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Muçulmanos em todo o mundo celebram início do Ramadã

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Na última segunda-feira, 6 de Junho de 2016, milhões de muçulmanos em todo o mundo marcaram o início do mês sagrado do Ramadã. O período é caracterizado por intensa oração, reflexão, jejum do amanhecer ao anoitecer, generosidade e boas ações. Autoridades religiosas na maioria dos países do Oriente Médio anunciaram que a lua nova de Ramadã foi vista na noite de domingo, 5 de junho. Indonésia, o país muçulmano mais populoso do mundo, declarou que os muçulmanos no país iniciariam o jejum na segunda-feira, assim como aqueles em Singapura, Iêmen, Líbano, Síria, Qatar, Kuwait, Jordânia, Egito, Emirados Árabes Unidos, Afeganistão, nos territórios palestinos, entre outros. No Brasil, em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, considerada a segunda maior comunidade de língua árabe do país, parte dos cerca de 20 mil fiéis levantou cedo para a primeira das cinco orações do dia, antes das 6h, que começou com a leitura do Alcorão.

Os muçulmanos – cerca de 1,6 bilhão da população mundial – acreditam que o Ramadã é o mês em que os primeiros versos do Corão, livro sagrado do Islã, foram revelados ao Profeta Muhammad, mais de 1.400 anos atrás. O Alcorão teria sido verbalmente revelado por Deus a Muhammad através do anjo Gabriel (Jibril), gradualmente, durante um período de aproximadamente 23 anos, com início em 22 de Dezembro 609 d.C., e terminando em 632 d.C., ano de sua morte, em Medina.

A observação da lua nova marca o início do nono mês lunar muçulmano, que varia entre 29 e 30 dias. Alguns países utilizam cálculos astronômicos e observatórios, enquanto outros registram a aparição da lua somente a olho nu, levando por vezes a diferentes tempos de início da contagem deste mês. A cada ano, o Ramadã tem início cerca de 11 dias mais cedo.

Cada dia, durante o mês sagrado, os muçulmanos se abstêm de comer, beber, fumar e de manterem relações sexuais do nascer ao pôr do sol, para se concentrarem em sua espiritualidade, contemplação, boas obras e caridade. Há exceções ao jejum para crianças, idosos, doentes, mulheres grávidas ou amamentando e pessoas que viajam. Muitos quebram o jejum ainda como fez o Profeta Muhammad, com um gole de água e algumas tâmaras ao pôr do sol, seguido de oração. A despeito do sacrifício e da autodisciplina, o Ramadan é um tempo de celebração e de alegrias. Também é comum que os muçulmanos quebrem o jejum ao lado da família e amigos e instituições de caridade organizam refeições gratuitas para o público em Mesquitas e outros espaços públicos. É também comum a acolhida de não-muçulmanos para os ifṭars, inclusive nos Estados Unidos.

O Ramadã é um mês de intensa autorreflexão e aumento da consciência de Deus para subjugar e reprimir delitos cotidianos, como calúnias, rancores e mentiras, explica Hossein Kamaly, professor na Faculdade Barnard e especialista em estudos islâmicos e história do Oriente Médio. De acordo com a especialista de Oxford em estudos islâmicos e ética, Tariq Ramadan, o mês do Ramadã é uma jornada para compreender o significado da resistência no Islã, o jihad, ou luta em direção à sharia (lei islâmica). Este seria o verdadeiro e correto caminho de Deus a ser seguido Ash-shari’a – e não o código penal fruto da visão muito estreita e amplamente promovida no ocidente, explica Ramadan. O caminho correto é aquele que se recusa a seguir paixões, instintos e desejos. Neste sentido, o Ramadã tem a ver com o conhecimento, com o autocontrole, com a resistência às nossas paixões, instintos e ignorâncias. Assim, o mês celebra o conhecimento, a educação, a reforma do eu em nome do caminho certo, tendo a ver com a escolha da verdade através do conhecimento em oposição à ignorância. Nas palavras do filósofo e escritor, “não há sharia como um caminho sem o jihad como uma luta para cumprir nossas responsabilidades como seres humanos”.

Famílias e amigos se levantam cedo para suhoor, a última refeição feita antes do sol nascer, e no final de um dia de jejum, se reúnem para o iftar, a quebra do jejum ao pôr do sol. O jejum tem como intenção trazer os fiéis para mais perto de Deus e para lembrá-los do sofrimento dos menos afortunados. O jejum durante o Ramadã (sawm) é um dos cinco pilares do Islã, ao lado do testemunho de fé (shahada), a oração diária (salat), a caridade ou zakat aos necessitados, e a realização da peregrinação à Meca, o hajj, pelos capacitados ao menos uma vez na vida. Em muitos países muçulmanos, escritórios são obrigados por Lei a reduzir as horas de trabalho e a maioria dos restaurantes estão fechados durante o dia. Os muçulmanos celebram o fim do Ramadã com o feriado de Eid al-Fitr.

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Imagem (Fonte):

https://pixabay.com/pt/quran-ramadan-ramadhan-religiosa-1409495/

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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