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[:pt]O Elogio da Velhice, pelo Papa, no Dia de Seu 80.º Aniversário[:]

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No passado dia 17 de dezembro o Papa Francisco celebrou seu 80.º aniversário. Associado às comemorações do líder da Igreja Católica, o Vaticano disponibilizou uma conta de e-mail e uma hashtag para felicitar Francisco[1]. O primeiro ato de seu dia festivo teve lugar durante o café da manhã, servido na Casa Santa Marta, no Vaticano, para o qual convidou um grupo de oito pessoas sem abrigo, que dormiam nas proximidades da Praça de São Pedro, para se juntar a ele. Durante a refeição matutina Francisco recebeu um telefonema de felicitações do Presidente dos EUA, Barack Obama. Em seguida, às 8 horas da manhã, o Sumo Pontífice presidiu a uma concelebração litúrgica, na Capela Paulina, no Vaticano, com os Cardeais residentes em Roma. Cumprindo a rotina de um dia normal, Francisco recebeu em audiência o Presidente da República de Malta, o Prefeito da Congregação para os Bispos, o Bispo de Chur, na Suíça, e a Comunidade de Nomadelfia, fundada por Frei  Zeno Saltini. Mais tarde, às 17 horas, o Papa se conectou, via Skype, à Prisão dos Palácios, em Veneza, a convite do Capelão, o Padre Marco Pozza[2].

Em pleno Advento, a partir de sua condição pessoal, Francisco se dirigiu aos 60 Cardeais, com idades aproximadas à sua, presentes na Capela Paulina para refletir acerca da dignidade da velhice e, também, do humor que é necessário para se enfrentarem as diferentes fases e situações vitais. Tendo recebido felicitações desde quarta-feira, dia 14 de dezembro, o Papa comentou: “Na minha terra, parabenizar antes da hora dá azar, e quem dá parabéns antecipado é pé-frio”. Por outro lado, na saudação proferida no final da missa, ele disse: “Vem-me à mente aquele poema… acho de Plínio: ‘Tacito pede lapsa vetustas’ [Ovídio]: chegará a velhice recurvada com passo silencioso. É assustador! Mas quando a consideramos como uma etapa da vida que serve para proporcionar alegria, sabedoria, esperança, começamos a viver”.

Para Francisco, a traditio é a base da revolutio. Com efeito, só sabendo quem fomos poderemos saber quem iremos ser. Esta máxima é válida para cada um de nós. Isto é válido para a família a que pertencemos, como o é para o país que nos viu nascer. Tradição, de tradere, equivale a “entrega”, é aquilo que se passa de um a outro, trans, um conceito que é irmão dos de transmissão e de transladação. Não pode ter esperança quem não tem recordações: é o caminho percorrido que nos dá forças para completar o que falta. Podemos, contudo, rejeitar a herança; podemos aceitá-la, criticando-a; podemos, ainda, aceitá-la sem qualquer tipo de crítica. Não defendemos, contudo, que os povos sejam tábuas rasas que, sem memória de nada, criem tudo a cada momento do seu existir. De acordo com Francisco, “é próprio do amor o facto de não esquecer; é próprio do amor ter sempre sob o olhar o muito, o muito bem que recebemos; é próprio do amor olhar para a história: de onde viemos, os nossos pais, os nossos antepassados, o caminho da fé…”. Assim, assinalou o Papa, “esta memória faz-nos bem, porque torna ainda mais intensa esta expetativa vigilante do Natal. Um dia calmo. A memória que remonta ao início da eleição do povo: ‘Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão’ (Mt 1, 1)”.

Tal como o Vigário de Cristo confidenciou aos presentes na missa do dia 17, “desde há alguns dias vem-me à mente uma palavra, que parece feia: a velhice. Assusta, pelo menos, assusta… Também ontem, para me oferecer um dom, monsenhor Cavalieri ofereceu-me o De Senectute de Cícero — uma gota a mais… Recordo o que vos disse a 15 de março [de 2013], no nosso primeiro encontro: ‘A velhice é a sede da sabedoria’. Esperemos que também para mim seja isto. Esperemos que seja assim!”. Após ter citado um verso de Hölderlin, “Es ist ruhig, das Alter, und fromm” – “a velhice é tranquila e religiosa”, Francisco pediu: “Rezai para que a minha seja assim: tranquila, religiosa e fecunda. E também jubilosa”.

Se o Papa Francisco, à semelhança de seus antecessores, tem defendido a vida em sua integralidade, o certo é que atualmente, altura em que se entende o ser humano a partir da dimensão hedonista, transferiram-se para o domínio público as dimensões fundamentais da existência humana: hoje, cada vez mais seres humanos nascem e morrem em hospitais. Paradoxalmente, nesta época em que se cultuam os aspectos lúdicos subjacentes a cada um de nós, se avaliam os seres humanos pelas capacidades aquisitivas que demonstram e não pelo valor ontológico que têm. Em contrapartida, o Sumo Pontífice, defendendo os valores de sempre, e não o relativismo neoliberal deste tempo, vê na velhice a fonte de sabedoria, tal como os gregos, os romanos e grande parte da História do Ocidente o fizeram. Francisco não descarta os idosos nem qualquer outra pessoa, qualquer que seja a faixa etária em que se encontram. Afinal de contas, tal como Cícero sublinhou[3] certeiramente, e Francisco corroborou, em nossos dias, a velhice é a idade da sabedoria.

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Imagem 1Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, enquanto Arcebispo e Cardeal de Buenos Aires (2008)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5a/Conf%C3%A9rence_18_juin_2008_par_le_cardinal_Bergoglio_-9.jpg

Imagem 2Domus Sanctae Marthae” / “Casa Santa Marta” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_de_Santa_Marta

Imagem 3Vista da Praça de São Pedro do topo da Cúpula de Michelangelo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vaticano

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

email: [email protected]

hashtag: #pontifex80

[2] Acerca da relação especial que mantém com aqueles que se encontram privados da liberdade, Francisco escreveu: “Tenho um afeto especial pelos que vivem na prisão, privados da liberdade. Sempre fui muito apegado a eles, por esta consciência do meu ser pecador. Cada vez que entro numa prisão para celebração ou para uma visita, sempre me vem este pensamento: por que eles e não eu? Devia estar aqui, merecia estar aqui. A sua queda poderia ser a minha, não me sinto melhor do que aqueles que tenho diante de mim. Assim me encontro a repetir e a rezar: por que eles e não eu? Isso pode escandalizar, mas consolo-me com Pedro que negou Jesus e apesar disso foi escolhido.”, FRANCISCO, O Nome de Deus é Misericórdia. Uma Conversa com Andrea Tornielli, São Paulo, Planeta do Brasil, 2016, trad. do italiano por Catarina Mourão, pág. 76.

[3] CÍCERO, A Velhice Saudável, in (Apresentação de Luiz Feracine), A Velhice Saudável. O Sonho de Cipião, São Paulo, Editora Escala, 2006, trad. do latim por Luiz Feracine, págs. 21-77.

A versão online de “De Senectute”, em latim, pode ser consultada em:

http://www.thelatinlibrary.com/cicero/senectute.shtml

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J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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