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O incremento da presença militar russa na Síria

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A Rússia é um aliado histórico da Síria, com ligações formais que remontam a 1971, ano em que foi assinado um Acordo entre a então URSS e o país do Oriente Médio. O pacto entre Moscou e Damasco já atravessou décadas e nunca se desfez, pois há questões estratégicas fundamentais que envolvem ambos os signatários. A permanência de Bashar alAssad no poder é indispensável para a manutenção de compromissos estabelecidos, no passado, entre os dois países. No entanto, a Guerra Civil Síria ameaça esta ligação estratégica e coloca em risco os interesses da Rússia no Oriente Médio. Neste contexto, segundo informações, a presença russa tem se ampliado em território sírio e evoluiu de apoio técnico-militar para a participação em operações militares ao lado das tropas daquele Governo árabe[1].

Nas últimas semanas, a imprensa mundial tem divulgado uma série de notícias acerca do envio, pela Rússia, de assessores militares para a Síria, especulando-se sobre as intenções russas de construir uma base aérea na província de Latakia, de onde pretende lançar ataques aéreos em apoio ao Governo sírio[2].

Em princípio, estas informações chegaram à Agência de Notícias Reuters, por meio de duas fontes libanesas que falaram sob a condição de anonimato, afirmando que, para além da construção da base aérea, “os russos já não são apenas conselheiros. Os russos decidiram se juntar à guerra contra o terrorismo[3].

As repercussões na comunidade internacional sobre a hipótese de um envolvimento direto da Rússia na Guerra Civil Síria está sendo encarada com preocupação por parte dos países ocidentais. Se, por um lado, os apoiantes de alAssad estão satisfeitos com os últimos acontecimentos na região, por outro, países como os EUA e Israel estão cautelosos.

As movimentações militares russas, na Síria, estão sob vigilância dos EUA. Autoridades norte-americanas, que não quiseram se identificar, confirmaram a possibilidade de uma escalada militar desencadeada por Moscou, embora o contingente russo seja pequeno[4]. Ainda segundo duas dessas autoridades, é certo que a Rússia enviou para a Síria dois navios de desembarque e dois aviões-tanque adicionais e que a presença russa se faz notar nas proximidades da cidade portuária de Latakia, que é o reduto do presidente alAssad[5], fato que confirma as informações fornecidas pelos libaneses.

Ante os últimos acontecimentos, o Secretário de Estado NorteAmericano, John Kerry, telefonou recentemente para o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, tendo demonstrado inquietação perante os fatos. Segundo Kerry, se os dados apurados estiverem corretos, isto levará a uma “maior escalada do conflito[6]. Em contrapartida, Moscou respondeu que nunca foi segredo o apoio técnico-militar à Síria.

O fornecimento de armamentos aos sírios, conforme afirmou Jadar Jadur, um especialista em assuntos relacionados com as Forças Armadas da Síria, existe desde os tempos da URSS. A comercialização de equipamentos militares para o país árabe, segundo a PortaVoz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zajarova, está “de acordo com contratos bilaterais baseados no Direito Internacional[7].

Apesar das controvérsias entre as partes envolvidas e de a Rússia não confirmar a intenção de uma escalada militar, começou a aparecer uma outra dimensão do conflito na Síria através de sinais que apontam para fora do Oriente Médio. Os EUA pretendem articular negociações com o objetivo de negar espaço aéreo à Rússia[8], algo que a Bulgária já o fez[9]. No entanto, para os grupos próHezbollah, uma participação russa mais efetiva na Guerra Civil dá fôlego à Síria e aos seus aliados, representando um novo cenário para a região, a partir de uma possível contenção das ações de Israel sobre o espaço aéreo sírio. Se se confirmar a construção da base aérea russa em território sírio, Israel terá que enfrentar o aumento das restrições, especialmente se as aeronaves estiverem equipadas com mísseis ar-ar. Segundo o jornal Haaretz, “a entrada da Rússia na arena síria muda as regras do jogo[10].

Independentemente das incertezas que imperam no momento, a construção de uma base aérea russa em Latakia é uma hipótese a ser considerada. Esta poderá ser a reafirmação estratégica da Rússia na região, que necessita do seu aliado alAssad no poder, não somente para garantir as parcerias comerciais, mas para manter as bases navais de Tartus e Latakia, consideradas essenciais.

Tartus, por exemplo, permite a presença russa no Mar Mediterrâneo sem precisar de enfrentar as adversidades do congelamento das águas e sem ter a necessidade de retornar ao Mar Negro para abastecer os seus navios. Neste momento, questões estratégicas, como as referentes a Tartus e Latakia, poderão determinar os próximos passos de Moscou e marcar uma nova fase no conflito interno sírio.

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Imagem Sukhoi SU30, da Força Aérea russa, meio ofensivo agora presente na Guerra Civil Síria” (Fonte):

https://worldavia.net/files/blogs/00_en/fligth_safety/ssj100_salak/su-30.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/09/10/us-mideast-crisis-syria-exclusive-idUSKCN0R91H720150910

[2] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/NewsReports/565862-pro-hezbollah-daily-russia-will-close-syrias-skies-to-israel

[3] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/09/09/us-mideast-crisis-syria-exclusive-idUSKCN0R91H720150909

[4] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/Russia-deploys-armed-forces-in-Syria-as-rumors-of-involvement-swirl-415739

[5] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/Russia-deploys-armed-forces-in-Syria-as-rumors-of-involvement-swirl-415739

[6] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2015/09/09/actualidad/1441796216_947099.html

[7] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2015/09/09/actualidad/1441796216_947099.html

[8] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/09/09/us-mideast-crisis-syria-exclusive-idUSKCN0R91H720150909

[9] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/Russia-deploys-armed-forces-in-Syria-as-rumors-of-involvement-swirl-415739

[10] Ver:

http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/.premium-1.674779

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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