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Netanyahu discursa nos EUA enquanto Programa Nuclear Iraniano é negociado na Suíça

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O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu chegou a Washington no último dia 2 de março, segunda-feira, para impedir um Acordo Nuclear com o Irã. Netanyahu discursou ao grupo de lobby próIsrael do Comitê de Assuntos Públicos IsraeloAmericano (AIPAC) na segunda-feira e perante o Congresso NorteAmericano na terça-feira, dia 3[1]. A visita acontece concomitantemente ao encontro entre Irã e seis potências mundiais, incluindo os Estados Unidos, estabelecido para retomar as negociações em uma tentativa de cumprir o prazo final de 31 de março[1]. Os negociadores estão correndo contra o tempo para obter um Acordo sobre o Programa Nuclear Iraniano após dois prazos finais terem sido perdidos durante 2014[2].

Em discurso ao Congresso dos Estados Unidos, Netanyahu declarou que a busca do Irã por armas nucleares pode ameaçar a sobrevivência de Israel. “O mundo deve exigir que o Irã pare de apoiar o terrorismo no mundo e pare de ameaçar aniquilar Israel[3], afirmou. Netanyahu pressiona os parlamentares norte-americanos para que bloqueiem um acordo de Washington com o Irã, que assessores de Obama afirmam ser um possível marco da política externa do Presidente. “Sabemos com certeza que qualquer acordo com o Irã incluirá concessões que o deixarão com vasta infraestrutura nuclear. Este é um mau acordo[3], completou. Adicionalmente, o Premiê Israelense também descreveu o Irã como uma “ameaça para todo o mundo[4]. De acordo com o Primeiro-Ministro, o regime iraniano está mais radical do que nunca, sua ideologia está profundamente enraizada no islã militante e o país sempre será um inimigo dos Estados UnidosNetanyahu reiterou que a relação EUAIsrael deveria “permanecer acima da política[4] e que ele estava agradecido pelo apoio do povo americano[4]. Em seu discurso, que comparou a liderança iraniana ao Estado Islâmico e invocou o Holocausto nazista, Netanyahu disse que um acordo entre Estados Unidos e o Irã colocaria este último no caminho para uma arma nuclear. “Este acordo tem duas concessões principais: primeiro, deixa o Irã com um programa nuclear vasto; e segundo, o levantamento das restrições a esse programa ocorreria daqui a somente uma década. É por isso que este negócio é tão ruim. Ele não bloqueia o caminho do Irã para a bomba; mas pavimenta seu caminho à ela[5].

De acordo com Suzanne DiMaggio, diretora da Iniciativa Iraniana no think tank apartidário New America Foundation, não restam dúvidas de que a mensagem de Netanyahu irá ser conveniente àqueles que se opõem a qualquer forma de acordo com o Irã. Mas, conforme a analista, há muito pouca chance de que sua aparição em Washington atrapalhe de fato as negociações[2].

No trajeto para o plenário, onde discursaria, Netanyahu foi ovacionado pelos presentes, a maioria membros do Partido Republicano, e parou para devolver cumprimentos que recebia. Durante o discurso, o PrimeiroMinistro de Israel foi novamente aplaudido, por várias vezes. Muitos congressistas democratas boicotaram a solenidade, incluindo o vicepresidente americano Joe Biden[4]. Apesar de Netanyahu ter recebido boas vindas bipartidárias, cerca de 50 democratas da Câmara e do Senado boicotaram seu discurso, incluindo os senadores Elizabeth Warren e Bernie Sanders. Os deputados Lloyd Doggett, do Texas, e Jan Schakowsky, de Illinois, criticaram os comentários do israelense[6]. Lloyd Doggett declarou: “Eu acho que há realmente apenas uma coisa: ele é um rejeicionista. Não há nenhum acordo que esta administração possa conseguir com o Irã que seja bom o suficiente para ele[6]. Já o deputado Jan Schakowsky criticou o que chamou de intenções eleitoreiras de Netanyahu: “A Câmara dos Deputados é o foro de maior prestígio no mundo e usá-lo para fins políticos era algo do qual eu não queria fazer parte[6].

As críticas vieram até do exchefe de espionagem do Mossad, Meir Dagan, declarando que “a pessoa que causou o maior dano estratégico à Israel sobre a questão iraniana é o primeiro-ministro[2]. De acordo com Trita Parsi, Presidente do Conselho Nacional IranianoAmericano, Netanyahu sempre se opôs a diplomacia com o Irã. “Não porque ele temia que ela fracassaria, mas precisamente porque temia que ela poderia funcionar[7], escreveu Parsi ao Huffington Post. De tal forma que quando o presidente Obama assumiu o cargo em 2009 e iniciou sua aproximação à Teerã, Netanyahu lançou uma campanha para debilitá-lo. Para Trita Parsi, “ninguém na administração Obama acredita que Netanyahu esteja tentando avançar as chances de um acordo nuclear. Cada vez menos pessoas na mídia dos Estados Unidos acreditam que Netanyahu esteja fazendo qualquer coisa que não seja pressionar os Estados Unidos e o Irã em direção à guerra[7].

O Primeiro-Ministro Israelense viajou aos Estados Unidos à convite do Presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner. Mas a visita foi criticada pela Casa Branca, que, sem ter sido consultada sobre o discurso, reagiu afirmando que Netanyahu estava tentando arrebanhar oposição dentro dos Estados Unidos contra o Acordo Nuclear com o Irã[4]. A decisão de Netanyahu em ignorar Presidente dos EUA, Barack Obama, ao arranjar um discurso perante o Congresso norte-americano liderado pela oposição, foi vista pela Casa Branca como mal aconselhada e imprudente. A Casa Branca acusou Netanyahu, que enfrenta eleições legislativas em 17 de março, de “politizar a diplomacia dos EUA[2].

Obama também disse que Netanyahu não ofereceu nenhuma alternativa viável para que se pudesse alcançar um acordo em relação ao tema. “Como é que vamos impedir o Irã de obter uma arma nuclear? O caminho que nos propusemos, se bem sucedido, de longe, é a melhor maneira de fazer isso. Isso é demonstrável. E o primeiro-ministro Netanyahu não ofereceu qualquer tipo de alternativa viável que alcançasse o mesmo mecanismo verificável para impedir o Irã de obter uma arma nuclear[5].

Por seu lado, o presidente iraniano Hassan Rouhani, criticou fortemente o Governo israelense e suas políticas “agressivas e ocupantes[8] sobre a região e frisou que ele próprio desenvolveu um arsenal de armas nucleares.

O PortaVoz do Parlamento Iraniano, Ali Larijani, também condenou o discurso de Netanyahu como um “espetáculo repugnante” destinado a espalhar o medo e uma “desonra” para Israel. Gholamali Khoshroo, embaixador do Irã na ONU, acusou Netanyahu de ser responsável por uma “campanha de desinformação[8], destinada a enganar a opinião pública sobre os detalhes das negociações nucleares em curso. O discurso será observado com interesse no Irã, onde fissuras entre os dois aliados de longa data estão sendo cuidadosamente estudadas. “Estamos muito felizes que as pessoas estão começando a entender que os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos diferem dos de Netanyahu[9], disse o ex-diplomata iraniano Ali Khorram. “Se ele continuar assim, Netanyahu só vai perder mais credibilidade aos olhos dos americanos[9].

Já de acordo com organizações israelenses, Netanyahu está seguro de seu discurso e suas preocupações não seriam tão infundadas. Conforme a Bnai Brith no BrasilOs iranianos não aceitaram congelar seu programa nuclear por dez anos, como parte de um acordo com os EUA, além disso, a volatilidade da região, a história pregressa do país, o radicalismo de seus líderes religiosos e por vezes, políticos, não tornam o Irã um país confiável. A polêmica já produziu outras ações inéditas, como o apoio da Arábia Saudita ao primeiro-ministro de Israel[10]. A monarquia saudita alinha-se aos interesses israelenses contra o Irã como parte de seu projeto para ampliação de sua influência regional contra o crescente poder dos xiitas do Irã.

Netanyahu pode, de fato, obter ganhos políticos no âmbito doméstico com os acontecimentos desta semana, já que sua entrada no Congresso americano sob fortes aplausos e seu discurso ovacionado de pé tiveram forte impacto sobre seus adversários em Israel. A oposição doméstica deverá, neste sentido, debater outras questões como o custo de vida e outros assuntos sobre os quais sente deter alguma vantagem e certamente esperar que as imagens nos Estados Unidos sejam esquecidas até o dia das eleições[4].

Nas ruas de Teerã, os iranianos ainda mantêm a esperança de um acordo, apesar das decepções iniciais quando as negociações não conseguiram produzir uma convergência de posições em novembro passado. “Ninguém gosta de ver este país sancionado. A maioria dos iranianos quer ver este acordo assinado[2], afirmou o jornalista Ruhollah Faghihi à Al Jazeera. As sanções vêm sendo danosas ao Governo e população do Irã, cuja economia vem sofrendo fortes embargos sobre diversos tipos de produtos e alimentos.

O secretário de estado norteamericano John Kerry está em negociações com seu colega iraniano Mohammad Javad Zarif na cidade suíça de Montreux, desde 2 de março, como parte de uma tentativa de costurar um consenso sobre o Programa Nuclear do Irã até o final deste mês de março – quando se encerra o prazo para o eventual Acordo. As discussões, por enquanto, não têm sido bem-sucedidas. Zarif já teria rejeitado a demanda pública recente do presidente Obama de que o Irã congelasse todas as atividades nucleares sensíveis por 10 anos, chamando-a de “excessiva e ilógica[11][8]. O objetivo das conversações é estabelecer um tratado cujos detalhes só seriam conhecidos no final de junho. O G5+1 composto por Estados Unidos, França, Reino Unido, Alemanha, Rússia e China busca alcançar um acordo para frear o Programa Iraniano em troca de um alívio nas sanções econômicas impostas ao país. O Irã é acusado de possuir ambições para construção uma bomba atômica ─ algo que o seu Governo nega, declarando que apenas exerce o direito à energia nuclear com fins pacíficos e civis, como médicos e para geração de energia elétrica[4][12].

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Imagem O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu discursa no Congresso dos Estados Unidos na última terçafeira, 03 de Março de 2015” (Fonte Amos Ben Gershom / GPO):

http://fotospublicas.com/programa-nuclear-ira-ameaca-israel-diz-benjamin-netanyahu-no-congresso-dos-eua/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.democracynow.org/2015/3/2/headlines#326

[2] Ver:

http://www.aljazeera.com/indepth/features/2015/02/netanyahu-speech-blessing-iran-talks-150227134248117.html

[3] Ver:

http://fotospublicas.com/programa-nuclear-ira-ameaca-israel-diz-benjamin-netanyahu-no-congresso-dos-eua/

[4] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/03/150303_analise_discurso_netanyahu_lgb

[5] Ver:

http://www.democracynow.org/2015/3/4/headlines#341

Ver também:

http://www.worldaffairsjournal.org/content/obama-netanyahu-speech-contains-%E2%80%98nothing-new%E2%80%99

[6] Ver:

http://www.democracynow.org/2015/3/4/headlines#342

[7] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/trita-parsi/netanyahu-congress-iran-speech_b_6782600.html

[8] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/mar/04/israeli-papers-netanyahu-speech-shrugs-cynicism-us-congress

[9] Ver:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced82cczq.6nu/cdaa33a5

[10] Ver:

http://www.bnai-brith.org.br/o-polemico-discurso-de-netanyahu-no-congresso-dos-eua/

[11] Ver:

http://www.democracynow.org/2015/3/4/headlines#344

[12] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/rodada-de-conversacoes-nucleares-com-ira-termina-sem-acordo/

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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