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O Futuro Incerto da Indústria de TI na Índia

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O setor de Tecnologia da Informação (TI) se consolidou na Índia desde os anos 1990, tornando-se uma das principais fontes de geração de renda e de presença no exterior. Empresas do país se colocaram entre as principais fornecedoras desses serviços, se internacionalizando, e, associado ao fenômeno da fuga de cérebros, centenas de milhares de indianos graduados migraram para o mundo desenvolvido para trabalhar. Nos últimos anos, porém, as empresas estão começando processos de demissão em massa. Fatores estruturais e conjunturais indicam que o futuro do setor de TI indiano é cada vez mais incerto.

Donald Trump, Presidente dos EUA

O fator conjuntural que nas últimas semanas repercutiu na mídia interna são as reformas nas políticas migratórias dos países desenvolvidos, que protegem os mercados e diminuem a possibilidade de migrações de trabalhadores da Índia. O foco principal é a Ordem Executiva de Donald Trump, do último dia 18 de abril, onde ele afirma que as diretrizes relacionadas à emissão de vistos H-1B serão remodeladas. Os vistos H-1B são destinados a trabalhadores estrangeiros temporários de alta qualificação com propostas de emprego de empresas situadas nos EUA, e 70% de suas emissões são para trabalhadores indianos. Outros países desenvolvidos procurados por esses profissionais seguiram essa mesma tendência, como a Austrália, que revogou o programa de vistos mais utilizado pelos indianos; o Reino Unido, que enrijeceu a política de salários para trabalhadores estrangeiros; e Singapura, onde as empresas agora são obrigadas a propagandear as suas ofertas de trabalho internamente antes de procurar trabalhadores estrangeiros.

Essas medidas não só diminuem a oferta de trabalho para os indianos fora de seu país –  o que coloca grande pressão no mercado de trabalho interno, visto que a Índia é um dos países mais populosos do mundo – mas também vai contra o modelo de negócio do setor de TI indiano. A promoção desse setor na Índia é um projeto estatal com suas raízes nos primeiros anos pós-independência do país, quando o Governo estimulou a educação, entre outros meios, a partir da criação de institutos de pesquisa voltados à engenharia e à tecnologia de ponta. Medidas de proteção à indústria de TI, como preferências cambiais e controles à entrada de empresas estrangeiras, foram, de acordo com economista Samira Schatzmann[1], fundamentais para o sucesso do setor a partir dos anos 1990.

Setor de TI na Índia

Após a consolidação de empresas de TI internamente, as corporações indianas como a Tata Consultancy Services e a Infosy se expandiram internacionalmente, construindo sedes pelo mundo desenvolvido, principalmente nos EUA, onde estão a maioria de seus clientes. Com a contratação de indianos nas suas sedes no território norte-americano, através dos vistos H-1B, as empresas indianas diminuem seus custos com salários e se tornam, assim, mais competitivas nos mercados internacionais. A possibilidade de impedimentos a esta estratégia, através das políticas de Trump, levou a respostas do Governo indiano e da Nasscom, lobby de empresas do setor de TI, com ambos atores indicando que irão iniciar diálogos nos próximos meses com o Governo estadunidense para tentar impedir limitações à emissão desses vistos.

Esse é apenas um problema conjuntural enfrentado pelas empresas indianas de TI, ainda que possa ter efeitos de longo prazo. Estruturalmente, as corporações e os trabalhadores indianos estão começando a apresentar dificuldades em migrar para as novas fronteiras tecnológicas, como  a digitalização, os serviços de nuvens, a Internet das Coisas e a robótica. Além disso, a quantidade de mão-de-obra necessária para realizar seus serviços está diminuindo, a partir de um maior processo de automação, o que gera impactos em toda economia da Índia. Nesse sentido, reiniciar o processo de catch up, isto é, reaproximar-se dos países desenvolvidos em termos de inovações tecnológicas, é um desafio que requer um plano de ação muito mais complexo do que este que o atual governo está atualmente propondo, o qual basicamente trata como inexistentes as dificuldades atuais dos setores de TI na Índia.

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[1] Samira Schatzmann. Inserção Internacional e Desenvolvimento Econômico em Países Emergentes: O Caso da Índia. Dissertação de mestrado. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/25815.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Sedes da Tata Consultancy Services em Ohio” (Fonte):

https://www.glassdoor.com/Photos/Tata-Consultancy-Services-Office-Photos-IMG463893.htm

Imagem 2Donald Trump” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_Pentagon_2017.jpg

Imagem 3Setor de TI na Índia(Fonte):

http://www.livemint.com/Opinion/1ySi8jbeybHPp4IBVtziZJ/Indias-IT-sector-needs-risk-preference-of-a-young-person.html

Livi Gerbase - Colaboradora Voluntária

Mestranda em Economia Política Internacional pela UFRJ e Bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS. Ex-pesquisadora do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais e do Centro Brasileiro de Estudos Africanos. Atualmente é estagiária do the South-South Exchange Programme for the Research on the History of Development (SEPHIS). Se interessa por assuntos relacionados aos países em desenvolvimento e recentemente tem focado no sistema financeiro internacional.

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