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O caso do envenenamento do ex-espião russo

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Desde o início deste mês de março (2018), as relações diplomáticas entre a Federação Russa e o Reino Unido estão bastante abaladas. A principal causa disso é o envenenamento do ex-espião russo, Sergei Skripal, e de sua filha, Yulia Skripal, no território inglês, sendo a Rússia acusada pelo Governo Inglês.

Fórmula Química do agente nervoso A-234, um Novichok, responsável pelo envenenamento de Skripal e sua filha

De acordo com as investigações conduzidas pelos britânicos, ambos foram intoxicados por uma substância que pertence ao grupo de agentes nervosos chamado de Novitchok. A fórmula dessa toxina foi criada por cientistas soviéticos na década de 1970 e 1980, no contexto do conflito ideológico entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS). Somado a isso, Skripal foi culpado de traição à Rússia em 2004 por ter atuado como agente duplo para o Serviço Secreto Inglês. Entretanto, em 2010, ele foi liberado como parte de um programa de “Troca de Espiões”, passando a viver em Salisbury, no Reino Unido.

Observadores internacionais, contudo, destacam que esses fatores não são suficientes para provar as acusações feitas contra Rússia. Primeiro, aponta-se que não há provas que garantam que tal toxina tenha sido produzida na Federação Russa. Além disso, o Governo russo tem relembrado ao Reino Unido que seu estoque de armas químicas, inclusive dos agentes Novitchok, foi destruído ano passado (2017), sob a vigilância da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ). Portanto, o veneno pode ter sido criado na URSS e seu estoque herdado pela Federação Russa, mas, na atualidade, ele também pode ter sido reproduzido por qualquer outro cientista em outro país. Em vista disso, a Rússia requisitou uma amostra do agente para que ela avalie sua origem, entretanto, o Governo Britânico ainda não o entregou.

As investigações inglesas ainda estão caminhando, mas, como os analistas estão apontando, a primeira-ministra Theresa May tomou ações que comprometem as relações com a Federação Russa. Como vem sendo amplamente disseminado na mídia, foi comunicado o fim de acordos bilaterais e a expulsão de 23 diplomatas russos do Reino Unido, os quais retiraram-se do país no dia 20 de março. Somado a isso, nenhum representante oficial do Governo e nem a Família Real inglesa comparecerão à Copa do Mundo na Rússia, que ocorrerá em junho e julho deste ano (2018). Complementarmente, May também planeja uma ação conjunta com os principais aliados de seu país, como EUA, Alemanha e França, para que mais sanções econômicas sejam impostas à Federação Russa.

Em vista dessa retaliação inglesa, o Governo russo respondeu da mesma forma: foram expulsos 23 diplomatas britânicos da Rússia, o Consulado inglês em São Petersburgo foi fechado, assim como foram encerradas as atividades do British Council, responsável por promover a cultura e a educação britânica no país. Apesar de tudo isso, o Presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que está disposto a auxiliar nas investigações, entretanto, destacou que é preciso a cooperação dos ingleses.

Por conta desse cenário, muitos analistas questionam a Primeira-Ministra por ela ter agido imediatamente de forma combativa, considerando unicamente que a Rússia seja a culpada pelo envenenamento. Assim, há também os políticos britânicos que não concordam com essa visão de Theresa May.

Retrato oficial de Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista e da oposição na Câmara dos Comuns

George Galloway, um ex-membro do Parlamento, afirmou que “é pouco provável que a Rússia tenha realizado esse ataque às vésperas da eleição presidencial – que ocorreu no domingo, dia 18 de março (2018) – e da Copa do Mundo”. Outro que se posicionou contra é o líder do Partido Trabalhista e líder da oposição na Câmara dos Comuns*, Jeremy Corbyn, que considera que May está sendo precipitada em suas ações e reitera que é apenas uma questão de conversar com a Rússia e de entregá-la as amostras do veneno para análise.

Apesar da existência dessas visões contrárias, o Reino Unido conseguiu juntar apoio de seus aliados europeus e americanos. No dia 26 de março (2018), vários países da União Europeia, assim como EUA e Canadá, anunciaram a expulsão de 100 diplomatas russos. Só no território norte-americano foram expulsos 60 russos, sendo 48 deles diplomatas e 12 que trabalham para a Missão da Rússia nas Nações Unidas (ONU). Além disso, a Islândia declarou que nenhum representante oficial do seu Governo irá à Copa do Mundo. Em consequência dessas ações, o a Federação Russa está se preparando para mais retaliações.

A resposta dada pelo Reino Unido e seus aliados compromete ainda mais o cenário internacional. A Rússia acusa os ingleses de instigarem um sentimento anti-russo pelo Ocidente e nega todas as acusações realizadas. Dessa forma, muitos especialistas afirmam que atitudes do Governo Britânico podem ter sido precipitadas, tal qual inclusive algumas autoridades inglesas declararam. Caso não haja uma forma de contornar e apaziguar o ocorrido, isso poderá trazer inúmeras consequências para o cenário internacional, já que a Rússia é um país em ascensão e não deve ser esquecida a sua importância política e econômica para a União Europeia.

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Nota:

* A Câmara dos Comuns é a Câmara Baixa do Parlamento Britânico que, por analogia, pode ser equivalente à Câmara dos Deputados do Congresso Federal do Brasil.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Encontro oficial entre o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e a Primeira Ministra Britânica, Theresa May, em Hangzhou, na China, em 4 de setembro de 2016” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vladimir_Putin_and_Theresa_May_(2016-09-04)_03.jpg

Imagem 2 Fórmula Química do agente nervoso A234, um Novichok, responsável pelo envenenamento de Skripal e sua filha” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/A-234_(nerve_agent)#/media/File:A-234_Mirzayanov.png

Imagem 3 Retrato oficial de Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista e da oposição na Câmara dos Comuns” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Official_portrait_of_Jeremy_Corbyn_crop_2.jpg

Isabela Joia - Colaboradora Voluntária

Bacharela em Relações Internacionais e em Ciências Econômicas, ambas pelas Faculdades de Campinas (FACAMP). Participou da Newsletter do Centro de Estudos de Relações Internacionais (CERI) da FACAMP como redatora e corretora de artigos. Fez sua tese de conclusão de curso sobre as relações diplomáticas entre a Rússia e os Estados Unidos no pós Guerra Fria. Tem grande paixão pela escrita e por assuntos relacionados à Segurança Internacional e Diplomacia.

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