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A localidade de Ise-Shima, no Japão, foi escolhida para hospedar a Cúpula do G7 deste ano (2016) e, como acontece anualmente, a rodada de debates e discussões multilaterais entre Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido, mais União Europeia, tem caráter histórico e hegemônico, à medida que o encontro visa reequilibrar os ditames da ordem internacional liberal constituída no início dos anos 90 do século passado, ao término da Guerra Fria.

Com inúmeros resultados alcançados ao longo de décadas, dentre os quais as reconstruções e investimentos no período pós-guerras, a derrocada do modelo soviético frente à modalidade capitalista e suas ingerências, as transições democráticas, por vezes forçosas, e as interpretações acerca de um milagre econômico, a Cúpula deste ano não pretende se vangloriar dos resultados alcançados em outros tempos, mas refletir sobre os rumos do sistema internacional e do modelo que entendem como o mais adequado para sustentabilidade da estrutura vigente, assim como do status quo.

À luz de um recorte que traz como ponto fundamental o questionamento sobre o exaurido modelo atual de ordem mundial, a reunião no Japão busca bases para a análise de dois pontos nevrálgicos que compõem, hoje, as principais ameaças ao equilíbrio de poder estruturado pelas nações deste bloco. São eles: a agenda de segurança internacional e a agenda econômica.

No que tange as deliberações da agenda de segurança internacional, o encontro acontece em um momento de crescentes tensões estratégicas, a começar pela Ásia, com as preocupações de Tóquio em relação à beligerância norte-coreana, que insiste nos testes de mísseis com ogivas nucleares e com capacidade intercontinental, passando pela tentativa da China de redesenhar o mapa geopolítico do Mar Meridional da China, com a imposição de uma política externa com alguns vieses isolacionistas, além da crise imigratória que atinge duas regiões no globo (Europa e Oriente Médio), bem como do terrorismo, que faz vítimas nos campos do Oriente Médio, África e Europa.

Ao elencar as principais tensões que assolam as condicionantes de equilíbrio, torna-se justificável que a Cimeira das principais nações desenvolvidas busque, no seu papel de atores preponderantes, mecanismos para aliviar a pressão e evitar um colapso anárquico, de populismo e de protecionismo que ameaçam os referidos ganhos históricos, com possibilidade de saturação e estagnação do atual sistema organizacional.

Em resposta à erosão da ordem liberal, o G7, na visão de alguns analistas, deve revitalizar a cooperação, cuja alternativa seria a busca por um mundo mais fragmentado, em que os poderes que moldam a política internacional possam ser compartilhados sem a necessidade de impor valores centrais, em especial pelo grupo de aliados. Contudo, líderes na China e Rússia se mostram pouco amistosos em compartilhar essa visão, pois, em suas políticas, mantêm retóricas militares de uso da força, fazendo com que os Estados Unidos continuem sendo, segundo alegam, por conta desse imperativo, o provedor da segurança na Ásia e Europa, com ajuda ativa e apoio de seus principais aliados.

O Japão, nessa que se apresenta como a nova corrida armamentista, está a emergir como parceiro militar de seus vizinhos, ao sul e sudeste do continente asiático, aumentando as salvaguardas de manutenção do equilíbrio regional estratégico, através do treinamento, venda de equipamentos e com exercícios navais conjuntos (como ocorreu, por exemplo, com a Índia recentemente), medidas que surgiram para fazer frente às ingerências dos chineses. Um modelo similar a esse deve ser seguido pelos aliados europeus, que, ao invés de esperar pela segurança terceirizada de Washington, entrarão mais ativamente na expansão da capacidade de proporcionar segurança e estabilidade em um contexto global.

A agenda econômica também foi muito explorada na Cimeira, principalmente por ser encarada como fundamento para a grande estratégia de manutenção da ordem liberal. Estados Unidos, Europa e Japão estão envoltos em importantes iniciativas comerciais que, se aprovadas, podem fornecer choques de crescimento para as economias dos respectivos países.

A Parceria Trans-Pacífico, a Parceria Transatlântico para Comércio e Investimento e o Acordo de Livre Comércio Japão-União Europeia são modelos que podem culminar em crescimento interno e engajamento internacional, com ressalvas que ainda estão em debate pelos envolvidos que receiam perder competitividade. Porém, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a projeção de expansão mundial foi estipulada em apenas 3,2%, ante uma estimativa de 3,4%, em janeiro. Ou seja, para a parcela de especialistas e políticos contrários ao aprofundamento dos blocos econômicos, a tímida recuperação econômica pode ser o motor principal para acelerar as discussões sobre essas potencialidades.

Ainda de acordo com o relatório do FMI de abril deste ano (2016), a projeção de crescimento para cada membro do G7 é tímida: 2,4% para Estados Unidos; 1,9% para o Reino Unido, que ainda passará pelo referendo conhecido por “Brexit”, acerca da manutenção ou não do país no bloco europeu; 1,5% para o Canadá e Alemanha; 1,1% para França; 1% para Itália; e apenas 0,5% para o Japão.

A reflexão toma contornos mais nebulosos quando se faz um estudo mais aprofundado sobre orçamentos. Os Estados Unidos e o Japão, por exemplo, são dois casos emblemáticos, pois as dívidas governamentais são demasiadas altas.

Nos Estados Unidos, de acordo com o Congressional Budget Office, estima-se que a dívida do Governo federal dobrou na última década, indo de 36% do PIB para 74%, com possibilidades para chegar a 86% com os novos programas de aumento de gastos; o Japão, por sua vez, tem um cenário de endividamento bruto pior, com mais de 200% do PIB, com possibilidade de crescer mais no médio prazo.

Em virtude da complexidade das duas agendas e das inúmeras conjunturas a modelar, o enfoque dado no curso das negociações multilaterais do G7 pretende contextualizar os rumos a serem tomados pelo dispendioso modelo capitalista vigente e mudanças radicais não devem ser desconsideradas.

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Imagem (Fonte):

https://pbs.twimg.com/media/CjXYX_KVEAE-4WW.jpg

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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