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O despertar do dragão na América Latina: parcerias e oportunidades

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Durante quase um século as relações de toda ordem da China com a “América Latina” estiveram estagnadas. A região vista pelo vizinho oriental era considerada uma zona de influência dos “Estados Unidos”, de difícil inserção, no qual este exercia notória hegemonia política e econômica*. Segundo Lafargue[1], a chegada do século XXI trouxe consigo a multiplicação dos investimentos chineses do Rio Grande à Terra do Fogo”, fazendo com que o país passasse a figurar entre os primeiros parceiros comerciais de países como Brasil e Argentina.

Ao contrário de Cuba, que já em 1960 mantinha relações diplomáticas com o país, os demais países latino-americanos mantiveram relativa distância durante esse período. A situação começou a mudar quando no ano de 2004 o então presidente da China, Hu Jintao (2003-2013), realizou uma viagem pela “América Latina” e visitou países como Brasil, Chile, Cuba e Argentina. A vitória de lideranças governistas mais progressistas na região, como a eleição de Néstor Kirchner (2003-2007), na Argentina, e Lula da Silva (2003-2010), no Brasil, contribuiu para a multilateralização das relações internacionais desses países e a consequente ampliação de suas parcerias no cenário externo, inclusive, com Pequim.

A China, por sua vez, passou de uma condição de país de baixo crescimento para um alto crescimento a cada ano, através da expansão de seu comércio exterior, aumento de sua produção em setores de baixa e média tecnologia e conquista da liderança na área de Investimento Direto Externo” (IDE), entre outros fatores. Para Oliveira, “o comércio reabriu a China para o mundo[2], tendo o país utilizado convenientemente suas exportações e importações. Como resultado, o comércio externo passou a representar cerca de 36% de seu “Produto Interno Bruto” (PIB), sendo as empresas estrangeiras responsáveis por 47% de sua importação e exportação.

Segundo a “Hakim & Myers[3], o ano de 2013 representou mais um dos momentos, dentro de um marco de 15 anos, de expansão da economia chinesa, marcada, sobretudo pela promoção de suas exportações, acesso aos recursos naturais necessários à sua produção doméstica e aceleração do desenvolvimento através de suas empresas multilaterais. Ao longo desse período o relacionamento desse gigante econômico com os países latino-americanos também cresceu, se tornando mais variado e complexo. 

No entanto, a parceria estratégica permaneceu centrada em alguns objetivos principais. Do ponto de vista latino-americano, a China ainda é muito importante devido seu grande mercado e por ser uma respeitável fonte de empréstimos e de investimentos. A China, por sua vez, vê a “América Latina” como um bom fornecedor de matérias primas ao seu rápido setor industrial em expansão, além de ser um manancial de comida e energia.

Entre os principais investimentos realizados no último ano estão os empréstimos à Venezuela em troca de pagamentos em petróleo. Da mesma forma, as empresas chinesas passaram a ser uma peça fundamental na exploração de gás de xisto da Argentina, além de terem se tornado algumas das maiores compradoras da soja produzida no país latino-americano.

Já a Colômbia e o Equador mantêm um relacionamento bastante diferente com o dragão asiático. O envolvimento da China com a Colômbia é algo novo, que somente tomou forma no último ano, através, principalmente, do aumento do número de empresas do vizinho asiático no país. Já o Equador possui uma relação mais profunda com a China, como consequência dos financiamentos desta para projetos de desenvolvimento, a exemplo da hidrelétrica de Coca Codo Sinclair”, localizada na Amazônia equatoriana.

O Peru mantém um relacionamento comercial promissor com a China, visto que este é o seu maior parceiro na área. Conforme Myers[4], o comércio bilateral entre esses países quase dobrou depois da assinatura de um “Tratado de Livre Comércio”, em 2010[5]. Entre os principais produtos exportados através do Pacífico para a China estão os primários como o cobre e outros metais preciosos, ao passo que Lima recebe grandes investimentos em setores chave como telecomunicações e tecnologia. 

As relações comerciais não são as únicas observadas. Após o terremoto que atingiu o Haiti, em 2012, a China foi uma das primeiras nações a responder à catástrofe mediante o envio de equipes de resgate, ajuda e suprimentos. O Governo chinês também anunciou uma doação de ajuda humanitária da mesma forma que o fez a “Sociedade da Cruz Vermelha Chinesa[6].

O Brasil, por sua vez, ocupa um espaço especial nesse quadro. Os dois países são membros do Briics (Brasil, Rússia, Índia, Indonésia, China e África do Sul”) e, em 2012, se tornaram parceiros estratégicos globais, frente à parceria estratégica previamente existente. Os laços econômicos são o coração desse relacionamento, mantido vivo por IDEs vindos da China e acordos de cooperação em áreas como agricultura e infraestrutura[7]

Por fim, cabe acrescentar que os países latino-americanos abraçaram a China como uma parte importante de sua diplomacia multidirecional[8]. Antes relegado ao status de principal parceria dos “Estados Unidos”, as nações latinas têm alcançado novos destinos como a Europa, Ásia, África e “Oriente Médio”. Essa diversificação de parcerias acabou por permitir que a China ascendesse como um indispensável parceiro comercial, financeiro e, até mesmo humanitário na região. Além disso, o dragão chinês é participante ativo na construção de rodovias, portos e pontes que tem auxiliado os países da região a se afirmarem a cada dia como verdadeiros atores globais.

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* Os Estados Unidos estão entre os principais investidores, compradores e fornecedores de bens à grande maioria dos países latino-americanos.

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Imagem Mercado chinês” (Fonte):

http://www.sxc.hu/photo/576100

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://perspectiveschinoises.revues.org/1071

[2] Ver:

http://www.funag.gov.br/biblioteca/dmdocuments/0432.pdf

[3] Ver:

http://thedialogue.org/page.cfm?pageID=32&pubID=3491

[4] Ver:

http://www.thedialogue.org/page.cfm?pageID=32&pubID=3264

[5] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/economia-internacional-celebrado-tratado-de-livre-comercio-tlc-entre-china-e-peru/

[6] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/2010-01/14/content_12805651.htm

[7] Ver:

http://english.caixin.com/2014-01-08/100626498.html

[8] Ver:

http://yaleglobal.yale.edu/content/china%E2%80%99s-new-foray-latin-america

 

Paula Gomes Moreira - Colaboradora Voluntária Sênior

Doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. Mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais, com ênfase em Ciência Política. É assistente de pesquisa do Observatório Político Sul-Americano (OPSA-IESP/UERJ) e Desenvolve atividade de pesquisa no Grupo de Estudos Interdisciplinar de Fronteiras (GEIFRON), da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

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