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[:pt]Na luta contra o EI, EUA promovem ataques aéreos na Líbia[:]

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Na semana passada, os Estados Unidos da América (EUA) lançaram novos ataques aéreos na Líbia, tendo como alvo o Daesh, sigla em árabe para Estado Islâmico (EI). Os EUA e outras potências ocidentais como Grã-Bretanha e França vem promovendo diversas operações no país, argumentando que suas ações visam combater a ramificação do grupo jihadista Estado Islâmico sobre o território líbio.

Desde a queda de Muammar Kadafi em 2011 – que teve apoio de uma intervenção militar liderada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), durante a chamada Primavera Árabe – diversas facções armadas lutam para assumir o controle do país. Naquela ocasião, a Organização argumentou que os ataques pretendiam proteger os civis. A ação da OTAN contribuiu para a vitória dos rebeldes sobre Kadafi, e também viabilizou que a Líbia se aprofundasse em meio ao caos e a guerra civil. Alguns analistas apontam que foi justamente a fragmentação política e o vácuo de poder que possibilitou aos jihadistas controlar e expandir seu poder sobre diversas regiões da Líbia. Nessa ordem de ideias, vale pontuar que recentemente o próprio Barack Obama, presidente dos EUA, afirmou que um dos maiores erros de sua administração foi não ter planejado o “dia seguinte” da intervenção de 2011, apesar de argumentar que era necessária tal ação militar.

Segundo declarações do Pentágono, o bombardeio promovido no último 1º de agosto foi autorizado por Barack Obama após recomendações de Ash Carter, secretário de Defesa, e do general Joseph Dunford, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Assim, de acordo com Peter Cook, Porta-Voz do Pentágono, o Governo de União Nacional da Líbia (GNA), que é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), solicitou o apoio estadunidense para combater o avanço do EI no país.

As Forças Armadas estadunidenses realizaram os ataques aéreos de precisão, utilizando aeronaves tripuladas e não tripuladas contra veículos e contra um tanque T-72 do grupo terrorista na cidade de Sirte, localizada na costa do Golfo de Sidra, a aproximadamente 450 km a leste da capital Trípoli. O controle sobre Sirte tem um viés ideológico, posto que essa é a cidade natal do ex-ditador Kadafi, e ainda há o viés econômico, haja vista que grande parte da indústria petroquímica está localizada nessa região. No entanto, cabe ressalvar que muito embora a Líbia detenha a maior reserva africana de petróleo e a quinta maior reserva de gás natural da África, o acesso a essas infraestruturas é mais difícil quando comparada à Síria, por exemplo, uma vez que grande parte dos recursos energéticos líbios estão sujeitos a bloqueio marítimo, além da própria tecnologia mais avançada, o que restringe o acesso ao grupo jihadista. Assim, muitas ações do EI visam interromper o fluxo desses recursos.

Além disso, analistas assinalam que a atual situação da Líbia fornece um ambiente propício para promover desestabilizações em países vizinhos como Tunísia e Egito. Nesse aspecto, uma das principais preocupações é justamente que o Daesh consiga expandir a faixa de controle em cidades como Derna, Benghazi ou ainda em Sabratha, na região próxima à fronteira da Tunísia. O grupo tem conseguido atrair para o território líbio jovens de países como Marrocos, Sudão e Tunísia. Estimativas feitas no começo de 2016 pelo o Governo estadunidense, apontavam que aproximadamente 6 mil integrantes do EI viviam na Líbia, sendo que alguns desses vieram da Síria. Já segundo relatório de junho da Organização das Nações Unidas (ONU), esse número deve ser de 2 a 5 mil combatentes na Líbia.

Em uma sequência de eventos, a cidade de Sirte transformou-se no reduto mais importante do grupo jihadista fora da Síria e do Iraque. Em fevereiro de 2015, a cidade, que foi tomada por integrantes do grupo terrorista, no qual primeiramente os combatentes jihadistas faziam parte da milícia Ansar Al-Sharia – constituído durante a Guerra Civil de 2011 – declararam sua aliança ao Estado Islâmico. Em seguida, pessoas que se diziam integrantes do Boko Haram, que atua particularmente na Nigéria, firmaram seu apoio ao grupo; e, por fim, homens contrários ao general Khalifa Haftar, que é associado ao Ocidente e às forças do ex-ditador Kadafi, também formaram parte dessa aliança. A cidade foi de fato controlada pelo EI em junho de 2015, quando passaram a controlar pontos estratégicos, tais como o hospital e a universidade.

Desde maio deste ano (2016), as forças que integram o GNA, baseadas em Misrata, localizada entre Trípoli e Sirte, vem promovendo uma série de operações a fim de recuperar Sirte, incluindo um bloqueio naval. As forças pró GNA não detém grandes capacidades, dessa forma, os 1.500 homens feridos e 280 mortos em Sirte representam grandes perdas. Assim, o pedido de ajuda deve-se em parte à falta de capacidades, tanto de equipamentos quanto de conhecimentos, para fazer frente à resistência e armadilhas implementadas pelos combatentes.

Segundo declarações de Fayez Serraj, Primeiro-Ministro líbio, que chegou ao poder neste ano, após negociações mediadas pela ONU, os bombardeios causaram inúmeras perdas ao EI. Durante seu discurso, Serraj ressalvou que, apesar do GNA solicitar o apoio internacional para combater o grupo jihadista, não haverá nenhuma presença estrangeira no país. Cabe pontuar que forças estadunidenses, francesas e britânicas atuam na Líbia, contudo Serraj argumenta que elas destinam-se apenas a identificar e repassar informações sobre o EI e dar apoio logístico aos integrantes das forças pró-Governo. Nesse mesmo sentido, Peter Cook destacou que os Estados Unidos não enviarão à Líbia soldados para participar de operações terrestres, e que o apoio se limitará ao compartilhamento de informações e ataques aéreos.

Os ataques da semana passada fazem parte de uma abrangente série de operações planejadas e controladas pelo Comando dos Estados Unidos para África (U.S AFRICOM, em inglês). A primeira fase dessas operações é a Operation Odyssey Resolve, que consiste em voos de inteligência, vigilância e de reconhecimento territorial. A segunda fase envolve a Operation Junction Serpent, que também se destina a captar informações. Por fim, a terceira fase é a Operation Odyssey Lightning, que, segundo declarações do Pentágono, começou na semana passada, na qual alvos são abatidos por aeronaves de ataque.

Assim, compete destacar que os Estados Unidos tem promovido por meses operações dentro e fora da Líbia. Outros países também tem atuado em território líbio, como a Itália, Grã-Bretanha, França, além países da região, como o Egito e os Emirados Árabes Unidos (EAU). Em fevereiro deste ano (2016) a Itália aprovou, embora com restrições, o uso de drones operados por norte-americanos, a partir de uma base em Sigonella, na região leste da Sicília. Além disso, os EUA operaram aeronaves de ataque a partir do Reino Unido para atacar alvos do EI na Líbia. Cabe destacar que a construção de nova base aérea em Agadez, no norte do Níger deverá ser utilizada para fazer operações de vigilância na região sudoeste da Líbia.

Analistas apontam que a ação na Líbia é importante, pois visa deslocar fisicamente líderes que estão na Síria e no Iraque, tal qual ocorreu com Abu Nabil, principal líder do EI na Líbia, que atuou por anos ao lado da Al-Qaeda, e se transferiu para território líbio, sendo morto em uma ação militar promovida pelo Governo estadunidense em novembro de 2015. Naquela ocasião o Pentágono ressaltou, por meio de comunicado, que a morte de Nabil diminuiria as habilidades do grupo no país. Além disso, o comunicado destacava que os EUA iriam atuar contra os líderes do EI onde quer que eles estivessem.

Em vista disso, alguns pesquisadores salientam a existência de uma crescente pressão para que ocorra uma nova intervenção militar estrangeira na Líbia, entretanto, agora, o objetivo seria combater o ramo do EI. No entanto, tal ação suscita uma série de questionamentos, entre eles como seria o plano para combater o EI e o que esperar para o dia seguinte da intervenção, uma vez que a ação militar de 2011 aprofundou a fragmentação e viabilizou para que o grupo jihadista expandisse seu poder.

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Imagem (Fonte):

http://www.dw.com/pt/eua-atacam-l%C3%ADder-do-estado-isl%C3%A2mico-na-l%C3%ADbia/a-18851011

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Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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