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Mobilização popular e alianças internacionais trazem Kafando de volta ao comando de Burkina Faso

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Em seus principais escritos sobre poder e autoridade, Max Weber demonstrou que a autoridade política é, também, e especialmente, exercida através da violência. Décadas depois, Joseph Nye, professor da Universidade de Harvard, defendeu a tese de como o poder político em uma sociedade globalizada e democrática ocorre através da atração; através do “poder brando”.

Na semana passada, a população de Burkina Faso, ao mobilizar-se em peso nas ruas contra o golpe ao presidente interino Michel Kafando[1][2], deixou claro que os dias em que Compaoré e seus seguidores exerciam o poder através da coerção física e moral talvez tenham chegado ao fim.

Nós estamos orgulhosos da mobilização popular e da coragem do povo burkinabense, especialmente a juventude, cuja firmeza garantiu o fim do processo de usurpação[2], afirmou Kafando, momentos após regressar ao posto de Presidente interino.

No cargo desde o final do ano passado (2014), a manutenção de Kafando na Presidência interina representa uma esperança ao povo de Burkina Faso, que, após 27 anos sob o comando de Blaise Compaoré, aguarda uma inédita eleição para a escolha de seu novo Presidente. O povo, em novembro do ano passado, mobilizou-se em peso nas ruas da capital Ouagadougou, pedindo a saída de seu antigo líder.

As eleições gerais, que estavam previstas para ocorrerem em duas semanas, tiveram que ser postergadas para o fim de novembro, devido a tentativa de Golpe por parte do Regimento de Segurança Presidencial (RSP), liderado pelo general Gilbert Diendéré[3]. Instaurado por Compaoré, o RSP é um órgão de segurança fiel ao antigo Presidente, demonstrando que a tentativa de Golpe na semana passada tratou-se de uma busca forçada de restaurar o poder de Compaoré[3].

Para Eloise Bertrand, professora da Universidade de Warwick, a baixa popularidade de Compaoré e da RSP de qualquer maneira impediria a manutenção de Diendéré no governo. Em suas palavras: “Os protestos populares contra o golpe demonstram que o Regimento de Segurança Presidencial não possui a aceitação da ampla maioria do país e que por isso não seria capaz de governar o país por muito tempo[3].

Órgãos regionais e internacionais também exerceram papel crucial para o retorno de Kafando ao poder[2][3]. A atuação de instituições como a União Africana e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental deixou claro como instituições estrangeiras são capazes de resolver conflitos locais através da coerção sob líderes políticos.

Autoridades políticas de nações adjacentes também participaram ativamente do processo de restauração de Kafando. Os presidentes de Gana, John Dramani Mahama; do Niger, Mahamadou Issoufou; e o vicepresidente da Nigéria, Yemi Osinbajo, voaram para Ouagadougou com o intuito de encontrar Diendéré e negociar o fim do Golpe Armado[1][3]. Mas, acima de tudo, a mobilização pública em torno do movimento representa um significativo avanço para a sociedade de Burkina Faso. Entre ficar à margem do jogo político e deliberar sobre o futuro de seu país, a população escolheu a segunda opção, demonstrando que a violência imposta por regimes autoritários já não mais os assombra. Caberá aos candidatos à Presidência, nas eleições de novembro, formular um plano de governo capaz de atrair a maioria dos eleitores burkinabenses.

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Imagem (FonteAccra Report):

http://accrareport.com/africa-news/president-of-burkina-faso-michel-kafando-and-prime-minister-yacouba-isaac-zida-taken-hostage-presidential-guard/

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Fontes Consultadas:

[1] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2015/09/17/world/africa/guards-seize-interim-leaders-of-burkina-faso-gunfire-heard.html

[2] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2015/09/24/world/africa/burkina-faso-coup-michel-kafando.html?ref=africa&_r=0

[3] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/sep/25/burkina-faso-foiled-military-coup

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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