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Muito além de Shinzo Abe: percepções chinesas sobre o Novo-Velho Japão

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Beijing já via um Japão mais ativo regionalmente se formando no horizonte muito antes da ascensão de Shinzo Abe ao poder. A China vinha identificando uma crescente assertividade japonesa em questões regionais e globais desde meados da década passada, principalmente  devido ao fortalecimento da parceria estratégica dos japoneses com os “Estados Unidos”.

Embora ancorada numa sólida relação econômica bilateral, a decisão japonesa de incluir a questão de Taiwan como parte de seu acordo estratégico com os norte-americanos em 2005 já havia acendido a luz amarela para alta cúpula do partido comunista em Beijing. A “Declaração Estados Unidos – Japão” de fevereiro de 2005 fez não somente das disputas no “Estreito de Taiwan” objeto de interesse de segurança japonesa, mas, também, reforçou temas já anteriormente consolidados como: assegurar a estabilidade na região da Ásia-Pacífico; dar suporte a uma unificação pacífica da península coreana; normalizar as relações com Moscou em torno das disputas territoriais no norte do país e, finalmente, desenvolver relações com os chineses “dando boas-vindas ao país a desempenhar um responsável e construtivo papel tanto regional quanto globalmente[1].

No entanto, como descreveu um acadêmico taiwanês especialista em segurança regional, já desde 2005 houve uma clara mudança de tom por parte de Tóquio no que se refere às relações e disputas entre os dois países, algo que em nada contribui para as relações bilaterais.  O “Informe de Defesa” japonês de 2010 é um exemplo contundente dessa “mudança de tom”*. No Documento, o Japão manifesta estar atento e incomodado com relação ao crescente poderio militar chinês e suas contínuas intervenções em águas territoriais japonesas ou em áreas objeto de disputas entre as duas partes. De seu lado, a China classificou tanto o Documento quanto a percepção japonesa com relação a sua modernização militar como “paranóica e calcada numa mentalidade da guerra fria[2]. A China insiste que seu incremento militar tem bases essencialmente pacíficas e defensivas em qualquer sentido.

 O editorial do jornal “China Daily”, em 2010, intitulado “Japan’s military ambitions”, deu um ótimo indicativo do profundo desencontro de percepções que cada lado nutre de suas políticas de defesa. De acordo com o editorial, ao investir na modernização de suas forças armadas, a fim de prover alta capacidade de mobilidade as suas tropas e concentrando atenção na região sudeste do país, junto as fronteiras com a China, o Japão tomou decisões “provocativas e [deu] uma péssima notícia para seus vizinhos, uma vez que estes já haviam sido vítimas do passado militarista japonês[2].  O editorial foi mais a fundo e classificou o informe militar japonês como recheado de “elementos direitistas da sociedade japonesa que poderia levar a um perigosa tendência de reavivar o militarismo no país[2]. Ele finaliza dizendo que o Japão, ao “apontar o dedo[2] para a modernização militar da China, apenas encobre suas próprias intenções militares.

A despeito de todo o tom nacionalista que a imprensa oficial chinesa utiliza em relação aos japoneses, os estrategistas da China têm apontado de forma mais direta os câmbios ocorridos no comportamento de Tóquio na última década e afirmam que este se reforçou ainda mais com chegada de Abe ao poder:

1. O Japão tem aumentado sua já importante capacidade militar robustecendo seus laços estratégicos com os “Estados Unidos” desde 1996. Esses acordos têm permitido ao Japão ampliar seu papel em questões estratégicas no leste asiático e na Ásia como um todo. A China destaca como absolutamente simbólicos neste aspecto o suporte americano às ações do ex-primeiro-ministro Koizumi em apoiar o esforço de guerra americano no Afeganistão, enviando navios ao “Oceano Índico”, e o apoio japonês no Iraque, em 2003.

2. Beijing, já há algum tempo, tem julgado os japoneses muito mais reativos às suas tentativas de influência na região. A decisão japonesa de elaborar uma proposta “rival” e similar de “Tratado de Livre Comércio” com os países da ASEAN no início da década já tinham sido vistas por este ângulo.

3. Da mesma forma, também foi observada como um confronto direto a decisão de competir abertamente pelo acesso ao petróleo russo via um gasoduto oriundo da Sibéria objetivando o leste asiático, no caso, o “East Siberia-Pacific Ocean oil pipeline” (ESPO).

Além destas questões, Beijing vem afirmando que Tóquio tem aumentado suas ações de exploração marítima de gás em águas clamadas por Beijing. Acrescente-se ainda a manutenção das inflamadas visitas de altos oficiais japoneses ao “Memorial Yasukuni” e a já clássica questão que também causa espécie em todo o leste e sudeste asiático: o problema da soberania das ilhas disputadas por vários dos Estados da região.

Como podemos perceber, as recentes ações dos países em relação as “Ilhas Senkaku/Diaoyu” estão inseridas num contexto mais complexo que foge meramente as questões levantadas pela mídia quase diariamente. É importante ainda lembrar que, dentre os três principais imperativos de política exterior chinesa (questões envolvendo os “Estados Unidos”, o Japão e Taiwan), o Japão é sempre considerado como o mais sensível de todos.

Este país, mais que uma questão de política externa, exerce enorme influência no humor da massa chinesa, sendo um assunto “emocional por natureza” (Shirk,2007)[3], além de ser objeto de manipulação política por parte do PC chinês, que usa e permite as manifestações nacionalistas nas ruas das grandes cidades da China como elemento de pressão nas relações com os japoneses.

Há ainda um componente subjetivo, uma vez que uma confrontação direta contra os “Estados Unidos” está absolutamente fora de questão para a cúpula político-militar chinesa, pois a China não dispõe de capacidades (ou mesmo intenções) de fazê-lo, seja econômica, seja militarmente. O mesmo, no entanto, não se passa em relação ao Japão.

Os chineses vêem o Japão como uma “potência de segunda linha[3] cuja economia “depende pesadamente do crescimento econômico chinês” (Shirk, 2007: 145)[3]. Se essas percepções encontram eco na realidade é ainda objeto de muita discussão no meio acadêmico. O fato, no entanto, é que o padrão de suspeita mútua é ainda a mais elementar característica nas relações sino-japonesas, mesmo após a consolidação de um formidável intercâmbio econômico.

As disputas territoriais tão alardeadas pela mídia mundial somente mostram cada vez mais que tanto Beijing quanto Tóquio são incapazes de entender suas relações atuais sem as lentes do passado histórico. E, ao que tudo indica, essa característica ainda permeará as relações dos dois mais importantes países da Ásia para as próximas décadas.

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* Declaração dada em entrevista ao autor no dia 15 de março de 2013.

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Fontes Consultadas:

[1] Ver: JOINT STATEMENT U.S.-JAPAN SECURITY CONSULTATIVE COMMITTEE. 19 de fevereiro de 2005. Ministério das Relações Exteriores do Japão. Disponível em:

http://www.mofa.go.jp/region/n-america/us/security/scc/joint0502.html

Ver tambémJapan-U.S. Joint Declaration on Security – Alliance for the 21st century – Abril de 1996 (Clinton-Hashimoto Declaration)”. Disponível no Ministério das Relações Exteriores do Japão:

http://www.mofa.go.jp/region/n-america/us/security/security.html

[2] Ver: “Japan’s military ambition”. Editorial, China Daily News., 20 de dezembro de 2010. Disponível em:

http://www.chinadaily.com.cn/opinion/2010-12/20/content_11724893.htm

[3] Ver: SHIRK, Susan L. China: Fragile Superpower (New York, Oxford University Press, 2007).

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Ver ainda: SUTTER, Robert G. China’s Rise in Asia: Promises and Perils (New York, Rowman & Littlefield Publishers: 2005).

Moisés Lopes de Souza - Colaborador Voluntário Sênior

Graduado em Relações Internacionais pelas Faculdades Integradas Rio Branco. Doutorando em Estudos de Ásia-Pácifico no Doctoral Program in Asia-Pacific Studies (IDAS) da National Chengchi University (Taiwan). Pesquisador Associado do Center for Latin America Trade and Economy, Chihlee Institute of Technology.

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