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O conflito mapuche na Argentina após a morte de Rafael Nahuel

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No dia 25 de novembro, dez dias atrás, a morte de um jovem pertencente à comunidade mapuche na Argentina desencadeou uma onda de protestos e colocou novamente a questão dos povos originários e do conflito de terras em primeiro plano no país. Rafael Nahuel, de 22 anos, foi baleado após o desalojamento de um território ocupado pelos mapuches em Villa Mascatti, Departamento de Bariloche, Província de Rio Negro. O desalojamento foi realizado pelo Grupo Albatros da Prefectura Naval Argentina, força de segurança federal subordinada ao Ministério de Segurança e encontrou respaldo na posição do presidente Maurício Macri e da ministra Patrícia Bullrich.

Enquanto os críticos e lideranças indígenas locais apontam o excesso de violência na operação que levou à morte de Nahuel, as versões oficiais argumentam que os mapuches foram violentos e possuíam armas. De acordo com o Governo, a Prefectura Naval atirou em legítima defesa, pois os indígenas resistiam com armas de menor calibre. Já os mapuches afirmam que o grupo de resistência ao desalojamento estava desarmado.

Localização dos territórios Mapuche na Argentina, províncias de Mendoza, Neuquen, Chubut, Rio Negro e Santa Cruz

O episódio ocorreu menos de três meses depois do caso Santigo Maldonado, artesão que desapareceu após repressão aos mapuches na Província do Chubut, nas proximidades do Rio de mesmo nome. O corpo de Maldonado foi encontrado 78 dias depois e a perícia determinou que seu falecimento foi decorrente de afogamento.

A disputa não resolvida entre os indígenas, os proprietários privados de terra e o Estado, também se relaciona com a questão da extração do petróleo, já que as áreas em disputa na Patagônia sobrepõem-se a reservas de gás e petróleo, algumas das quais exploradas pela estatal YPF. Assim, nota-se a existência de interesses econômicos importantes envolvidos. Os proprietários apoiam os operativos de segurança realizados pelo Governo e pelas forças policiais argentinas.

Os grupos mapuches mais moderados, por sua vez, não necessariamente opõem-se à exploração de gás e petróleo, mas demandam receber royalts pela exploração de regiões que entendem historicamente pertencentes às comunidades. Outra demanda importante refere-se às questões ambientais, visto que há reclamos judiciais contra as petroleiras em razão de contaminação de terras historicamente habitadas pelos indígenas. A maior exceção a esse posicionamento refere-se ao grupo Resistência Ancestral Mapuche (RAM), cujas lideranças demandam ações mais assertivas para a permanência territorial, inclusive com o uso de violência, e exigem a expulsão das petroleiras. 

O governo Maurício Macri tem buscado categorizar o grupo como uma ameaça terrorista, tal como no Chile. Esse posicionamento, contudo, corre o risco de levar a um escalonamento do conflito. Nesse contexto, não havendo alterações de política por parte do Governo argentino, a tendência é que o confronto com os povos originários cresça nos próximos anos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Bandeira Mapuche” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Wenufoye_redonda.svg 

Imagem 2Localização dos territórios Mapuche na Argentina, províncias de Mendoza, Neuquen, Chubut, Rio Negro e Santa Cruz” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Territorios_mapuches_en_Argentina.png

Livia Milani - Colaboradora Voluntária

Mestre e doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais "San Tiago Dantas" (UNESP,UNICAMP, PUC-SP) e graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista - UNESP. Participa do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (GEDES/UNESP). Pesquisa principalmente nos seguintes temas: Segurança Regional, Política Externa, Integração Regional, Relações Brasil-Argentina, cooperação em Defesa na América do Sul, Relações Inter-americanas.

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