produção na China reduziu substancialmente os custos dos bens industriais, que são exportados e consumidos nos mais variados mercados.

Na probabilidade de uma guerra comercial, havendo substancial elevação de tarifas, a economia global e os consumidores sairiam perdendo. Donald Trump autorizou a Representação Comercial dos EUA a realizar investigações em relação a infrações aos direitos de Propriedade Intelectual (PI), o que lhe permitiria aumentar as tarifas de comércio com a China.

Esta medida ignora o recente progresso dos chineses neste setor. Foram depositadas 1,1 milhão de patentes apenas no ano de 2015, sendo que a China cresceu igualmente nos depósitos de patentes no exterior. Adicionalmente, o país registrou mais de 130.000 casos de litígios de patentes e criou três Cortes adicionais especializadas para lidar com casos judiciais na área de propriedade intelectual.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mandatário da China, Xi Jinping, no seminário estratégico para o Diálogo entre EUA e China” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1b/Chinese_President_Xi_Addresses_the_Opening_Session_of_the_U.S.-China_Strategic_Dialogue_in_Beijing_%2827544686235%29.jpg

Imagem 2 Balança comercial dos EUA em relação ao PIB (18952015)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/65/U.S_Trade_Balance_%281895-2015%29.png

Imagem 3 Principais destinos das exportações e importações dos EUA” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/8c/US_trade_final-01.svg/935px-US_trade_final-01.svg.png

Ricardo Kotz - Colaborador Voluntário

Mestrando no programa de Pós Graduação em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), atuando na linha de Economia Política Internacional. Possui especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Agente consular junto ao Consulado Honorário da França em Porto Alegre, atuando paralelamente no escritório RGF Propriedade Intelectual, no período de 2013-2015.

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