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[:pt]O Impacte do Conflito Armado Sírio na Política Global[:]

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O conflito armado sírio está próximo de completar seis anos e, durante este período, ele se internacionalizou, tendo evoluído para uma situação que, hoje, não permite denominá-lo como Guerra Civil. Isto porque, de fato, não há uma Guerra Civil da Síria, mas sim uma guerra na Síria. O contexto se alterou na medida em que outros atores regionais e internacionais começaram a intervir naquilo que estava restrito ao território nacional. A criação do Estado Islâmico, em 29 de junho de 2014, que se aproveitou do vazio de poder, e a intervenção dos EUA em conjunto com o Reino Unido e a França, passaram a desenhar o futuro do conflito que, na atualidade, se apresenta diferente da fase inicial e com uma dimensão complexa. Conforme novos agentes locais e globais passaram a atuar, direta ou indiretamente, nos campos de batalha, a guerra adquiriu uma maior extensão e expôs antagonismos históricos e recentes que impactam a realidade atual, não apenas para o Oriente Médio, mas também a nível mundial.

A ascensão do Estado Islâmico, que tem protagonizado cenas de violência jamais vistas em nosso tempo, agravou o conflito na Síria, rompeu fronteiras e atingiu países politicamente fragmentados como o Iraque, o Iêmen e a Líbia. Assim, a dissolução do Estado permitiu que os insurgentes islâmicos se apossassem de territórios com valor estratégico e que as populações caíssem sob o seu controle enquanto as minorias passaram a ser perseguidas, tendo aumentado os enfrentamentos entre sunitas e xiitas, o que resultou na insegurança e no desequilíbrio regional.

A nível global aumentaram as ameaças terroristas e os atentados como aconteceu, por exemplo, em Paris e nos EUA, em 2015 e 2016, respectivamente, tornando o planeta menos seguro. A par da evolução da guerra na Síria, onde se encontram variados grupos paramilitares islâmicos, muitos dos quais fazem a guerra por procuração, reapareceram antigas forças no território para rivalizar com os EUA, que predominou durante anos na região. Em 2015, a Rússia ressurgiu para apoiar o regime de Bashar al-Assad, cujos “objetivos para a Síria ainda estão velados”, tendo-se tornado uma mediadora importante no Oriente Médio. Deste modo, no futuro, “movimentos políticos de todas as cores irão perguntar como é que a Rússia poderá servir os seus interesses”.

Os 4.810.216 refugiados sírios que se arriscam fugindo da guerra, em defesa da própria vida, enfrentam a rejeição em diferentes partes do mundo, enquanto que a extrema direita ganha espaço na política mundial se apresentando como a solução para a crise migratória e o terrorismo, em nome do retorno ao nacionalismo tosco e à repulsa em relação ao Outro. A questão dos refugiados chama a atenção para uma catástrofe humanitária, na medida que essas pessoas não são aceites e não há uma política migratória mundial satisfatória. Somente a União Europeia recebeu mais de um milhão de expatriados, sendo a maioria composta por sírios. Isto desestabilizou a política fronteiriça do Bloco que, ao criar o espaço Schengen[1], não previu a possibilidade de tamanha onda migratória em direção ao continente e, hoje, para tentar retomar a estabilidade, está construindo “barreiras ao longo da rota dos Balcãs, da Grécia à Alemanha” e enfrenta um desafio moral em virtude do grande número de mortos durante a travessia marítima. Se, por um lado, a Europa não consegue responder à demanda por refúgio sem fragilizar a sua política interna, nos países vizinhos da Síria o panorama não é diferente. Atualmente, a Turquia, o Líbano e a Jordânia já receberam mais de 4 milhões de pessoas, fazendo com que esta situação desestabilize as políticas domésticas, ao provocar tensões étnicas. Na Turquia, por exemplo, a relação com os curdos está se deteriorando dia após dia e já se fala do risco de uma Guerra Civil.

No desenrolar do conflito sírio é possível verificarmos situações de contestação que estão originando outras, sejam elas referentes a grupos internos minoritários ou entre países rivais. A disputa por áreas de influência e pelo poder tem sido uma constante. Neste contexto, o Irã assumiu a ponta no controle do corredor desde o Líbano até a Síria e mantém sob sua dependência os Governos iraquiano e sírio. Ao mesmo tempo, a República Islâmica procura frear a atuação dos EUA nos países do Golfo Pérsico e se confronta com a Arábia Saudita através dos conflitos da Síria, do Iraque e do Iêmen, nos quais o Islã xiita e sunita lutam para estabelecer o domínio no Oriente Médio.

O surgimento de novos cenários a partir da guerra na Síria tem originado uma série de problemas que formam uma rede que interfere na macro-política. Isto porque o território sírio se tornou um catalizador de interesses para as potências tradicionais que concorrem entre si pelo poder, refletindo esta conjuntura na política global, o que torna o mundo mais instável ante as incertezas do futuro.

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ImagemAjuda norteamericana às forças de oposição na Síria, maio de 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Syrian_Civil_War#/media/File:U.S._Airmen_with_the_386th_Expeditionary_Logistics_Readiness_Squadron_load_pallets_of_humanitarian_relief_supplies_onto_a_C-17_Globemaster_III_aircraft_at_an_undisclosed_location_in_Southwest_Asia_June_4,_2013_130604-F-KL201-115.jpg

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Nota:

[1] Espaço Schengen:Tratado de livre circulação de pessoas, que dá o direito de circular em 26 países da UE sem precisar passar por controle de passaporte […]. Funciona como ‘fronteiras internas’ de um único país, onde as viagens são consideradas domésticas”. Ver:

https://www.elondres.com/o-que-e-o-espaco-schengen/

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Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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