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Moçambique vê suas contas públicas e confiança entre investidores externos se deteriorarem

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A crescente deterioração das contas públicas de Moçambique vem mitigando a confiança dos investidores externos sobre a capacidade de o país honrar com seus compromissos financeiros. Movimentações no mercado financeiro na semana passada deixaram clara a preocupação das instituições financeiras internacionais quanto à solvência do Governo moçambicano.

Na penúltima terça, dia 3 de maio, a agência de classificação de risco Fitch reduziu o rating de Moçambique para o nível CCC, pior dentro de sua escala de classificação. Segundo a instituição, a razão para o rebaixamento da nota de Moçambique se dá em face da crescente dívida fiscal detida pelo país, cujo volume, segundo estimativas da própria agência, deve representar mais do que 100% do Produto Interno Bruto (PIB), ao final de 2016.

Outra instituição financeira internacional que alertou os riscos de endividamento excessivo por parte do Governo moçambicano foi a Economist Intelligence Unit (EIU), instituição britânica de avaliação de riscos. Para a organização, o crescente endividamento do Estado tende a retrair a entrada de investidores externos, o que gera um movimento em espiral, uma vez que dificulta o financiamento da própria dívida.

Uma das principais consequências do crescente endividamento e da diminuição do volume ingressante de investimentos é a escassez de divisas, gerando expressivas pressões sob a moeda nacional, o Metical. Na verdade, se compararmos o câmbio Metical/Dólar deste mês de maio com maio do ano passado (2015), podemos observar uma desvalorização de aproximadamente 40%, uma das maiores no mundo emergente.

A queda de prestígio no mercado internacional, acompanhada pela perda de rating nas principais agências de risco, implica em pressões sobre a taxa de juros interna, a qual deve se elevar nos próximos meses, com o intuito de atrair o capital de risco, tendo no horizonte o financiamento da dívida. Entretanto, a subida nos juros poderá implicar em recessão econômica, uma vez que tende a prejudicar o consumo e os investimentos em bens de capital na indústria moçambicana incipiente.

Soma-se que a abrupta desvalorização do Metical neste último ano elevou consideravelmente o custo de vida da população local. O país, que em 2010 observou uma das principais mobilizações populares de sua história por causa do aumento nos preços de alimentos, poderá testemunhar novas movimentações sociais caso o custo de vida acompanhe a desvalorização da moeda nacional.

Tais condições econômicas internas, no entanto, não representam a totalidade de fatores de repulsão a investidores externos que afetam Moçambique atualmente. O aumento da tensão entre a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), partido governista, e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), principal partido de oposição, trouxe novamente à consciência coletiva a memória dos tempos de guerra civil, à medida que se acentua o conflito entre parte dos grupos armados dos dois partidos, principalmente na região de Gorongosa.

Em resumo, fatores econômicos e políticos condicionam Moçambique à posição de coadjuvante no mercado global de bens, serviços e investimentos. Se, nos últimos anos, o fluxo de investimento estrangeiro direto estava aumentando no país, as condições aqui mencionadas apontam para uma clara tendência de retração neste crescimento, fato que pode prejudicar o desenvolvimento econômico e social moçambicano.

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Imagem (FonteCommons Wikimedia):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Flag_of_Mozambique.svg

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Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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