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[:pt]O contraponto russo no cenário internacional[:en]The Russian counterpoint in the international scenario[:]

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Com frequência, os posicionamentos da política externa russa são entendidos no cenário internacional como concorrentes dos principais interesses das potências ocidentais, principalmente dos Estados Unidos. Antagonismo este que cresceu ao longo do século XX e tem como uma das suas fundamentações o histórico de disputas travadas entre o antigo Bloco Socialista, liderado pela então União da Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e o Bloco Capitalista, comandado pelos Estados Unidos da América, no contexto da Guerra Fria.

Nos anos 1990, esse antagonismo foi amenizado pela queda da URSS e consequente dissolução do Bloco Socialista, seguido pelo fortalecimento do processo capitalista como principal regente da ordem internacional contemporânea.

Desde então a Rússia, herdeira política da URSS, vem buscando uma fórmula para gerenciar esse passado e, simultaneamente, projetar-se no cenário internacional como um dos polos de poder na ordem internacional. Esforço que nos últimos 20 anos enfrentou intensos desafios internos e externos.

O longo processo interno ao qual a Rússia submeteu-se para entrar na lógica da economia de mercado certamente drenou bastante energia de toda a nação. Paralelamente, as reiteradas expansões da União Europeia (UE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) sobre sua antiga área de influência, além da ascensão política e econômica da China, reduziram ainda mais a margem de manobra da política externa russa na busca do reforço do seu papel na arena internacional.

A despeito desses desafios, tradicionalmente a Rússia pauta sua presença internacional pelos anseios de autonomia, segurança regional e poder de influência nos assuntos globais, como pode ser notado no documento Concepção da Política Externa da Federação Russa, sancionado em 2008, pelo seu então presidente Dmitry Medvedev.

Em 2014, com estes anseios no horizonte e muito pressionada pela constante expansão da UE e da OTAN, os conflitos políticos relacionados com a Ucrânia foram transformados em estandarte da defesa dos interesses russos sobre a ordem mundial. A partir desta ocasião, a Rússia vem aparecendo mais frequentemente no noticiário ocidental como um contraponto firme às ações das principais potências ocidentais na política internacional.

Passados dois anos, desde o epicentro dos confrontos da Praça de Maidan, na Ucrânia, os indícios de que este momento pode ser interpretado como um ponto de viragem na postura da política externa russa começam a ganhar corpo.

Atualmente, duas são as frentes diplomáticas em que a Rússia e as potências ocidentais travam disputas mais acirradas. A elevada tensão na Ucrânia, por exemplo, irradia instabilidade e incertezas do Báltico ao Mediterrâneo, deixando a OTAN em um nível de alerta equivalente aos vistos nos anos 1990 durante as guerras entre as repúblicas oriundas da hoje extinta Iugoslávia. Os países da Escandinávia, por sua vez, também se remoem com preocupações e dúvidas sobre as pretensões e movimentações diplomáticas da Rússia acerca da região. Outro fronte latente de atrito tem como palco a Síria. Lá, os Estados Unidos e alguns aliados ocidentais têm ações para tentar reestabelecer um mínimo de segurança para a região e combater um dos principais centros de promoção do terrorismo na atualidade. Contudo, eles veem a saída de Bashar Al Assad da Presidência síria como elemento vital nesse processo, ao passo que a Rússia atua em linhas similares só que conta com a permanência de Al Assad, seu tradicional aliado, na liderança do país.

Nesses dois casos, a vertente militar já se encontra nos planos de ação das partes, ainda que em nenhum momento tenha havido confronto direto entre elas. No caso da Síria as forças armadas ocidentais e russas atuam intensamente no terreno, lutando cada uma ao lado de seus parceiros militares ou paramilitares locais. No caso da Ucrânia, o confronto armado fica, a princípio, mais caracterizado como uma guerra civil que opõe grupos militares da Ucrânia e insurgentes ucranianos pró-Moscou. Nesse caso, a participação de tropas russas ou ocidentais ocorre de maneira mais pontual e, muitas vezes, velada.

Orbitando esses dois polos nevrálgicos de conflito na política internacional, encontram-se ainda questões como: i. o embargo econômico da União Europeia e Estados Unidos à Rússia, e a consequente retaliação russa nos mesmos termos; ii. gradual e persistente aproximação entre Rússia e China; e iii. questões relacionadas a geração e distribuição de energia.

Por outro lado, o momento internacional parece oferecer uma vantagem para a posição russa no curto prazo, pois as principais potências ocidentais encontram-se com processo eleitoral em andamento, ou prestes a começar, sendo que as pautas internas como economia, segurança e imigração prometem se sobrepor às urgências da política internacional.

Enfim, observando os últimos dois anos pode-se dizer que a percepção do potencial de influência exercida pela Rússia em áreas sensíveis para o ocidente cresceu. Isso veio à tona, por exemplo, com a célere reaproximação entre a Rússia e a Turquia, que, recentemente, surpreendeu muitos analistas internacionais e deixou a União Europeia em alerta, ou na inédita liberação por parte do Irã para que a força aérea russa pudesse utilizar as suas bases nas operações de bombardeio contra o Estado Islâmico realizadas em território sírio.

Ao que tudo indica, o contraponto russo tem boas chances de continuar se fazendo notar no cenário internacional. Fato que pode gerar rearranjos específicos no equilíbrio de poder da ordem internacional no curto prazo, tornando mais desafiadora a busca de soluções para questões globais e possibilitando a aceleração da ascensão de polos de poder global e regional localizados na Ásia.

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Imagem (Fonte):

http://en.putin.kremlin.ru/

[:en]

The position Russia holds in its foreign affairs are often understood in the international scenario as divergent from the main interests of Western powers, mainly the United States. This antagonism grew throughout the twentieth century and has as its foundations the historical disputes between socialist bloc, led by the then Union of Soviet Socialist Republics (USSR), and the capitalist bloc, led by the United States, in the context of the Cold War.

In the 1990s, this antagonism was offset by the collapse of the USSR and the subsequent dissolution of the socialist bloc, followed by the strengthening of capitalism as principal conductor of the contemporary international order.

Since then Russia, political heir of the USSR, has been seeking a formula to manage its Soviet past and, simultaneously, to project itself on the international scenario as one of the power poles in the international order. Effort that, in the last 20 years, has faced intense internal and external challenges.

The comprehensive internal process, in which Russia engaged in to fit the rule of a liberal market, certainly drained plenty of energy from the whole nation. Concurrently, the successive expansion of the European Union (EU) and the North Atlantic Treaty Organization (NATO) over Russia’s former influence zone, besides the political and economic rise of China, has further reduced political leeway that Russia had to strengthen its international role.

Despite these challenging events, Russia always kept the basis of its international presence by yearnings of autonomy, regional security and power to influence global affairs, as highlighted in the document “The Foreign Policy Concept of the Russian Federation”, sanctioned in 2008 by its then President Dmitry Medvedev.

In 2014, guided by these desires and pushed by the constant expansion of EU and NATO, the political conflicts related with Ukraine were transformed into a symbol of the defense of Russian interests on the international order. Henceforth, Russia has been appearing more frequently in the West’s news coverage as a firm counterpoint against the Western powers’ actions in international politics.

Two years after the epicenter of the Maidan Square clashes, in Ukraine, the evidence shows that this moment can be seen as a turning point in the Russian foreign policy stance.

At the moment, there are two main diplomatic fronts on which Russia and the Western powers wage the fiercest disputes. The high strain in Ukraine, for instance, irradiates instability and uncertainty from the Baltic to the Mediterranean. The situation pushes NATO to alert levels unseen since the 1990’s, due to the clashes and riots in the countries that arose from the former Yugoslavia. In turn, Scandinavian countries also brood concerns and doubts about Russian’s claims and diplomatic movements in their own region. Another latent front of friction has been occurring in Syria. There, the United States and Western allies have implemented actions aiming to restore a minimum-security level in that area and fight against one of the main focuses of terrorism nowadays. However, they understood the need for the resignation of Bashar Al Assad from the Presidency of Syria as a vital element in this process, while Russia operates in similar terms but working for the permanence of Al Assad, its traditional ally, in the country’s leadership.

In both cases, the military component is already in the action plans of the parties, although direct confrontations between them have not been registered yet. In the case of Syria, Western and Russian armed forces act intensively on the ground, each one fighting alongside their own military partners or local paramilitaries. In the Ukraine, on the other hand, the armed clashes are, in principle, more characterized as a civil war between Ukrainian official military groups and Ukrainian insurgents pro-Moscow. The participation of Russian or Western troops occurs in a more discreet manner and are often veiled.

Orbiting these two nerve centers of conflict in international politics are still questions such as: i. the economic embargo imposed for European Union and United States to Russia and the consequent Russian retaliation in the same terms; ii. gradual and marked rapprochement between Russia and China; iii. issues related to energy generation and distribution.

On the other hand, the international situation seems to offer an advantage to the Russian position in the short term, as the main Western powers are already undergoing electoral process, or they are about to start next year, and, as usual, internal matters such as economy, security and immigration promise to overlap emergencies in international politics.

Finally, analysing the past two years it can be said that the perception with the potential of influence exerted by Russia grew in critical areas in the West. This came about, for example, by the rapid rapprochement between Russia and Turkey, which recently, astonished many international observers and left the European Union on alert, or by the unprecedented Iranian’s authorization to the Russian air force, to use their air bases in bombing operations against Islamic State’s held positions in Syrian territory.

It seems the Russian counterpoint has good chances to keep enhancing its presence in the international scene. In the short term, this situation may result in specific rearrangements in the international balance of power, which would make it more challenging to reach common solutions to global issues and, as a side effect, would enable a faster rise of global and regional power poles in Asia.

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Image (Source):

http://en.putin.kremlin.ru/

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Marcos Françozo - Colaborador Voluntário

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e mestre em Política Internacional e Comparada pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência acadêmica nas áreas de governança internacional, estudos europeus e regimes internacionais. Atualmente é Analista de Relações Internacional na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) com atuação nas áreas de articulação, desenvolvimento e cooperação internacional. Principais ramos de atuação: Relações Internacionais, Políticas Globais, Europa, Cooperação Técnica e Cooperação Científica.

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