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Younes Abouyaaqoub, autor do atentado que matou 15 pessoas em Barcelona e deixou mais de 100 feridos, era um jovem de 22 anos, de origem marroquina, criado na cidade de Ripoll, a poucos quilômetros de Barcelona, uma das cidades mais multiculturais do mundo.

Os vizinhos diziam que se tratava de um rapaz educado, que ajudava sempre sua mãe e outras pessoas idosas e que era um apaixonado pelo futebol. Era possível encontrar Younes e seus amigos jogando na quadra de esportes da cidade, dividindo time com outros imigrantes e espanhóis. Era um jovem com os outros, ou ao menos isso aparentava ser.

A transformação do Younes reflete uma nova cara do terrorismo, uma nova realidade que envenena jovens criados ou nascidos na Europa e que os transforma em soldados de uma causa radical e fundamentalista, longe de toda realidade com a qual conviveram.

Diferente daquela visão formada ao longo dos últimos anos, de fundamentalistas barbudos e de vestes tradicionais, os novos terroristas são como lobos vestidos de ovelhas. Ou talvez ovelhas cooptadas por um exército de lobos. É difícil definir de onde surge esse fundamentalismo que cresce no coração de alguns jovens, muitos deles sem grande intimidade com sua cultura ou religião, tendo apenas visões parciais.

Jovens Terroristas

No caso de Younes e seus amigos, tudo começou com a chegada do imã Abdelbaki Es Satty na Mesquita da cidade. O líder religioso era seguido de perto por autoridades da Bélgica – lugar onde possivelmente teve sua formação como fundamentalista – e aos poucos foi convencendo os jovens a seguirem por esse tenebroso caminho, criando uma célula terrorista.

A polícia da Bélgica já havia notificado suas suspeitas em relação Abdelbaki Es Satty, mas não houve uma investigação profunda por parte das autoridades espanholas. O seu desejo era se imolar em algum ponto importante da cidade, possivelmente no Templo Expiatório da Sagrada Família (mais conhecido como Catedral da Sagrada Família) e produzir o maior número de baixas possíveis. Segundo ele, todos os integrantes da célula eram soldados de Alá e deveriam lutar para recuperar o Al-Andalus* dos corruptores e invasores, convencendo os jovens a prepararem diversos explosivos que só não conseguiram seu objetivo graças a uma explosão acidental na base da célula terrorista.

Desde que aconteceu o atentado a sociedade espanhola se divide. Alguns buscam defender medidas mais severas e maiores restrições aos imigrantes, principalmente os de origem islâmica. Outros advogam por uma sociedade mais tolerante e capaz de integrar todos.

A realidade de Younes revela o desafio que a Europa deve enfrentar nos próximos anos.  O continente possui uma considerável colônia de origem muçulmana que já faz parte da realidade demográfica, mas cuja integração é ainda um processo complicado e em evolução, sendo um dos grupos mais ameaçados pela pobreza e pelo retrocesso social, ao mesmo tempo em que é o que oferece maior resistência de assimilação por parte da população local.

A Europa deve entender quais são as motivações e ferramentas usadas pelos terroristas na cooptação da juventude – sendo que alguns dos cooptados nesse segmento demográfico  nem mesmo são estrangeiros ou islâmicos – e desenvolver políticas e programas capazes de reverter o quadro, pois não se trata de uma guerra civilizatória, nem religiosa, por mais que ambos os lados extremados tentem declarar que seja dessa forma, mas sim uma questão intimamente ligada ao próprio progresso social e aos paradoxos da globalização.

Convergindo com o posicionamento de vários analistas, as migrações, o atrito intercultural, as pressões sociais não vão desaparecer apenas com lei ou proibição, tanto quanto o fundamentalismo religioso ou político não deixará de existir apenas por uma restrição territorial. São processos que devem ser estudados, analisados e combatidos em diferentes dimensões e direções, caso contrário haverá sempre aqueles que, como Younes, serão atraídos pelo veneno do fundamentalismo por fatores não identificados, ou não equacionados adequadamente.

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Nota:

* A Espanha foi durante 800 anos domínio muçulmano e o território era conhecido como Al-Andalus.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Younes Foto publicada pela Policia a todos os meios de comunicação” (Fonte):

https://scd.br.rfi.fr/sites/brasil.filesrfi/imagecache/rfi_16x9_1024_578/sites/images.rfi.fr/files/aef_image/younes.jpg

Imagem 2 Jovenes y terroristas” (Fonte):

https://bestmonkeyhosting.com/ghostproject/media/2017/08/la-policia-catalana-identifico-al-conductor-de-la-furgoneta-del-atentado-en-barcelona.jpg

Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

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