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Segundo o cientista político Bertrand Badie, “o essencial do debate […] não trata mais sobre a Síria, mas sobre a credibilidade da diplomacia ocidental[1]. Como explica, os políticos ocidentais, ao fazerem declarações fortes e definitivas sobre o conflito sírio (e aqui somos remetidos ao discurso da “linha vermelha” de Obama, de pouco mais de um anos atrás[2], mas também às recentes posturas britânica e francesa), tornaram-se prisioneiros de sua própria retórica. Nesse sentido, o grande inimigo é a incoerência.

Em oposição à determinação de Putin de fazer do caso sírio um palco para a imagem, defendida por ele, “de restauração da potência russa e do fim da humilhação pelo Ocidente[3][4], a questão também se torna palco de uma dicotomia marcada pela afirmação ou negação do poder americano em nível mundial e na qual a resposta a ser adotada pelo governo dos Estados Unidos assume papel fundamental[5].

Conforme o raciocínio do acadêmico Stephen M. Walt, de um lado apresenta-se o argumento de que a decisão de não atacar anunciará “um recuo progressivo dos Estados Unidos em relação às suas responsabilidades globais (quaisquer que sejam elas), o seu declínio como grande potência, e o início de uma nova era de anarquia global[6].

Em outro extremo, bombardear as forças de Assad traria consigo um discurso preocupado com os mais diversos riscos: obrigar o governo americano a continuar o combate com forças terrestres; trazer extremistas da al-Qaeda ao poder, se derrubado o regime Assad; reforçar uma primazia do uso da força em detrimento do recurso à diplomacia; intensificar o radicalismo islâmico e sobretudo sua postura em relação aos Estados Unidos[6].

Ao mesmo tempo, também o apoio interno à política de Obama encontra-se dicotomizado: para um grupo de americanos, o presidente é muito beligerante, dada a imprudência em empurrar o país a uma nova guerra no “Oriente Médio”; para outro grupo, ele é muito pacifista, posto que as limitações da resposta militar apresentada fazem dela um gesto vazio, que não leva adiante os interesses norte-americanos[7].

Diante deste cenário, a recente proposta russa de submeter as armas químicas sírias ao controle internacional[8]] alterou o cálculo político americano, colocando em espera os planos de um ataque militar[9], e reiterando, como destaca Walt[6], o estrito objetivo americano de reforçar a “linha vermelha” contra armas químicas, nos termos de Badie, se o objetivo é manter a coerência.

Do outro lado do Atlântico, a política britânica de alinhamento à americana[10] e as constantes procrastinações dos Estados Unidos – notadamente, a decisão, desnecessária, de submeter a questão à aprovação do Congresso americano[11] – apresenta sérios problemas às autoridades francesas, que acreditam estar isoladas mesmo na esfera ocidental[1].

Se, como afirma o historiador e arabista Jean-Pierre Filiu, o interesse de François Hollande em intervir na Síria está não apenas em punir um “crime que choca a consciência universal[12], i.e. o uso de armas químicas, mas também em “mostrar que há uma sociedade de nações e que ela não é apenas uma coalizão de interesses [12]; então, de fato, a política francesa está sozinha e é insustentável.

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ImagemDa esquerda para a direita, William Hague, Laurent Fabius e John Kerry, autoridades responsáveis pela diplomacia britânica, francesa e americana, respectivamente” (Fonte):

http://www.lejdd.fr/International/Moyen-Orient/Actualite/Syrie-vers-une-intervention-courte-et-brutale-625934

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.elwatan.com/international/le-bilan-des-interventions-est-extremement-negatif-03-09-2013-226722_112.php

[2] Ver:

http://www.politifact.com/truth-o-meter/article/2013/sep/05/context-president-obama-syria-red-line/

Ver também:

http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2012/08/20/remarks-president-white-house-press-corps

[3] Ver:

http://www.telerama.fr/idees/brasier-syrien-revolution-egyptienne-la-situation-au-moyen-orient-vue-par-le-politologue-gilles-kepel,101764.php

[4] George Friedman se refere a essa postura como o “blefe russo” de ser uma potência mundial, em oposição à sua realidade de potência regional. Ver em:

http://www.stratfor.com/weekly/syria-america-and-putins-bluff

[5] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-us-canada-23997249

[6] Ver:

http://walt.foreignpolicy.com/posts/2013/09/09/syria_matters_less_than_everyone_thinks

[7] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/09/05/how_the_loneliest_job_in_the_world_got_even_lonelier

[8] Ver:

http://www.forbes.com/sites/rickungar/2013/09/09/putin-offers-surprise-plan-for-international-control-of-syrian-chemical-weapons-moves-to-steal-obamas-thunder/

[9] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-24026619

Ver também:

http://www.lepoint.fr/monde/syrie-obama-salue-une-proposition-russe-positive-10-09-2013-1722664_24.php

[10] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/uk-24012244

[11] Ver:

http://www.lemonde.fr/idees/article/2013/09/02/syrie-la-desinvolture-previsible-de-barack-obama-par-zaki-laidi_3470107_3232.html

[12] Ver:

http://www.lexpress.fr/actualite/monde/proche-orient/syrie-on-ne-peut-pas-esperer-la-moindre-concession-d-assad-il-doit-donc-etre-stoppe_1278516.html

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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