LOADING

Type to search

[:pt]O Caso VatiLeaks II ante a Justiça do Estado do Vaticano[:]

Share

[:pt]

O escândalo que envolveu documentos do Vaticano e arrastou o pontificado de Bento XVI para o seu fim prematuro surgiu na sequência das revelações feitas por Paolo Gabriele, o Mordomo pessoal do Papa bávaro. Na ocasião, tornaram-se públicos documentos secretos que envolviam corrupção, nepotismo e chantagem a membros da Igreja com conduta homossexual. Publicamente, aquele Papa alegou: “Minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino”.

O termo VatiLeaks[1] foi criado pelo responsável da Sala de Imprensa do Vaticano, Padre Federico Lombardi, SJ*, em 2012, numa alusão direta ao WikiLeaks, uma organização sem fins lucrativos, com sede na Suécia, fundada em 2006 que, em seus sítios web, divulga, a partir de fontes anônimas, documentos, fotos e informações secretas e reservadas, de governos e empresas.

Em 2 de novembro de 2015, Monsenhor Lucio Ángel Vallejo Balda, um sacerdote e jurista espanhol especialista em assuntos econômicos, que servia como Secretário da Pontifícia Comissão referente ao estudo e guia sobre a organização da Estrutura Econômico-Administrativa da Santa Sé (COSEA)[2] –, foi preso pela Polícia do Vaticano; juntamente com Vallejo Balda foi detido Nicola Maio, Secretário Executivo daquela Comissão e Assistente de Monsenhor Lucio Vallejo Balda e, ainda, Francesca Immacolata Chaouqui, uma leiga italiana especialista em redes sociais e de comunicação.

Sobre eles impendiam acusações graves, relacionadas com o roubo e divulgação de documentos confidenciais relativos à reforma econômica da Santa Sé. Três dias mais tarde, em 5 de novembro, dois livros então publicados deram conta do enfrentamento que, sotto voce, decorre no Vaticano, no âmbito da luta pelo poder: Via Crucis, da autoria do jornalista Gianluigi Nuzzi[3], e Avarizia, do também jornalista Emiliano Fittipaldi[4]. O escândalo, entretanto gerado[5], conhecido como “VatiLeaks II, ou VatiLeaks 2015”, gerou profundas repercussões internacionais.

A Sala de Imprensa do Vaticano, dias antes da publicação das obras de Nuzzi e Fittipaldi, sublinhou que “é necessário dizer claramente que, também nesta ocasião, como no passado, [aqueles livros] são fruto de uma traição grave à confiança do Papa e, no que se refere aos autores, uma operação para tirar proveito de um ato gravemente ilícito de entrega ilegal de documentação reservada”. Por outro lado, como a Sala de Imprensa referiu, a publicação de, tanto Via Crucis, quanto Avarizia, configuram “uma operação cujas implicações jurídicas, e possivelmente penais, que estão a ser objeto de estudo pelo Gabinete do Promotor, tendo em vista eventuais procedimentos adicionais, nos quais se recorrerá, se for necessário, à cooperação internacional”. De referir, ainda que, para o Vaticano, “as publicações deste tipo não contribuem de nenhuma maneira para a clareza e a verdade, mas, mais propriamente, a gerar confusão e interpretações parciais e tendenciosas. É preciso evitar absolutamente o erro de pensar que [elas] sejam uma maneira de sustentar a missão do Papa”.

Processados pelo Vaticano, em 21 de novembro de 2015, Monsenhor Lucio Ángel Vallejo Balda, Francesca Immacolata Chaouqui, Gianluigi Nuzzi, Emiliano Fittipaldi e Nicola Maio foram levados a julgamento. No passado dia 7 de julho, Giuseppe Dalla Torre, o Presidente do Tribunal do Estado da Cidade do Vaticano, leu a sentença, que refere a “existência, radicada e garantida pelo direito divino, da liberdade de manifestação do pensamento e da liberdade de imprensa no ordenamento jurídico do Vaticano”.

Enquanto Monsenhor Lucio Angel Vallejo Balda “foi condenado a 18 meses de prisão, por furto e divulgação de documentos reservados da Santa Sé”, permanecendo em semiliberdade na medida em que “não pode sair do Vaticano, mas pode comunicar. Isto, à espera de entender se será ou não apresentado um apelo”, Francesca Immacolata Chaouqui, “que tem um bebé de três semanas, foi condenada a 10 meses de pena suspensa”. No entanto, os jornalistas e Emiliano Fittipaldi e Gianluigi Nuzzi foram absolvidos, tal como Nicola Maio, “pelo fato delituoso não subsistir”.

Em relação aos dois jornalistas, o Tribunal considerou não ter jurisdição sobre ambos, na medida em que não trabalham no Vaticano. Reagindo à decisão do Tribunal, Emiliano Fittipaldi mostrou estar “completamente surpreendido” com a decisão judicial, enquanto Gianluigi Nuzzi declarou que “este foi um julgamento que nunca deveria ter acontecido. Esta sentença reconhece a independência dos jornalistas ao dizerem a verdade. A opinião pública estava do nosso lado, as pessoas compreenderam o valor destes livros”.

A conclusão do processo judicial relativo ao caso VatiLeaks II pôs um ponto final nos aspectos legais relacionados com a divulgação ilegal de informações confidenciais e, mesmo até, secretas. Contudo, as notícias divulgadas em finais de 2015, que deram origem ao VatiLeaks II, continuam sem terem sido negadas. Acrescem a esta variável escândalos de não pouca importância, de entre os quais são de referir as críticas, veladas e abertas, de membros da hierarquia católica ao Papa Francisco, o descontrole das finanças do Vaticano, o financiamento da reforma do apartamento do Cardeal Dom Tarcisio Bertone, no Vaticano, e, mais recentemente, as alegações de acobertamento de pedofilia pelo Cardeal Dom George Pell.

A estes estrangulamentos morais, o Vaticano tem respondido com um silêncio, se não letal, pelo menos comprometedor. Se vai longe a época em que a Igreja Católica defendia que, “se a Escritura Divina mente numa coisa, é suspeita em todas[6], o clima de suspeita que, hoje em dia, domina a sensibilidade preponderante é prejudicial para o catolicismo que, em seus comportamentos concretos, não consegue afastar a desconfiança que se abateu sobre ele, de modo desintegrador e, mesmo até, apocalíptico.

———————————————————————————————–                    

* O SJ refere-se à Companha de Jesus (do Latim, Societas Iesu, resultando em S.J., SJ, ou SI). Ou seja, significa membro da Companhia de Jesus.

———————————————————————————————–                    

ImagemBasílica de São Pedro, Cidade do Estado do Vaticano, vista desta a Via San Pietro, Roma” (Fonte):

http://www.rometourstravel.com/wp-content/uploads/2014/10/rome-in-a-day-vatican-and-colosseum.jpg

———————————————————————————————–                    

Notas e Fontes Consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

Cf. Paul Kreiner, “Seiner Heiligkeit Untreuer Kammerdiener”, Der Tagesspiegel, Berlim, 30.05.2012. Disponível online:

http://www.tagesspiegel.de/weltspiegel/vatileaks-seiner-heiligkeit-untreuer-kammerdiener/6686532.html

[2] A COSEA foi criada pelo Papa Francisco, por intermédio de um quirógrafo com data de 18 de julho de 2013. Ela tinha, como objetivo, estudar a reforma do Instituto das Obras Religiosas (IOR) sendo constituída, em sua quase totalidade, por leigos.

Os integrantes da COSEA, indicados no documento papal, eram: Dr. Joseph F.X. Zahra (Malta), Presidente; Monsenhor Lucio Angel Vallejo Balda (Secretário da Prefeitura dos Assuntos Econômicos), Secretário; Jean-Baptiste de Franssu (França); Dr. Enrique Llano (Espanha); Dr. Jochen Messemer (Alemanha); Francesca Immacolata Chaouqui (Itália); Jean Videlain-Sevestre (França); George Yeo (Singapura).

PAPA FRANCISCO, Chirografo del Sommo Pontefice Francesco per L’Istituzione di uma Pontificia Commissione Referente di Studio e di Indirizzo sull’Organizazione dela Strutura Economico-administrativa dela Santa Sede, Cidade do Estado do Vaticano, 18.07.2013:

http://w2.vatican.va/content/francesco/it/letters/2013/documents/papa-francesco_20130718_chirografo-commissione-economica.html

Vide, também, Andrea Gagliarducci, “La COSEA: Che Cosa Era, Quale è Stato il Suo Lavoro”, Acistampa, Lima, 02.11.2015:

http://www.acistampa.com/story/la-cosea-che-cosa-era-quale-e-stato-il-suo-lavoro-1889

[3] Ver:

Gianluigi Nuzzi, Via Crucis, Milão, Casa Editrice ChiareLettere, 2015, 321 págs.

[4] Ver:

Emiliano Fittipaldi, Avarizia, Milão, Feltrinelli Editore, 2015, 224 págs. [Tradução brasileira: EMILIANO FITTIPALDI, Avareza, São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2016, trad. do italiano por Luis Reyes Gil, 221 págs.].

[5] Além de Lucio Ángel Vallejo Balda e Francesca Immacolata Chaouqui – libertada um dia e meio após ter sido detida, por, segundo suas próprias declarações, não estar diretamente vinculada ao vazamento dos documentos secretos –, a Justiça do Vaticano também inquiriu Gianluigi Nuzzi e Emiliano Fittipaldi pouco tempo após a publicação de seus livros, e, também, Nicola Maio, integrante da COSEA.

Vide, a este respeito, Redação, “‘Brotherhood of Crime’ to Stand Trial for Vatican Leaks”, The Straits Times, Singapura, 21.11.2015. Disponível online:

http://www.straitstimes.com/world/brotherhood-of-crime-to-stand-trial-for-vatican-leaks

[6] Ver:

FREI ÁLVARO PAIS (Estabelecimento do texto e tradução do latim por Miguel Pinto de Meneses), Colírio da Fé Contra as Heresias, Lisboa, Instituto de Alta Cultura – Centro de Estudos de Psicologia e História da Filosofia – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1956, Vol. II, pág. 43.

[:]

J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

  • 1

1 Comments

  1. maria josé gil conde 11 de agosto de 2016

    Senhor doutor Barros Dias, irei adquirir mais elementos para leitura acerca deste "triste tema", que, na verdade, ensombra a religião católica, que neste momento, com as atitudes tão positivas, tomadas por Papa Francisco, no tempo, possa vir a ser restaurado. Assim, o espero e o Chefe da igreja católica, que tem arrastado multidões ao seu encontro, muito justamente, seja ajudado no seu acérrimo trabalho. Os meus cumprimentos, MJGC

    Responder

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!