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[:pt]O desenvolvimento na África Subsaariana: uma epopeia em marcha, ou um sonho – TEODICEIA DO DESENVOLVIMENTO (ou PARTE II)[:]

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Talvez o desenvolvimento seja uma das poucas temáticas que congregue vertentes das mais distantes do pensamento social, uma vez que a crença na inexorabilidade do desenvolvimento adentra consonante em diferentes perspectivas teóricas, exibindo em todas elas a sua “naturalidade”. Tal crença no desenvolvimento vai desde Karl Marx, o qual argumentava que “o país industrialmente mais desenvolvido mostra ao menos desenvolvido tão-somente a imagem do próprio futuro”, passando por Walt Rostow, a quem o desenvolvimento ocorria como um processo natural semelhante ao desenvolvimento das plantas, podendo defini-lo em cinco estágios, chegando ao contemporâneo Amartya Sen, que faz questão de trazer no título de sua opus magnum (“Desenvolvimento como liberdade”) um advérbio de modo, defendendo que se desenvolver é um caminhar natural a todos, desde que protegidas e incentivadas as liberdades individuais.

São inúmeras as perspectivas sobre o desenvolvimento que dominaram os debates acadêmicos e as rodas de conversa dos organismos internacionais – Teoria da Modernização, Teoria da Dependência, a Nova Ordem Econômica Internacional, o Basic-Needs Approach, a Escola das Capacitações e entre outras. Cada uma com dois pontos em comum a serem levantados: a crença na profecia desenvolvimentista e a emergência de cada uma como resposta às insuficiências do paradigma anterior. Por exemplo: foi após um constante debate sobre a obscura noção de “necessidades básicas” e sobre a restrita definição de renda como a principal necessidade individual, que a Abordagem das Capacitações emergiu como perspectiva suplementar ao Basic Needs Approach.

Da mesma maneira, a “virada institucional” modificou por completo a maneira de ver e pensar o desenvolvimento, substituindo o foco excessivo que formuladores de políticas públicas davam a fatores como capital e tecnologia. Organizações internacionais bilaterais e multilaterais, como o Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), a Direktoratet for utviklingssamarbeid (NORAD) e o Banco Mundial, trabalham continuamente no desenho de projetos de desenvolvimento na África Subsaariana que apoiem um conjunto de medidas capazes de reordenar um conjunto de instituições locais nos moldes desejados por elas.

Enquanto que o constante reordenamento do discurso desenvolvimentista, de suas categorias e prerrogativas, pode ser lido por alguns como um processo natural – e quiçá dialético – de aprimoramento, outros sustentam na própria necessidade de reorganização do discurso a sua fragilidade imanente.  Uma vez posto em xeque por uma série de indicadores socioeconômicos, a emergência de novas perspectivas, de novas categorias e de novas recomendações de políticas públicas, faz ecoar o desafio posto a outros sistemas valorativos, inclusive o religioso: o de manter intocável a profecia perante as imperfeições do mundo mundano.

Leibniz e o Desenvolvimento. Wilhelm Leibniz foi um pensador que usou o conceito de Teodiceia (“Ensaio de Teodiceia”). Na sua abordagem, trata-se de um conjunto de argumentos que utilizam das imperfeições da humanidade para reiterar a crença em um deus perfeito e justo. Na verdade, na história do pensamento ocidental despontam conceitos com lógicas similares, desde o Ars Inveniendi de Ramon Llull, no século XIII, até as colaborações de Max Weber e Pierre Bourdieu ao conceito de teodiceia já no século XX. O cristianismo, enquanto sistema valorativo, utilizou ostensivamente das imperfeições como argumentação para reiterar a existência de um mundo extramundano: Deus e os valores cristãos não poderiam ser incongruentes com as condições reais da vida, suscitando assim, na visão da Igreja, uma leitura da vida mundana como vida povoada de tentações e pecados que põem à prova a aptidão do indivíduo para se alçar ao reino dos céus*.

O desenvolvimento não escapa à essa leitura, pois constitui-se também de um sistema valorativo, isto é, uma forma específica de ordenar e significar a realidade e também sujeita a uma própria “teodiceia do desenvolvimento”. Conforme afirma Gilbert Rist, cientista social francês e autor do “The History of Development”, “as promessas [do desenvolvimento] são incansavelmente repetidas e os experimentos são constantemente reproduzidos”. Isto porque “a Verdade não pode mentir, e se mente – ou falha – é por má interpretação, falha humana ou falta de informação”.

Neste sentido, desponta uma série de indicadores socioeconômicos na região Subsaariana que demonstram como os projetos desenvolvimentistas falharam. Indicadores que comprometem, em última instância, a sobrevivência do próprio discurso.

Um clássico indicador é o estado da pobreza na região, principal fator combatido pelos organismos internacionais, bilaterais e multilaterais. O Banco Mundial tem repetido uma série de vezes nos últimos anos que o número de pobres no mundo todo tem caído em todo o globo. No entanto, o dado só se faz verdadeiro se observarmos a porcentagem de pobres sobre a população mundial. Analistas argumentam que este indicador decresceu nos últimos anos devido ao acelerado crescimento da população mundial, o que reduz o valor final da proporção calculada, e não devido ao número de indivíduos que saíram da condição de extrema pobreza.

Na verdade, em termos absolutos, o número de pobres na África Subsaariana é superior em 50 milhões de pessoas se comparado ao número obtido em 1990. Jason Hickel, professor da London School of Economics, em artigo ao portal The Rules, demonstra que ao elevarmos o índice de pobreza extrema de 1,25 dólares por dia, convencionado pelo Banco Mundial, para 3,70 dólares por dia – fato que, segundo ele, melhor elucida as condições mínimas de subsistência na maioria dos países –, veremos que 500 milhões de pessoas a mais foram alçadas para a condição de extrema pobreza de 1981 a 2014 no mundo todo.

Tendo estes dados como plano de fundo, questiona-se se as releituras sobre os procedimentos para o desenvolvimento seriam uma teodiceia, reproduzindo uma crença falsa na elevação global dos níveis de consumo e padrão de vida como destino natural de todas as nações. Seguindo esta leitura, nos dois artigos finais que estão porvir serão trazidos indicadores e conjunturas que demonstram a relativa incongruência do discurso desenvolvimentista na África Subsaariana e como as constantes atualizações deste discurso podem, ao final, serem “teodiceias do desenvolvimento”.

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Notas e fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

* Max Weber conduziu uma clássica leitura sobre teodiceia no cristianismo em sua obra Economia e Sociedade. É principalmente nela em que apoiamos a leitura aqui feita sobre o tema.

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Imagem 1 Pobreza Urbana” (FonteCommons Wikimedia):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Urban_Poverty.jpg

Imagem 2 Funcionários da GIZ e do KfW, juntamente com parceiros locais, visitam um projeto numa escola em Gitega, Burundi” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Deutsche_Gesellschaft_für_Internationale_Zusammenarbeit

Imagem 3 Gottfried Wilhelm von Leibniz” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gottfried_Wilhelm_Leibniz

Imagem 4 A sede do Banco Mundial em Washington, D.C.” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Banco_Mundial#/media/File:World_Bank_building_at_Washington.jpg

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Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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