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O medo da energia nuclear se estabeleceu na sociedade desde que ela foi apresentada à humanidade pelos holocaustos de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, sob a forma do que se poderia chamar de “o pior caso de marketing da História”. Ele segue seu caminho através da nossa cultura e nunca está longe nas discussões públicas sobre política nuclear. A sociedade tem muitos mecanismos de enfrentar esse medo, seja pelo humor negro do Dr. Strangelove ou de Homer Simpson, por um lado, seja pela hiper-racionalização e sistematização lógica do estrategista militar Herman Kahn, pelo outro. Historicamente, entretanto, o medo conviveu durante algumas décadas com uma esperança salvadora, isto é, o “átomo para paz”, como redentor da humanidade.

Esta segunda percepção, porém, passou a se degradar rapidamente a partir do início da década de 80, após o acidente sem vítimas nem dano ambiental da usina nuclear de Three Miles Island, nos EUA, em 1979. Ironicamente, este evento ocorreu 12 dias após Hollywood lançar o filme “Síndrome da China”, estrelado por Jane Fonda e Jack Lemmon. Até então, a indústria cinematográfica americana tinha explorado exaustivamente o medo das armas nucleares em inúmeros filmes nas décadas de 50, 60 e 70. “Síndrome da China” foi o primeiro filme a explorar o medo nuclear a partir de usinas de geração elétrica, ou seja, de uso pacífico, que se expandiam enormemente nos EUA nessa época.

Com respeito às armas nucleares, o medo é, em grande medida, necessário. Suas origens imediatas não são muito surpreendentes, pois as imagens de Hiroshima e Nagasaki são persistentes. Qualquer tecnologia que faz a sua estreia mundial pondo em chamas dezenas de milhares de civis é, certamente, temida com toda razão. O medo está presente em todas as avaliações sobre armas nucleares, sejam a favor, sejam contra. Aqueles que são contra querem acabar com a possibilidade de novos horrores e aqueles que são a favor transformam o medo em uma ferramenta para manter certa ordem global, desencorajando inimigos de fazerem coisas que eles próprios prefeririam não fazer.

Para as aplicações pacíficas, o medo é uma questão mais complexa. Essas foram inicialmente concebidas para constituírem o lado positivo da tecnologia nuclear, os “átomos para a paz”, em oposição aos “átomos para a guerra”, que eram muito mais proeminentes na década de 1950. O medo, neste caso, entrou pela porta dos fundos, através do potencial de ocorrência de acidentes em grandes reatores nucleares, levando à contaminação radioativa do público e do meio ambiente. Entretanto, apesar das enormes diferenças no uso e na tecnologia empregada, o medo do nuclear faz pouca distinção entre armas e usinas de geração nucleoelétrica. Aqueles que se opõem às usinas nucleares mobilizam e incentivam esse medo. Já aqueles que as defendem buscam dimensioná-lo racionalmente por meio de discussões técnicas sobre análise de riscos. Entretanto, por definição, o medo é um sentimento e, por isso mesmo, não subordinado diretamente aos ditames da razão.

Emerge a questão de entender se o medo que as tecnologias nucleares despertam nas pessoas do mundo de hoje é exagerado ou subestimado. Certamente, avaliações vindas de uma dúzia de especialistas provavelmente produzirão uma dúzia de respostas diferentes. A resposta emocional à tecnologia nuclear é controversa porque tem raízes profundas no imaginário social. Se tivermos medo demais, agimos irracionalmente, até de forma contraproducente. Se tivermos muito pouco medo, podemos nos expor a riscos inaceitáveis. Mas não se tem a dosagem equilibrada acerca da “quantidade de medo” que se deveria ter. Sendo assim, o fato de que os nossos medos do nuclear são simultaneamente muito grandes e muito pequenos constitui um dos muitos paradoxos da era nuclear?

51cu1wkl-_sx345_bo1204203200_Vários historiadores têm produzido obras sobre a evolução dos medos e esperanças humanas em relação a essa tecnologia. O mais abrangente, e ambicioso em métodos e objetivos, foi Spencer R. Weart, no seu livro “Medo Nuclear: Uma História de Imagens”, publicado em 1988, num tempo de percepção pública das questões nucleares aumentada pelo renascimento da Guerra Fria, durante o governo Reagan nos EUA, e o acidente de Chernobyl, na URSS, então liderada por Gorbachev. O autor revisitou a obra em 2012, com seu livro “A Ascenção do Medo Nuclear”, duas décadas depois e muito distante do contexto do final da Guerra Fria em que foi escrita a obra original.

Os livros de Weart cobrem a história das atitudes do público em relação a essa tecnologia, começando com a descoberta inicial da radiação e sua associação quase imediata, tanto com a fonte da vida, como com a causa da morte. Ele aborda historicamente muitos dos temas sobre as percepções da sociedade em face da evolução da energia nuclear que ainda permanecem presentes, mais de um século após a descoberta das radiações ionizantes.

Entretanto, o que torna os seus livros únicos e excepcionais é que ele não apenas se limita à abordagem histórica. Vai mais longe, adentrando os campos da psicologia e política para analisar o que, na sua visão, seria o “imaginário nuclear”. Essas imagens mentais tem uma grande influência na psique humana, pois combinam raios que curam e raios que matam, pragas e contaminações invisíveis que prejudicam não só os vivos, mas também os que virão a nascer, coisas que são narrativas comuns nas mitologias antigas. É também evidente que o espectro de uma guerra nuclear é facilmente associado às crenças em um fim do mundo apocalítico, presente em quase todas as religiões.

Weart argumenta que o imaginário nuclear é um recurso cultural usado seletivamente para avançar várias agendas. Nenhuma surpresa nisso, mas ele observa ainda que a imagem nuclear é poderosa o suficiente para sair do controle de quem está tentando usá-la. Quando o Governo americano quer que as pessoas tenham medo das armas nucleares russas, de modo que elas apoiem o desenvolvimento das suas próprias, este mesmo temor pode levar a uma rejeição de outras políticas, fazendo com que, por exemplo, as pessoas venham a não querer mais usinas nucleares localizadas perto delas (“not in my backyard”, ou NYMBY).

Todo alarmismo, seja nuclear, ambiental, político, econômico ou médico, fomenta o medo irracional. Este, por sua vez, é o meio mais eficaz de controle social, pois sociedades amedrontadas reagem como manadas. No entanto, lembremo-nos da célebre historia do rato que provoca o “estouro” da manada de elefantes. Em nome da redução de uma ameaça superestimada, e mil vezes repetida pelo alarmismo, as lideranças podem agir livremente em busca de outros objetivos, alheios à redução da própria ameaça apregoada.

O medo, em geral, é uma faca de dois gumes: Quando mobilizado, pode ser muito poderoso, mas uma multidão amedrontada rapidamente se torna incontrolável, ou transfere o controle para um líder que pode ser desequilibrado. O medo nuclear pode ser, portanto, especialmente problemático, pois tem condições de ser mobilizado para reduzir os inerentes riscos, mas também pode deformar a percepção desses riscos.

Há inúmeros exemplos de seres humanos, mesmo especialistas, que avaliam mal os riscos e qualquer abordagem que se baseia apenas na transparência. Isto é, simplesmente dizer às pessoas os fatos reais pode levar a mal-entendidos, desconfiança e revolta do público. Por outro lado, o instinto humano e a imaginação também podem levar a decisões erradas. Sendo assim, encontrar novas formas de levar ao público informações sobre as questões relevantes, sem dependência excessiva de imagens simbólicas, seja do apocalipse ou da salvação, deve ser um dos principais focos da indústria nuclear mundial.

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Imagem 1Réplica de Fat Man lançada em Nagasaki, Japão, em 9 de agosto de 1945” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_nuclear

Imagem 2Capa do Livro Nuclear Fear: A History of Images” (Fonte):

https://www.amazon.com/Nuclear-Fear-Spencer-R-Weart/dp/0674628365

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Fonte Consultada:                                                                                                                   

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobras Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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Leonam Guimarães - Colaborador Voluntário Sênior

É Diretor Presidente e Diretor Técnico da Eletrobrás Termonuclear S.A. - Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA. Membro do Board of Management da World Nuclear Association. Foi Professor Titular da Faculdade de Administração da FAAP, Professor Visitante da Escola Politécnica da USP, Diretor Técnico-Comercial da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa SA – AMAZUL, Assistente da Presidência da Eletronuclear e Coordenador do Programa de Propulsão Nuclear do Centro Tecnológico da Marinha. Especialista em Segurança Nuclear e Proteção Radiológica, é Doutor em Engenharia Naval e Oceânica pela USP, Mestre em Engenharia Nuclear pela Universidade de Paris XI e autor de vários livros e artigos sobre engenharia naval e nuclear, gestão e planejamento, política nuclear e não-proliferação.

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