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Morales perde credibilidade e é questionado na Bolívia

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Além dos atuais questionamentos internacionais que vem sofrendo devido a estatização da TDE (filial da espanhola REE) [1], o presidente da Bolívia, Evo Morales, vem perdendo credibilidade diante de parcela significativa de sua população e também está sendo questionado quanto sua competência administrativa, quanto a correção nas ações políticas e com relação ao cumprimento das promessas feitas de que mudaria país.

 

Há várias semanas estão ocorrendo manifestações, greves, enfrentamentos entre grupos políticos e embates entre parcelas da população. Médicos, motoristas, estudantes e indígenas estão confrontando o Governo com gritos de repúdio ao mandatário e aos seus assessores, bem como, com acusações de que o país não mudou, seja pelo não cumprimento das promessas, seja pela alegada incompetência dos administradores públicos.

Ontem, dia 9 de maio, iniciou uma “Greve Geral” de 72 horas convocada pela “Central Obrera Boliviana” (COB / “Central Operária Boliviana”, em português), acompanhada de muita violência em várias cidades, seja porque os manifestantes tentaram invadir repartições pública (“em La Paz, onde milhares de manifestantes, principalmente universitários e médicos, tentaram entrar à força na Praça Murillo, onde estão as sedes do Executivo e do Legislativo”*), seja pelo fato de aliados de Morales estarem se posicionando contra os manifestantes, podendo levar a uma crise social com grande violência, caso o Governo não adote uma postura para recuperar a credibilidade que vem perdendo paulatinamente ao longo dos últimos meses,  desde que o Presidente foi reeleito em 6 de dezembro de 2009 para assumir o segundo mandato, iniciado em 2010.

Os médicos estão revoltados com o aumento da jornada de trabalho de 6 para 8 horas diárias, porque, segundo declaram, o país é um dos que tem os menores salários para médicos na “América Latina”. Os sindicalistas, por sua vez, não aceitam a proposta de aumento salarial de apenas 8% (significando que o salário médio no país subirá de 546 dólares, para US$ 590.00 por mês) e aumento do salário mínimo de 22% (indo para até US$ 145.00) enquanto calculam que a “Sexta Básica” está em US$ 1,192.00. Ou seja, aproximadamente, 8 vezes o salário mínimo. Durante a marcha que ocorreu neste dia de Greve os manifestantes gritavam: “Evo dizia, que tudo mudaria! Mentira, mentira, a mesma porcaria!. (…) O povo unido jamais será vencido!”**.

Os povos do “Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure” (Tipnis) estão declarando que consideram ter Morales descumprido a promessa feita, desrespeitado a Lei e os trâmites democráticos na construção da estrada que atravessará a “Reserva Indígena”. Além disso, apontam que ele está realizando manobras para contornar os seus direitos.

De acordo com a “Anistia Internacional” (AI), que está acompanhando o caso, “boa parte do conflito atual radica no fato de que as autoridades bolivianas não realizaram uma consulta prévia, livre e informada”*** e afirmam que os índios acreditam que o Presidente afirmará estar fazendo uma consulta previa neste momento porque ainda não foi construído o trecho central da estrada, uma vez que o “os planos para a obra estavam aprovados desde 2008 pelo menos”***. De acordo ainda com a AI, os indígenas identificam que a consulta prévia diz respeito a escolha do melhor local para a construção da estrada e não sobre a sua paralisação, ou não, tal qual Morales havia prometido, por isso, acham que estão sendo enganados.

Analistas apontam que a perda da credibilidade se deve principalmente pelo fato de o Presidente ter anunciado ganhos nunca antes conseguidos na Bolívia após as estatizações, com reservas inéditas no país (o Governo afirma que o investimento público aumentou de cerca de 600 milhões de dólares antes de Morales para 2,4 bilhões de dólares no último ano e que o nível de reservas internacionais se situa de forma inédita nos 12 bilhões de dólares”**), mas não ter dado à Bolívia nova configuração, nem ter melhorado a vida de seu povo.

Segundo apontam, o Presidente está sendo acusado especialmente por incompetência administrativa, já que se cercou de pessoas e grupos não qualificados para exercer a reestruturação do país, preenchendo os cargos por razões políticas, ou ideológicas, o que gerou incapacidade de gerar projetos adequados para alavancar a sociedade e o país.

De acordo com o chefe da “Unidade de Conflitos” da “Defensoria do Povo”, Gregorio Lanza, a Bolívia está vivendo uma situação que pode piorar, pois o que está ocorrendo “São conflitos sociais que surgem por demandas sociais, pois o governo gerou expectativas demais. (…) Vemos que há uma ausência de gestão pública. (…) ausência de gestão na prevenção de conflitos. (…) É preciso mudar o rumo da gestão, se não os problemas vão continuar”**.

Observadores destacam ainda que as estatizações e nacionalizações produziram fuga de capital e no momento em que poderia ter o retorno da confiança internacional, Governo voltou a adotar a medida, causando insegurança dos investidores que certamente evitarão aportar recursos no país em futuro breve.  

Segundo anuncia a mídia boliviana, Morales está sendo apoiado pelos funcionários do Estado, aliados políticos e por seus partidários, principalmente pelos cocaleiros da região de onde provém.

Acreditam os observadores que, diante das medidas adotas recentemente a situação tenderá a piorar, pois o governante criou uma situação que tende ao impasse, já que desconsiderou o fato de que os seus votos vieram pelo carisma naquele momento histórico, mas também pelas propostas de soerguimento da Bolívia e enriquecimento do país e do povo, as quais, não sendo cumpridas, recebem e continuarão recebendo contraposição da mesma esquerda que o elegeu. Este é um fator que Morales ignorou, avaliando que não os esquerdistas não se posicionariam contra ele pelo fato de serem “socialistas”. Destacam os especialistas que ele, no entanto, o Presidente representa um matiz da esquerda boliviana, da mesma forma que apenas um matiz da representação indígena, os quais começam a perceber diferenças significativas entre o que desejam e o que Morales pode representar concretamente, podendo vir a agregar, mesmo que indiretamente, à sua Oposição das regiões mais ricas da Bolívia.

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[1] Ver nota “Indecisão boliviana sobre a indenização a REE”, publicada no “Ceiri Newspaper” de ontem, dia 9 de maio.

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Fonte:

* Ver:

http://br.noticias.yahoo.com/violentos-distúrbios-marcam-1-dia-greve-sindical-morales-210149732–finance.html

** Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5764323-EI294,00-Protestos+trabalhistas+na+Bolivia+pressionam+governo+de+Evo+Morales.html

*** Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5756628-EI8140,00-AI+critica+consulta+sobre+estrada+em+parque+na+Bolivia.html

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Ver também:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5759959-EI8140,00-Igreja+pede+dialogo+diante+de+onda+de+protestos+na+Bolivia.html

Ver também:

http://www.prensa-latina.cu/index.php?option=com_content&task=view&id=504289&Itemid=1 

Ver também:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5756468-EI8140,00-Medicos+desconfiam+de+Morales+e+mantem+greve+na+Bolivia.html

Ver também:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5761745-EI8140,00-Partidarios+de+Morales+bloqueiam+passeata+indigena+contra+estrada.html

Ver também (Vídeo):

http://www.youtube.com/watch?v=xHi3t1FY3fU

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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