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A coalizão de países liderada pela Arábia Saudita faz uma campanha militar contra os houthis no Iêmen desde março deste ano (2015). Problemas humanitários tornaram-se uma realidade na região. Água, eletricidade e comida estão cada vez mais escassas, sobretudo em virtude dos bloqueios à entrada de suprimentos para a população local. A cidade de Aden sofre especialmente com escassez aguda de gêneros alimentícios, remédios e combustível. Não obstante, as campanhas norte-americanas desde meados dos anos 2000 que promovem ataques através do uso de drones persistem, não sem frequentemente confundirem ataques a grupos jihadistas locais com investidas contra a população civil iemenita. Mais de 2,3 milhões de pessoas – quatro vezes o número de pessoas deslocadas que existia em inícios de 2015 – fugiram de suas casas em busca de segurança e de proteção.

De acordo com números do PAM, Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, no Iêmen, mais de 21,2 milhões de pessoas – acima de 82% da população – necessitam de ajuda humanitária, sendo que 14,4 milhões enfrentam escassez de comida, incluindo 7,4 milhões de crianças. Isso abarca mais de 6 milhões de pessoas com insegurança alimentar grave que não podem sobreviver sem ajuda externa. Números da ONU de outubro passado indicam que o conflito já matou 3.640 pessoas desde março deste ano, sendo metade delas civis, e feriu outras 4.862. De acordo com a UNICEF, oito meses de violência já deixaram ao menos 505 crianças mortas.

As Nações Unidas e diversos grupos de direitos humanos discutem a possibilidade de que crimes de guerra tenham sido cometidos pela Arábia Saudita durante sua campanha aérea. Desde março de 2015, os Estados Unidos forneceram inteligência e apoio logístico para a campanha saudita de restauração do antigo governo de Mansur Hadi.

O caso saudita é emblemático, pois parece demonstrar uma conivência ocidental ou, no mínimo, um descaso em relação aos ataques que são violações patentes do direito internacional. Violações estas perpetradas justamente por um dos países que mais financia e promove o islamismo de vertente radical. De modo que, direta ou indiretamente, isto sugere que o Ocidente deixa o campo aberto para o fomento daquela ideologia sob a qual o autoproclamado Estado Islâmico se sustenta.

A omissão ocidental sobre a guerra no Iêmen é vista ainda como mais cruel, na medida em que a violência prolongada em diversas frentes, aliada a combinação de supostas guerras por procuração entre Arábia Saudita e Irã no microcosmo iemenita e a uma forjada sectarização do conflito entre sunitas e xiitas somente abrem frontes para aqueles que prosperam em meio ao caos da guerra: grupos jihadistas, como a AlQaeda na Península Arábica e o Estado Islâmico, este último já tendo reivindicado ataques na região, como o  ocorrido no último dia 20 de novembro, matando 19 pessoas oficiais.

E a razão para tanto parece patente: o Governo saudita combate “rebeldes xiitas” no Iêmen, em clara referência a sua oposição ao vilipendiado eixo de resistência composto por Irã, Síria e Hezbollah no Líbano. Esta associação binária de narrativas parece estar na base da legitimação do ataque saudita ao Iêmen – ainda que isto signifique uma contradição fundamental aos esforços ocidentais para combater o Estado Islâmico.

A naturalização do discurso de oposição entre sunitas e xiitas no Oriente Médio torna-se uma profecia que se auto cumpre e, lamentavelmente, parece sugerir que o estado de coisas na região não deverá ser alterado, ao menos no curto prazo. Neste sentido, a guerra no Iêmen, sim, importa: pelas milhares de vítimas e deslocados internos; pelo campo livre que ela proporciona a grupos jihadistas radicais; e, fundamentalmente, pelo seu simbolismo: a conivência à naturalização saudita de um discurso sectário, que fomenta e patrocina visões radicais do islã.

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ImagemVisão panorâmica na capital do Iêmen, Sanaa, mostra salão de casamento destruído, como resultado do ataque aéreo pela coalizão liderada pela Arábia Saudita, em Julho de 2015” (FonteMohamed al-Sayaghi, Reuters):

http://www.abc.net.au/news/2015-07-13/saudi-led-air-raids-in-yemen-kill-21-two-days-into-truce/6616390

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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