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[:pt]O Atentado de Nice e as Raízes da Barbárie Fundamentalista na Europa[:]

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Em 14 de julho de 2016, a cidade francesa de Nice protagonizou mais um ato de terror cometido pelo islamismo radical, vitimando mortalmente 84 civis e ferindo outros 202, incluindo várias crianças. O ataque foi levado a cabo pelo tunisino Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel, de 31 anos, um residente local, que avançou 2 Km contra os espectadores que assistiam às festividades do 14 de julho, Dia Nacional de França.

Dois dias depois, em 16 de julho, o Estado Islâmico, através da Amaq, a agência de notícias ligada aos radicais, reivindicou o atentado, tendo atribuído a operação a um de seus soldados, como uma resposta aos países que fazem parte da coalizão que, neste momento, luta contra o Estado Islâmico.

Mohamed Lahouaiej Bouhlel, pai de 3 filhos e em processo de divórcio, motivado por várias agressões contra a sua mulher, não correspondia ao perfil de um religioso muçulmano, pois, de acordo com informações, ele consumia bebidas alcóolicas, drogas, não respeitava o Ramadã e não era um frequentador assíduo da mesquita. O autor do atentado, abatido pela Polícia francesa, era um desempregado e estava envolvido em crimes, tais como roubos e violência. Embora o responsável pela ação possa ser considerado um desajustado social, isto não foi impedimento para que ele se tornasse mais do que um apoiante do Estado Islâmico, sendo considerado como soldado, isto é, um dos operacionais do grupo insurgente.

Ao assumir a responsabilidade pelo atentado, o Estado Islâmico não mencionou detalhes sobre Lahouaiej Bouhlel, nem sobre o conhecimento prévio da estratégia da ação preparada pelo radical tunisino. Porém, não é possível atribuir a tragédia que se abateu sobre Nice como sendo fruto de um ato impensado, ou estando motivada pelo capricho de um impulso. Lahouaiej Bouhlel esteve presente entre a multidão, durante horas, antes de atropelar as pessoas e a data estabelecida para executar o seu plano foi, provavelmente, escolhida a partir daquilo que o evento representa para a população francesa e, também, ocidental.

A queda da Bastilha, símbolo do absolutismo europeu sepultado com a Revolução Francesa, teve, como lema, “a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade”. Atualmente, aqueles valores imperam, no Ocidente, como fundamento da Democracia Representativa, sendo questionados por aqueles que não se sentem contemplados por esses ideais, sejam eles cidadãos nacionais ou imigrantes, em França.

O distanciamento de tais convicções, provocado pela falta de esperança de jovens europeus e estrangeiros radicados no continente, é um dos fatores internos que tem contribuído para a radicalização através da adoção da ideologia islâmica extremista. Mourad Benchellali foi um dos primeiros jovens franceses a se alinhar ao terrorismo, quando tinha apenas 19 anos. Atualmente, aos 34 anos, ele diz que, por ser muito jovem, se deixou seduzir por uma mensagem radical e pelo desejo de aventura, tendo viajado para um campo de treino da al-Qaeda, no Afeganistão. Arrependido, acabou sendo preso e, somente após 4 anos, conseguiu se reestabelecer em França. Benchellali explica que, “quando não há trabalho, quando não temos um lugar na sociedade, tornamo-nos mais vulneráveis”.

Os problemas sociais, na Europa atual, afetam os cidadãos estrangeiros mais severamente, se comparados aos nacionais. O Eurostat, em boletim publicado em dezembro de 2015, revela uma estatística que comprova o processo de exclusão dos cidadãos não europeus. Em 2014, 40,1% da população dos não nascidos na União Europeia (UE) foi avaliada em risco de pobreza ou de exclusão social, em comparação com 22,5% da população nativa. A mesma pesquisa verificou que, em 2013, entre a população jovem imigrante de 16 a 29 anos, o risco de pobreza e de exclusão social era de 43,8% enquanto que, para os jovens europeus, os atingidos eram 28,1%.

Os Estados-membros da UE que apresentam as maiores discrepâncias e vulnerabilidade social no interior da sociedade com relação aos estrangeiros são, à luz dos dados publicados pelo Eurostat, a Bélgica, a Áustria, a Grécia, a Eslovênia e a Finlândia. Os maiores perigos do aumento de jovens pobres e excluídos estão na Bélgica, considerado como o país europeu com maior quantidade per capita de jihadistas. Os dados estatísticos apontam para o fato de a vulnerabilidade econômica e social da juventude estrangeira ser de 52,9%, contra 16,8% dos belgas.

As desigualdades, em termos de condição de vida digna e a falta de expectativas de futuro, somadas à discriminação e aos preconceitos, impedem a integração e promovem o distanciamento da cultura do país de acolhimento. Deste modo, não há sentido de pertença do indivíduo com a terra que ele escolheu para construir o seu futuro. O fim do sonho reforça a revolta e a ausência de compromissos para com os valores, a cultura e a História do país, que passa a ser responsabilizado pelo fracasso individual, da comunidade ou do grupo social ao qual ele pertence.

A desigualdade social, vivida por milhões de pessoas no Ocidente, tem sido um dos pontos fortes para a arregimentação de combatentes estrangeiros para o Estado Islâmico. Valendo-se de propagandas veiculadas no Youtube e em outras redes sociais, os fundamentalistas prometem o “paraíso na pátria muçulmana”. A publicidade é minunciosamente preparada, aproveitando-se da desesperança, da “perda do lar ético[1] por parte da população e dos fracassos das políticas sociais em diferentes partes do globo que, por negligência ou ineficiência governamental, não são satisfatórias. Assim, eles conseguem atrair adeptos e dar sentido às suas vidas carentes de identidade, de valores, de causas e de meios de sobrevivência que os administradores públicos não foram capazes de suprir.

No Estado Islâmico, segundo o jornal Público, “os combatentes estrangeiros e as suas famílias têm direito a habitação gratuita, serviços médicos, educação religiosa e até a uma espécie de entrega de refeições ao domicílio, de acordo com os entrevistados. Recebem salários pagos com os impostos e taxas que sobrecarregam milhões de pessoas que eles controlam”.

A promoção de uma sociedade mais justa e mais igual no contexto do mundo globalizado é, hoje, primordial no combate ao vazio existencial que tem conduzido muitas pessoas em direção ao islamismo radical, que ignora o Outro e promove a vingança contra inocentes em nome de uma justiça própria, levada a cabo em nome de um Deus particularmente implacável.

A falta de partilha de valores, de ideais e de respeito em relação à diversidade étnico-cultural, social e religiosa tem sido, na atualidade, uma porta aberta em direção ao extremismo. O especialista e estudioso do islamismo, Jochen Müller, afirma que a religião não é o motivo primordial para a radicalização dos jovens, o que vai ao encontro do comportamento de Mohamed Lahouaiej Bouhlel que, recentemente, atentou contra a cidade de Nice. Para Müller, “eles apresentam problemas sociais ou escolares, estão desempregados ou não são aceitos. Eles estão atrás de uma comunidade, de uma orientação, de respostas claras. A religião é apenas um pretexto – a possibilidade de, em nome de algo, atacar de forma gratuita”.

À semelhança de Müller, o antropólogo Scott Atran explicitou junto ao Senado norte-americano que, “o que inspira a maior parte dos terroristas que matam no mundo de hoje, é muito menos o Corão ou a doutrina religiosa, e muito mais a identificação com uma causa fascinante e uma ação que promete glória, admiração e estima dos amigos, e através deles o respeito eterno e a certeza de permanecer na memória deles”. O antropólogo também argumenta que os problemas que afetam o dia-a-dia dos jovens os movem em direção ao radicalismo, na medida em que “sentem tédio, que trabalham em subempregos, subqualificados e decepcionados. (…). A jihad é um empregador que oferece igualdade de oportunidades… é apaixonante, gloriosa e está na moda”.

As diversas estratégias enfrentadas pelas autoridades francesas e de outros países ao redor da Terra, para travar o avanço do terrorismo têm falhado em muitos aspectos, não por falta de meios sofisticados para identificar os potenciais agressores mas, talvez, pelo fato de o cerne do problema ser de natureza interna e pelo fato de o poder público não ter dado a devida atenção a esta questão.

Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel não foi detectado pelos Serviços de Inteligência franceses e, no entanto, ele constituía uma ameaça iminente e solitária no meio da multidão. Deste modo, os meios tecnológicos de investigação avançada e as armas inteligentes não têm dado conta para frear o neoterrorismo. Ao contrário do terrorismo tradicional, ideologicamente laico, cujas ações se concentravam em “sequestros, ataques a líderes políticos, negociações de prisioneiros, utilização de carros-bomba[2], o neoterrorismo “destaca-se por estar fragmentado em vários grupos e fundamentado pela ideologia religiosa islâmica, não excluindo dos seus ataques a população civil, ao mesmo tempo que o próprio ser humano se transforma em bomba[3].

Os Governos ocidentais já gastaram milhões de Dólares em pesquisas e aprimoramento de arsenais visando salvaguardar os seus países e as suas populações, mas isto não tem sido suficiente. A humanidade assistiu, em 11 de setembro de 2001, nos EUA, a aviões transformados em mísseis e, recentemente, em França, a um caminhão transformado em arma de arremesso. Foram ações insurgentes bem sucedidas e impossíveis de serem descobertas com antecedência pelos melhores Serviços de Inteligência do planeta.

Alguns seres humanos, contrários a tudo aquilo que lhes foi dado viver, encontraram na fé islâmica radical a justificativa para se transformarem em artefatos explosivos e já puseram fim a muitas vidas humanas. Estes, geralmente, não são percebidos a tempo de serem neutralizados, pelo que conseguem passar incógnitos pela vigilância das Forças de Segurança que não dão conta de manter sob controle a totalidade do universo populacional.

Não há uma receita infalível para evitar a tragédia que aconteceu em Nice e que, constantemente, tem afetado o Iraque, a Síria, a Líbia, a Bélgica, o Iêmen, a Turquia, os EUA e tantos outros países. No entanto, talvez uma solução provável consista na análise das mazelas existentes no interior de cada país. Na verdade, são elas que têm consumido os pilares da sociedade e destruído os valores que, até algum tempo atrás, eram o sustentáculo da esperança e do futuro. A pergunta que se levanta, neste momento, é: quantos Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel existem, hoje, e quando entrarão eles em ação nas partes mais improváveis do mundo, particularmente, do Ocidente?

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ImagemUma boneca jaz, no Promenade des Anglais, Nice, ao lado do cadáver de uma criança, vítima do atentado perpetrado por Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel” (Fonte):

https://s1.lprs1.fr/images/2016/07/15/5969671_nice-enfant_1000x625.jpg

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Notas e Fontes Bibliográficas:

[1] MARCIANO VIDAL, Dicionário de Moral. Dicionário de Ética Teológica, Porto, Editorial Perpétuo Socorro, s. d. [1991], trad. do espanhol por A. Maia da Rocha e J. Sameiro, págs. 133-135.

[2] MARLI BARROS DIAS, Israel e Palestina – O Papel do Poder Político e da Ideologia na Construção da Paz, Curitiba, Juruá Editora, 2015, pág. 115.

[3] Ibidem.

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Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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