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Os países que formam o BRIC – Brasil, Índia, Rússia e China – realizarão amanhã, na cidade russa de Ecaterimburgo, a primeira Reunião de Cúpula formal. Esta reunião é a tentativa de transformar a sigla em algo concreto.

O BRIC deseja mais voz e peso no cenário global, opinando sobre as questões que afetam a todo o sistema internacional e normalmente não são consultados, ou são simplesmente ignorados, pois não são vistos como potências reguladoras da Ordem Mundial.

 

Esses quatro emergentes que compõem o grupo já não levam em consideração as reuniões do G-20 (grupo que reúne os países em desenvolvimento, do qual também são membros), pois as reivindicações feitas não são atendidas e não tem capacidade de serem implantadas. Um exemplo se dá quando os países que atualmente regulam o Sistema, os que compõem o G-8, aceitam as decisões do G-20. Aceitam a importância das decisões, mas acabam por ignorá-las, fazendo com que as suas reuniões não sejam profícuas.

Seguindo esta linha, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, às vésperas da reunião do BRIC, afirmou no Instituto de Estudos Políticos (SciencesPo), em Paris, que o Fórum Internacional que reúne apenas os sete países mais ricos, somado a Rússia, por sua importância política, estratégica, geopolítica, militar e econômica está morto: “o G-8 morreu, não tenho a menor dúvida, porque ele não representa mais nada”. (…) “Eu não sei como vai ser o enterro. Às vezes ocorre lentamente”, disse Celso Amorim.

É uma arrancada para definir um novo grupo para ter voz ativa na regulação da sociedade internacional. Não mais G-8, nem ainda G-20, pois além da perda de poder do G-8 e da ausência de capacidade deliberativa do G-20, apontadas pelo BRIC, percebe-se na atualidade a perda de confiança de outras instâncias internacionais, como a OMC (Organização Mundial do Comércio).

Nesta Organização tem ocorrido de as deliberações demorarem a ser tomadas devido ao processo de negociação que nela ocorre, tornando-a como uma instituição com pouca força para regular o comércio internacional. Isso tem gerado indiferença às suas decisões e criado um grupo de membros que esperam os resultados de ações vencidas, mas que não são efetivadas.

Na reunião de amanhã os membros do BRIC pretendem discutir a crise financeira, o aumento de sua representatividade no FMI (Fundo Monetário Internacional), bem como a reestruturação deste Órgão. Também vai discutir questões ambientais e montar uma agenda de diálogo permanente. De fato, querem ter mais voz nas discussões internacionais, principalmente no que se refere às questões econômicas.

Logo após tais declarações, veio a manifestação dos EUA. A Porta Voz do Tesouro, Natalie Wyet, afirmou que o BRIC é bem vindo, porém não deve apenas aumentar seu peso no sistema internacional. O Grupo também deve assumir responsabilidades, ou seja, no futuro não poderão continuar sendo apenas reativos, mas deve atuar para poder dar peso as suas pretensões.

O quadro que se vislumbra é interessante, pois realmente pode estar surgindo uma nova configuração no sistema internacional, mas não significa uma alteração nas relações de poder neste sistema. Não podemos ignorar que o PIB chinês é o terceiro do mundo e, pelo fato de ser maior que o dos outros três membros do BRIC, ele pode dar suporte as pretensões do grupo. Em termos de comércio exterior, por exemplo, as exportações da China totalizaram US$ 990 bilhões no ano passado, dos quais US$ 250 bilhões para os Estados Unidos e um pouco mais para a União Européia. O Brasil exportou US$ 16 bilhões no ano passado, mas suas exportações estiveram centradas nas commodities. Como a China tem mais peso nas exportações de manufaturas e a Índia em serviços, isso tem sido ótimo para o Brasil, pois a China é a sua principal importadora de commodities e Índia pode se tornar um campo fértil para o futuro. Como elas têm maior capacidade de reação, o Brasil passa a ter um colchão de amparo caso os parceiros tradicionais do velho mundo e os EUA percam força nas relações comerciais com o país. Sem contar a capacidade russa que tem se desenvolvido cada vez mais. É um quadro que se fecha e pode gerar um grupo forte e com voz ativa.

No entanto, o Brasil deve ter cuidado na atual conjuntura para não voltar a ficar dependente de apenas um país, até mesmo porque o Brasil é um parceiro secundário para os chineses. Pode correr o risco de substituir a produção nacional por produtos importados a preços baixos vendidos pelos chineses, que são conseguidos por meio de subsídios (e a OMC?!). Acrescente-se o fato de que o Brasil também é um país industrial e manufatureiro sendo por isso um concorrente da China.

Além de todas as questões mencionadas, também será debatida a ampliação do Conselho de Segurança da ONU com direito a assento permanente e veto. Nessa questão o Brasil vai de pés descalços, pisando em brasa. Dos quatro, a Rússia está no grupo dos ricos (G-8), embora sofra questionamentos da sociedade internacional sobre sua política interna e sobre o peso de sua economia. A Rússia e a China são membros do Conselho de Segurança da ONU (o Brasil não). Além disso, dos membros do BRIC, somente o Brasil não tem o poder dissuasivo das armas nucleares. Acrescente-se o fato de apenas nos últimos quatro anos o Brasil ter aportado significativamente no cenário internacional. Assim, deve ter cuidado ao escolher os parceiros, para não fazer concessões que prejudiquem as relações com outros países que neste momento talvez sejam mais importantes, caso contrário poderá ter um prejuízo difícil de mensurar.

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Daniela Alves - Analista CEIRI - MTB: 0069500SP

Mestre em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais, jornalista e Especialista em Cooperação Internacional. Atualmente é CEO do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) e Editora-Chefe do CEIRI NEWSPAPER. Vencedora de vários prêmios nacionais e internacionais da área dos Direitos Humanos. Já palestrou em várias cidades e órgãos de governo do Brasil e do Mundo sobre temas relacionados a profissionalização da área de Relações Internacionais, Paradiplomacia, Migrações, Tráfico de Seres Humanos e Tráfico de órgãos. Trabalhou na Coordenadoria de Convênios Internacionais da Secretaria Municipal do Trabalho de São Paulo e na Assessoria Técnica para Assuntos Internacionais da Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho do Governo do Estado de SP. Atuou como Diretora Executiva Adjunta e Presidente do Comitê de Coordenação Internacional da Brazil, Russia, India, China, Sounth Africa Chamber for Promotion an Economic Development (BRICS-PED).

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