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Moshe Ya’alon renuncia e Lieberman é anunciado Ministro da Defesa de Israel

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No último 20 de maio, em entrevista coletiva à imprensa, o então Ministro da Defesa israelense, Moshe Ya’alon, anunciou sua renúncia ao cargo e ao mandato no Parlamento. Sob o argumento de que o Governo de Israel está tomado “por elementos perigosos e extremistas, e que não é mais possível confiar no Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, o Ministro anunciou que “se retirava da vida política para um descanso”. Ele falou também sobre ética na política e disse “temer pelo futuro de Israel”. A saída de Ya’alon se dá em meio a manobras políticas do Primeiro-Ministro para ampliar sua coalizão de governo e depois de seu cargo ter sido oferecido a um rival de extrema direita, Avigdor Lieberman, do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu.

Ya’alon era considerado uma voz moderada no Governo, líder sênior do conservador partido Likud, mas, constantemente, suas declarações sobre o papel das Forças Armadas israelenses eram mais moderadas e entravam em choque com as de Netanyahu. Por exemplo, ele já vinha tendo divergências com o Primeiro-Ministro por ter estimulado os oficiais a sempre dizerem o que pensam, mesmo que suas declarações fossem contrárias às ideias de seus superiores ou dos dirigentes políticos.

A tensão entre os dois se acirrou nos últimos dias, quando Ya’alon defendeu o direito de um de seus funcionários expressar suas opiniões livremente sobre as Forças Armadas. Na ocasião, o General Yair Golan fez associações entre as últimas ações de Israel e eventos na Alemanha nazista.

Outro ponto de tensão ocorreu em março, quando um soldado israelense foi flagrado em um vídeo atirando na cabeça de um agressor palestino que já estava ferido e rendido em Hebron. Ya’alon defendeu que o soldado fosse processado por assassinato, por ter violado o código militar. No entanto, membros do Governo defenderam a ação do militar.

Segundo o agora Ex-Ministro, a maior parte da população de Israel é tolerante e almeja por uma sociedade liberal e democrática. “No entanto, para minha grande infelicidade, elementos extremistas e perigosos tomaram Israel e o partido Likud [governista], ameaçando a população”, reportou a Folha de São Paulo.

Ele afirmou em seu discurso de renúncia: “Recentemente, tive fortes discordâncias em assuntos morais e profissionais com o premiê, diversos ministros e membros do Knesset [Parlamento]. (…). Lutei com todas as minhas forças contra manifestações de extremismo, violência e racismo na sociedade israelense, que ameaçam sua solidez. (…). Infelizmente, políticos do país escolheram o caminho da incitação e segregação de partes da sociedade israelense, em vez de unificá-las e acolhê-las. É insuportável para mim que o cinismo e a ânsia pelo poder estejam nos dividindo… [expressando] preocupação honesta sobre o futuro da sociedade israelense e das próximas gerações”.

Na quarta-feira, 25 de maio, Netanyahu nomeou Avigdor Lieberman, que havia sido por duas vezes Ministro das Relações Exteriores. Ele é um antigo aliado do Premiê, mas não possui experiência militar, em forte contraste com as credenciais de Ya’alon. Fontes dão conta que o cargo já teria sido oferecido por Netanyahu, o que efetivamente teria causado a renúncia de Ya’alon, tendo havido especulações de que, se Lieberman se juntasse ao Governo, a Ya’alon seria oferecido o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Esta possibilidade foi efetivamente sepultada com seu pedido de renúncia do cargo, bem como de seu mandato no Parlamento, que aconteceu dois dias depois de Lieberman ter afirmado que seu partido ultradireitista, Yisrael Beiteinu, poderia entrar na coalização governamental do Likud, caso fossem cumpridas diversas exigências. Estas incluíam sua nomeação, reformas no plano de pensão e a defesa da pena de morte contra árabes condenados por terrorismo. A medida era exigida como condição para que seu partido entrasse na coalizão governamental.

Diante do acontecido, o líder de um partido membro da coalizão, o Kulanu, já declarou que este se oporia a qualquer forma de legislação que permitisse tribunais, militares ou civis, estabelecerem sentença de morte. “É uma ideia inadequada de ambos os pontos de vista, moral e prático”, afirmou um alto funcionário do Partido.

De acordo com fontes do jornal israelense Haaretz, Palestinos acusados de crimes terroristas são julgados em tribunais militares israelenses, enquanto os judeus acusados de crimes semelhantes contra os palestinos geralmente são julgados em tribunais civis israelenses. Assim, a defesa feita por Lieberman da pena de morte contra árabes condenados por terrorismo em cortes militares não se aplicaria a judeus condenados por terrorismo. Ressalte-se que Israel já possui a pena de morte em seus livros estatutários, mas esta só se aplica em casos de genocídio e a crimes contra a humanidade, tendo executado até hoje apenas o ex-oficial nazista Adolf Eichmann, condenado à forca, em 1962, por genocídio.

No momento, Netanyahu governa com a maioria mais apertada na história do Knesset (o Parlamento Israelense), com uma vantagem de um assento na instituição parlamentar de 120 membros. Com a entrada do partido Yisrael Beiteinu na coalizão, o Primeiro-Ministro expandirá a base de 61 assentos para 67. Netanyahu declarou procurar ampliar sua coalizão desde que foi empossado para seu quarto mandato, em março de 2015, acrescentando que a melhor coisa para o país é um Governo tão amplo quanto possível.

Lieberman é uma das figuras políticas mais controvertidas em Israel e a Oposição declarou que trazê-lo “ao governo levaria a políticas que estão à beira da loucura”, conforme disseminado pela Al Jazeera. No passado, ele já expressou sua descrença em relação a um acordo de paz com os palestinos, exigiu a derrubada do Hamas (grupo insurgente que governa a Faixa de Gaza), a derrocada da Autoridade Palestina e a transferência de palestinos que vivem em Israel para áreas ocupadas na Cisjordânia e Gaza. Ele, que mora em um assentamento na Cisjordânia ocupada, também pediu a anexação de assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada e assinou legislações controversas, como o “juramento de lealdade que seria exigido dos cidadãos de Israel para manterem sua cidadania.

Netanyahu declarou que, mesmo após a nomeação de Lieberman, o Governo irá se esforçar para retomar o processo de paz com os palestinos, com a ajuda de agentes regionais. Visando mostrar abertura e vontade de diálogo em meio às tensões que antecederam a renúncia de Ya’alon, em 17 de maio, o Primeiro-Ministro comentou com o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi que “Israel está pronto para participar com o Egito e outros países árabes no avanço, tanto do processo diplomático como da estabilidade na região”. A Casa Branca respondeu à partida de Ya’alon dizendo que está ansiosa para trabalhar com o próximo Ministro da Defesa, acrescentando: “Nossos laços de amizade são inquebráveis, e nosso compromisso com a segurança de Israel permanece absoluto”.

Ya’alon era um político bastante popular e respeitado entre a população israelense e visto como figura moderada dentro do Likud. Foi cortejado assiduamente por Netanyahu em um esforço para transmitir uma imagem da liderança do Likud como responsável, motivada por valores e liberal. Ao longo dos anos, se tornou uma figura aceita e admirada do partido – ainda que, como ministro da Defesa, tenha supervisionado a guerra israelense de 51 dias em Gaza, em 2014, na qual mais de 2.000 palestinos foram mortos, um quarto dos quais eram crianças.

Críticos às recrudescidas políticas de Netanyahu questionam se o Primeiro-Ministro não estaria colocando suas próprias motivações pessoais à frente do interesse do Partido e da população israelense. “Em Israel, jogamos a política de jogo duro”, declarou Gadi Wolfsfeld, professor de comunicação política no Interdisciplinary Center. “Por outro lado, mesmo na escala de jogo duro, da política cínica, este foi um choque”. O negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, alertou que a nomeação de Lieberman para o cargo “resultaria em apartheid, racismo e extremismo religioso e político”.

Netanyahu assume uma grande aposta ao nomear Lieberman para chefia das Forças de Defesa Israelenses (IDF), porque a partida de Ya’alon do Likud, oficialmente, o torna um partido de extrema-direita, muito semelhante ao ultranacionalista HaBayit HaYehudi, presidido por Naftali Bennett. Moshe Ya’alon, Dan Meridor, o ministro das finanças Moshe Kahlon e Gideon Saar eram todos considerados figuras liberais, moderadas e imponentes do Likud. Na ausência desses membros principais – que deixaram o partido nos últimos anos – a liderança do Likud atual é em grande medida voltada para a extrema direita e para os colonos. Em outras palavras, o Likud está se tornando menos atraente para aqueles que se identificam com a chamada “direita soft”. Na verdade, Netanyahu disputará agora o mesmo conjunto de eleitores com Bennet e Liberman – a “direita hard-core”, os colonos e os radicais. Nas palavras de Mazal Mualem, colunista do Al-Monitor, Ya’alon é a “mais quente mercadoria política na prateleira da política centrista”. Em qualquer cenário, ele tem um forte apelo para a direita liberal que o Likud representou outrora.

Para alguns analistas, a nomeação de Lieberman e inclusão do Yisrael Beiteinu na base governista não podem ser vistos diretamente como um sinal de caminhar mais à direita. Netanyahu tem estado desesperado para encontrar uma maneira de ampliar sua coalizão, tendo até mesmo considerado um acordo com a oposição dita de centro-esquerda, a União Sionista, antes de finalmente se voltar para Lieberman.

Na prática, contudo, a sua adição ao Governo cimentaria ainda mais a natureza extremista da coalizão de Netanyahu e tornaria mais moroso o processo de paz com os palestinos. Uma nova Conferência, agendada para 3 de junho em Paris, reunirá chanceleres de 20 países, incluindo Egito, Arábia Saudita e Jordânia, sem os israelenses e palestinos presentes. Posteriormente, uma outra Conferência, a ser realizada no Outono europeu*, contará com a presença de israelenses e palestinos. O objetivo seria retomar as negociações que estão congeladas desde que uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos entrou em colapso, em abril de 2014.

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* No hemisfério sul, corresponde ao período da Primavera (final se setembro; outubro; novembro; até o final de dezembro).

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ImagemMoshe Yaalon anuncia sua renúncia do cargo de ministro da Defesa de Israel, em Tel Aviv, alegando crescimento do extremismo em Israel. O primeiroministro Benjamin Netanyahu alega que a demissão aconteceu porque o Yaalon foi convidado a participar do ministério das Relações Exteriores” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Moshe_Ya%27alon

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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1 Comments

  1. paulo nery 1 de junho de 2016

    SOMENTE ISRAEL PODE DECIDIR A PAZ NO ORIENTE MÉDIO….Não ha razões para que não A FAÇA. FAÇA LOGO, POIS A PAZ NO MUNDO DEPENDE DOS SENHORES DO PODER DE ISRAEL.

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