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O Crescimento do número de crianças-soldado na Guerra Civil da Síria

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A utilização de crianças na Guerra Civil da Síria tornou-se rotineira. Há anos que a ONU vem denunciando países e grupos armados que usam menores de idade como soldados, mas aquela Organização ainda não conseguiu colocar um fim nesta situação, que atinge crianças em diferentes partes do planeta. De acordo com Kailash Satyarthi, Prêmio Nobel da Paz de 2014, há no mundo quase meio milhão de crianças-soldado. Contudo, este Exército mirim não tem despertado a devida atenção da comunidade internacional, ou tem sido ignorado a nível global. Esta prática, que viola a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Declaração Universal dos Direitos Humanos é, hoje em dia, flagrante na Síria.

Várias facções insurgentes como o Estado Islâmico, a Frente al-Nusra, o Partido Islâmico do Turquistão (TIP), ambos filiados na al-Qaeda, o grupo Jund al-Sham, a Frente Islâmica, Jaysh al-Islam e Ahrar al-Sham, estão formando um Exército de pequenos combatentes nos seus campos de treinamento para crianças, na Síria. O empenho na formação dos jovens soldados também está passando pelas mãos de religiosos como, por exemplo, o clérigo Abdullah al-Muhaysini, membro da al-Qaeda na Arábia Saudita, que tem vindo a preparar afincadamente mujahidin de tenra idade. A atividade não é mantida em segredo pelos radicais que exibem, por meio de fotos e vídeos, os seus pequenos jihadistas. Segundo o The Long War Journal, o TIP divulgou fotos e vídeos em que “as crianças são mostradas posando com rifles de assalto AK 47, frequentando aulas de sharia, e participando de treinamentos com armas”.

Acredita-se que as crianças são mais fáceis de serem doutrinadas e mais obedientes, servindo também como espias e mensageiras, principalmente em áreas não controladas pelos jihadistas. O fato de esses menores estarem fora da escola, a par dos problemas econômicos enfrentados por suas famílias, facilita o recrutamento dos mesmos por parte dos insurgentes. No entanto, os radicais vão mais longe, pois seu grande propósito não consiste apenas na formação de novos soldados para uma ação imediata visando, fundamentalmente, preparar uma nova geração de jihadistas. Isto, de acordo com informações, é o que a Frente al-Nusra está fazendo, ou seja, ela está a preparar os futuros combatentes para a al-Qaeda, atuação que não a difere dos outros grupos insurgentes. O Estado Islâmico treinou, em 2015, mais de 400 crianças, as quais são denominadas de “filhotes dos leões do Califado”. De acordo com o diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), Rami Abdel Rahman, o Estado Islâmico “tenta atrair essas crianças com dinheiro e armas” e, “quando atingem a idade de 15 anos, esses meninos têm a opção de virar verdadeiros combatentes que recebem salário”. Na Síria, há vários campos de treinamento para menores, inclusive para aqueles que são estrangeiros. Na província de Idilib, por exemplo, um campo de treinamento para as crianças uyghur proporciona-lhes preparação militar e religiosa.

A estratégia utilizada pelos vários grupos radicais islâmicos na Síria é semelhante. As crianças estão vulneráveis, desocupadas e as famílias sofrem com as péssimas condições econômicas. Se a Guerra trouxe os dissabores de vidas destruídas, os menores estão tentando construir, nos campos de batalha, um futuro que, talvez, elas e suas famílias acreditam ser a única alternativa. Mais do que o treinamento físico e militar, a mente dos pequenos soldados está sendo moldada por uma doutrina inflexível para dar continuidade ao grupo jihadista a que pertencem. Eles, na verdade, estão sendo preparados para serem os herdeiros de uma ideologia na qual não há espaço para a paz.

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ImagemVídeo do Estado Islâmico mostra criançassoldado caçando reféns” (Fonte):

http://img.thesun.co.uk/aidemitlum/archive/02589/isis2_2589918a.jpg

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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