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O grupo islâmico ISIS e seus recentes avanços na Síria

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Essa semana, grupos rebeldes na Síria conseguiram, apesar de cercados por tropas do Governo, expulsar militantes do grupo islâmico sunita Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, na sigla em inglês)[1], ou apenas Estado Islâmico, como se autoproclamou há algumas semanas, provenientes de diversas partes do sul e leste de Damasco[2].

Ao mesmo tempo em que atua militarmente nesses territórios, o Estado Islâmico tem vendido petróleo por preços que variam de 12 a 18 dólares por barril à população síria vivendo sob seu domínio. Este óleo é obtido dos territórios sírios e iraquianos sobre os quais ele assumiu controle. Com um valor muito abaixo do padrão do mercado mundial, que ultrapassa 100 dólares por barril, a tática busca obter apoio popular[3].

O ISIS também tem vendido petróleo para homens de negócios iraquianos, através da fronteira entre Síria e Iraque, cuja maior parte permanece sobre seu controle[3], o que tem constituído uma importante fonte de financiamento para o grupo[4].

Apesar da recente expulsão de Damasco, o Estado Islâmico tem expandido seu domínio na Síria enquanto a atenção internacional tem se focado na desintegração do Iraque. O ataque de 2 de julho a vilas a oeste de Kobane, na província de Aleppo – retomando a tentativa, frustrada, em março desse ano de anexar a região a seu domínio – demonstrou uma melhoria significativa do poder de fogo do grupo: desde o ataque a cidade de Mosul, no Iraque, há cerca de um mês, o ISIS tem feito uso de armamento apreendido no Iraque em suas investidas na Síria[5].

Tendo sofrido derrotas na província de Deir ez-Zor, em fevereiro, e na província de Raqqa, em maio, o Estado Islâmico agora concentra suas ofensivas no norte e no leste do território sírio, apontou o especialista Hassan Hassan na semana passada[6], e o peso das investidas recai sobre os cerca de dois milhões de curdos neste país, bem como sobre a milícia que os defende, as Unidades de Proteção do Povo (YPG, na sigla em curdo)[5].

Os recentes sucessos militares do grupo podem ser explicados pelo fato de não apenas usar da força bruta, mas também por fazer negociações. Em algumas cidades, o Estado Islâmico negocia acordos em que combatentes locais concordam em se render, jurar lealdade a Abu Bakr al-Baghdadi, líder do grupo e autodeclarado califa do mundo muçulmano, implementar a lei sharia e, em troca, o ISIS concorda em poupar residentes locais de quaisquer males. Ainda, o grupo passou a conferir autonomia a certas cidades – tanto na Síria quanto no Iraque – no que concerne a assuntos cotidianos, ao passo que mantém seu comando político e militar[6].

Para a analista Lina Khatib, “o ISIS se tornou uma organização incrivelmente poderosa e perigosa quase que da noite para o dia devido a […] seu controle sobre recursos e finanças, seu tamanho, sua liderança disciplinada e estratégica, e sua boa vontade em negociar com atores relevantes[7], dentre outros fatores. Conforme assinala, embora dificilmente possa ser reconhecido verdadeiramente como um Estado, o grupo é, atualmente, “indisputavelmente a organização terrorista mais perigosa do mundo[7].

Como também apontou a especialista Kori Schake, o Estado Islâmico não cometeu o mesmo erro que a Al-Qaeda ao se focar noinimigo distante”. Pelo contrário, o grupo escolhe o inimigo próximo”, presente em governos do Oriente Médio. Mesmo levando adiante uma guerra em duas frentes, o grupo tira proveito da indecisão e falta de vontade ocidentais em intervir e ganha terreno na Síria e no Iraque[8].

Em um cenário em que o ISIS tem demonstrado um aprimoramento em suas ofensivas sobre áreas onde antes era derrotado, a inação por parte da comunidade internacional pode fazer com que a expulsão de militantes do grupo do sul de Damasco seja em pouco tempo revertida.

Como consequência, a consolidação, ou mesmo o crescimento do grupo na Síria representa não apenas uma séria ameaça a governos da região, notadamente da Jordânia[9], pois, na medida em que o grupo pretende construir um novo Califado e romper com fronteiras coloniais, o fortalecimento do ISIS traz consigo grandes consequências para todo o Sistema Internacional, bem como para o Ocidente, além das imediatas consequências regionais[10].

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* Isto é, uma nação para todos os muçulmanos.

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ImagemO ISIS conquistou grandes faixas de território na Síria e no Iraque, incluindo toda a parte rica em petróleo da província Síria de Deir ez-Zor” (Fonte):

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/07/21/NGO-Jihadists-sell-Syrian-oil-to-Iraqi-businessmen-.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/isis-declara-califado-islamico-partir-da-siria-e-iraque/

[2] Ver:

http://www.dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/Jul-22/264694-syria-rebels-press-bid-to-expel-isis-from-damascus-area.ashx

[3] Ver:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/07/21/NGO-Jihadists-sell-Syrian-oil-to-Iraqi-businessmen-.html

[4] Especialistas apontam também a Arábia Saudita como financiadora do grupo islâmico, “menos por parte do governo“[e mais] por parte de sauditas abastados”. Ver:

http://www.dw.de/who-finances-isis/a-17720149

[5] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28347456

[6] Ver:

http://carnegieendowment.org/sada/2014/07/14/islamic-state-in-syria-back-with-vengeance/hftq

[7] Ver:

http://carnegie-mec.org/2014/07/17/what-next-for-kurdistan-and-iraq/hfd5

[8] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/07/09/isis_is_winning_social_media_hashtag_diplomacy

[9] Ver:

http://shadow.foreignpolicy.com/posts/2014/07/02/no_time_to_study_options_for_jordan

[10] Ver:

http://carnegieeurope.eu/2014/07/10/do-not-belittle-islamic-state/hfj6

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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