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O governo Donald Trump e a América Latina

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A posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2017, gerou maior complexidade e imprevisibilidade às relações interamericanas, desfazendo o cenário que se desenhava ao final do mandato de Barack Obama. Naquele momento, as relações hemisféricas caminhavam para a reaproximação, revertendo a tendência de afastamento e fricções que predominaram nos anos 2000.

As dificuldades que haviam sido experimentadas pelos EUA em suas relações com o continente decorriam de diversos fatores, como a ascensão de governos de tendências à esquerda e economicamente nacionalistas na América do Sul, a ampliação do comércio e dos investimentos chineses na região e a baixa prioridade estratégica atribuída pela potência norte-americana, que se voltava para o Oriente Médio e para a Ásia. As relações bilaterais com o México e a Colômbia mantinham-se como as principais exceções e como pontos de entrada dos EUA na região.

Trump e o presidente mexicano Enrique Peña Nieto

Esse contexto de desconfiança e tensões entre América Latina e EUA apresentou sinais de reversão a partir de meados da década de 2010. A política de reaproximação entre EUA e Cuba, iniciada pelo governo de Barack Obama, atendia às demandas latino-americanas e mostrava-se como fator de aproximação regional. Por outro lado, a América do Sul vivenciou o esgotamento do “giro à esquerda”, a partir da derrota do chavismo nas eleições legislativas venezuelanas em 2015, da eleição do presidente argentino Maurício Macri, também em 2015, e da queda do governo de Dilma Rousseff, em 2016, no Brasil.

Assim, a tendência no continente era de reaproximação e busca de cooperação hemisférica. Contudo, a retórica de Trump é vista como significativamente agressiva em relação a temas caros aos governos latino-americanos, minando a agenda positiva implementada por Obama. Sua ênfase nos interesses nacionais estadunidenses, representada pelo slogan America First, deixa subentendida a priorização do unilateralismo e a diminuição da ênfase na cooperação hemisférica.

Durante sua campanha e seu primeiro ano de governo, Trump apresentou um tom mais duro frente ao tema da imigração e às relações com México e com Cuba. O Presidente enfatizou a construção de um muro na fronteira com o México, afirmando que o país ao sul da fronteira iria pagar pela construção da barreira. Embora ele não tenha logrado que seu homólogo mexicano retrocedesse em sua explícita divergência sobre o financiamento,  os protótipos do muro estão sendo construídos, mostrando que o mandatário estadunidense pretende seguir com sua promessa de campanha. Trump também qualificou o Nafta, o tratado de livre comércio com México e Canadá, como “o pior acordo existente” e movimenta-se para promover sua renegociação.

Ele também apresentou uma retórica agressiva frente a Cuba e prometeu durante campanha rever a aproximação com a ilha. Em 16 de junho de 2017, durante discurso em Miami dirigido à comunidade de migrantes cubanos, o Presidente anunciou a imposição de restrições comerciais e de viagens ao país caribenho. Em setembro, uma situação peculiar agravou ainda mais o relacionamento bilateral. Diplomatas estadunidenses alocados em Havana foram afetados por desconfortos, perdas cognitivas e auditivas. Os EUA não conseguiram identificar a causa dos incidentes, porém passaram a suspeitar de um ataque sônico. Na ocasião, os diplomatas norte-americanos voltaram a seu país de origem e Trump expulsou diplomatas cubanos de Washington, para garantir a paridade no número de funcionários das embaixadas. Assim, houve um forte retrocesso no processo de aproximação bilateral.

Trump e o presidente argentino Maurício Macri

Outro tema de destaque refere-se à questão da Venezuela, marcada pela acentuação dos protestos e pelas dificuldades de diálogo entre o Governo venezuelano e oposição durante o ano de 2017. Diante do agravamento da repressão promovida pelo governo de Nicolás Maduro, Trump afirmou não descartar a opção militar para conter a instabilidade no país sul-americano. Em seguida, o vice-presidente Mike Pence realizou um tour, passando por Argentina, Colômbia, Chile e Panamá com o objetivo principal de discutir a questão venezuelana. Também impôs sanções à líderes políticos venezuelanos, congelando suas finanças que passam por Washington, e classificou o regime como uma ditadura. No campo econômico, foram impostas sanções financeiras, que buscam dificultar a venda de títulos pelo Governo venezuelano no mercado americano.

Assim, o foco principal da sua política para a América Latina foram temas específicos, que geram maior preocupação estratégica e repercussão doméstica nos EUA. Em tais temas, há uma retórica e uma postura considerada agressiva, na qual não são enfatizadas as possibilidades de cooperação ou as instituições hemisféricas. Por outro lado, a agenda das relações com a América do Sul manteve-se low profile (discreta) o que não significa a inexistência de movimentações importantes. Os presidentes peruano, colombiano e argentino encontraram-se com Donald Trump em Washington. No caso argentino, houve compromisso de que o Governo estadunidense abriria seu mercado de limões para o país platino.

No caso brasileiro, cabe ressaltar a inexistência de visitas presidenciais. Em um ano de poucas viagens internacionais, o presidente brasileiro Michel Temer viajou à Rússia, mas não foi recebido na Casa Branca. O Brasil também não foi incluído nas viagens realizadas por Pence à América Latina. Por outro lado, de forma mais discreta, houve indícios de aproximação bilateral, como representado pela realização do primeiro exercício militar multilateral com presença dos Estados Unidos na Amazônia, o denominado Amazonlog.

Tendo em vista esse contexto, e as diferenças políticas e ideológicas entre os governos do continente, pode-se esperar uma continuidade da agenda prioritariamente unilateral liderada por Trump em relação à América Latina, especialmente em relação a países marcados por crises, governos antiamericanos, ou que sejam origem de fluxos migratórios relevantes. Tal postura tende a ser percebida pelos latino-americanos com certa desconfiança e contribui para não reverter a situação de aumento da presença chinesa no continente, seja por meio de ampliação do comércio, dos investimentos diretos, de financiamento ou discreto apoio político, como ocorre o caso venezuelano.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Trump assinando ordens executivas” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_executive_actions_by_Donald_Trump#/media/File:U.S._President_Donald_Trump_signed_executive_orders_in_White_House_Orval_Office_on_January_23,_2017.jpg

Imagem 2Trump e o presidente mexicano Enrique Peña Nieto” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Foreign_policy_of_the_Donald_Trump_administration#/media/File:Enrique_Pe%C3%B1a_Nieto_meets_with_Donald_Trump,_G-20_Hamburg_summit,_July_2017_(1).jpg

Imagem 3Trump e o presidente argentino Maurício Macri” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Foreign_policy_of_the_Donald_Trump_administration

Livia Milani - Colaboradora Voluntária

Mestre e doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais "San Tiago Dantas" (UNESP,UNICAMP, PUC-SP) e graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista - UNESP. Participa do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (GEDES/UNESP). Pesquisa principalmente nos seguintes temas: Segurança Regional, Política Externa, Integração Regional, Relações Brasil-Argentina, cooperação em Defesa na América do Sul, Relações Inter-americanas.

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