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[:pt]O desafio diplomático dos Estados Unidos com a Turquia[:]

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A deflagração da Primavera Árabe no final de 2010 introduziu no Oriente Médio uma sucessão de eventos desestabilizadores na configuração geopolítica da área, nas políticas internas de diversos Estados e, por conseguinte, na ordem regional.

A Turquia, que é aspirante a membro do Bloco europeu, é integrante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO na sigla em inglês), e gozava de certa estabilidade, após a ascensão de Recep Tayyip Erdogan a Primeiro-Ministro, em 2003, é hoje epicentro de uma nova onda de instabilidade regional, pelo seu comportamento em relação ao conflito sírio, ora aliando seu posicionamento aos Estados Unidos e à Europa, ora flertando com a Rússia e China, que também cortejam Ancara para ingressar na Organização de Cooperação de Shanghai.

Este desafio das Relações Internacionais coloca mais uma vez os Estados Unidos como protagonista na definição da posição estratégica que deverá assumir a Turquia, legitimando as políticas ocidentais, ou, a alternativa será ela redirecionar sua política externa para fora do eixo da coalizão, aceitando as propostas vindas de Moscou e Beijing, que, principalmente no âmbito econômico, podem ser mais vantajosas à instável e heterogênea política do Bloco Europeu.

A conjuntura é desafiadora. Na última semana, por exemplo, as Forças Armadas turcas iniciaram operação por terra e ar na cidade síria de Jarablus, considerada por fontes de inteligência como último bastião do Estado Islâmico (EI) na fronteira turco-síria. De acordo com funcionários do alto escalão da chancelaria turca, que não quiseram ter seus nomes citados, isso foi feito com o objetivo de melhorar a segurança fronteiriça, mas há, também, entendimentos com a intenção de impedir uma nova onda migratória ao país e à Europa, além da intenção de melhorar a distribuição de ajuda aos refugiados.

Contudo, apesar da intenção humanitária, o hoje presidente Recep Tayyip Erdogan, interpreta de maneira política a campanha militar, ou seja, entende que o objetivo é impedir que a população local seja liberada por tropas curdas, conhecidas como Pershmergas, e, assim, criar um “corredor curdo” ao longo da fronteira entre Turquia e Síria, um passo singelo que preocupa Ancara, haja vista o secular desejo de criação de um estado-nação curdo para essa comunidade.

De acordo com o Presidente turco, a operação centrou-se no Estado Islâmico, mas também no braço armado do principal partido curdo na Síria, o Partido de União Democrática, (PYD), filiado ao tradicional Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Assim, utilizando de forças do moderado Exército Livre Sírio (FSA, na sigla em inglês), ele anseia por criar uma zona de exclusão e segurança, evitando que as tropas curdas, as Unidades de Proteção Popular (YPG), controlem a região.

Esse movimento deixou explícito que Edorgan não permitirá que unidades curdas avancem a oeste do rio Eufrates em sua investida contra o EI. Todavia, fontes de inteligência ocidentais e forças especiais estadunidenses auxiliaram e auxiliam a coalizão curdo-árabe, lideradas pela YPG, a cruzar o rio e a confrontar os extremistas islâmicos, postura que causa efeitos diretos na relação bilateral dos Estados Unidos com a Turquia, que já não está tão colaborativa como em outros tempos.

Nesse sentido, a visita do vice-presidente estadunidense Joe Biden a Ancara, na última quarta-feira, exatamente o dia da incursão turca na Síria, tem como pano de fundo reavaliar a relação, aliviar as tensões e projetar uma nova etapa na cooperação entre estadunidenses e turcos na luta contra o terrorismo, uma difícil tarefa devido ao crescente sentimento antiamericano, fruto da suposta participação na tentativa de golpe ocorrido na Turquia no dia 15 de julho.

Ainda sobre essa questão, Joe Biden fez desse esforço diplomático uma ferramenta para que a Turquia reconheça os benefícios da aliança com o Ocidente, mostrando que os esforços para uma possível estabilização passam pela necessidade de estancar a instabilidade interna, que convive com atentados diários nos principais centros do país.

Nas palavras do primeiro-ministro Yildirim, a necessidade de “ganhar mais amigos do que inimigos deve ser parte integrante desse novo movimento geoestratégico. Nesse sentido, já há recalibragem da política externa turca em relação à Israel, Síria e Rússia. No caso da Rússia, há a negociação de um oleoduto que passará por Baku-Tbilisi-Ceyhan, que produziria fôlego maior à combalida economia de Ancara. Assim, as relações amistosas devem ser preservadas. Ressalte-se que, para Washington, a intenção também é reequilibrar a ótica da relação bilateral, não restringindo o papel da Turquia apenas à luta contra o ISIS.

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Imagem (Fonte):

http://s2.reutersmedia.net/resources/r/?m=02&d=20160824&t=2&i=1150911022&w=780&fh=&fw=&ll=&pl=&sq=&r=LYNXNPEC7N1GB

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Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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