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Nova onda de protestos gera temor entre população Oromo na Etiópia

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A Etiópia é um dos poucos países no mundo sustentados por unidades federativas delimitadas segundo a etnia. No entanto, a linha divisória entre a estabilidade e a desordem se faz cada vez mais tênue, tendo em vista o crescente conflito entre alguns grupos étnicos e o Estado etíope.

Na quarta-feira da semana passada (11 de outubro de 2017), ao menos 6 pessoas foram mortas e 30 feridas após a ação policial contra manifestantes na cidade de Shashemene. O evento é mais um de uma série de episódios sucessivos de choques entre os Oromo e as forças policiais.

Cidade de Shashemene, onde houve intenso conflito entre manifestantes e a força policial

Observadores locais afirmam que os manifestantes atacados nesta cidade reivindicavam a libertação de líderes políticos e melhorias no âmbito da economia local. Além disso, o conteúdo dos protestos estava intimamente ligado com as seguidas extradições de membros Oromo da região de Somali. Ao longo deste ano, os embates entre estes dois grupos ao longo da fronteira que separa as duas regiões vêm crescendo expressivamente.

Analistas apontam que há um reduzido espaço para este grupo, bem como aos Amhara e Somali, opinarem e influenciarem a formulação de políticas públicas. A ação desenvolvimentista do Governo é desarmônica às reivindicações e aos posicionamentos destes indivíduos, os quais veem os seus modos de vida e de reprodução cultural e social ameaçados.

Um outro episódio de conflito entre o Exército e manifestantes ocorreu na cidade de Soddo, no sul do país. Localizada à margem da divisa com a região de Somali, habitantes deste município têm sido alvos constantes do conflito fronteiriço, no qual a força policial autônoma de Liyu – representativa dos Somali – tem atuado intensamente.

Com isso, moradores locais abordaram oito caminhões do Exército nacional por suspeitarem que estes levavam armas para o exército Liyu. Após a abordagem, as forças federais abriram fogo sobre a população, deixando 4 mortos e 18 feridos.

Do evento se pode sacar duas importantes inferências que retratam a atual conjuntura política e social da Etiópia e, especificamente, do povo Oromo. Primeira, há uma total desconfiança de que o Estado representa os interesses e a garantia de direitos. A crescente onda de manifestações demonstra uma evidente insatisfação com o teor das políticas públicas e com a ação policial em garantir os territórios dessa população.

A segunda inferência se faz intimamente conectada à primeira, uma vez que o uso de força desproporcional ilustra, conforme analistas e observadores dos direitos humanos vêm relatando, o constrangido espaço para reivindicações da sociedade civil. Isto se faz historicamente constatado, desde as retaliações aos blogueiros da Zona 9, dada a posição crítica destes aos projetos do Governo, até ao maratonista Feyisa Lilesa, pelo seu gesto combativo durante a maratona nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, no ano passado (2016).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1População Oromo tem reivindicado intensamente nos últimos anos por maiores direitos junto ao Estado” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:002_Oromo_Liberation_Front_rebels.JPG

Imagem 2 Cidade de Shashemene, onde houve intenso conflito entre manifestantes e a força policial” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Shashamane

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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