LOADING

Type to search

Share

Conta à lenda que Europa era uma bela jovem que foi enganada por Zeus, que se havia transformado em um lindo touro branco ao qual a moça se aproximou e, vendo que era manso, se atreveu a montar, sendo então levada para o mar em direção a ilha de Creta, na região que hoje conhecemos como continente europeu. Curiosamente, esta é a mesma rota dos atuais refugiados sírios[1].

O mito transcendeu ao tempo e a Europa deixou de ser jovem para se converter em uma senhora cujo touro já não está entre seus braços, mas na frente da Bolsa de Nova York, fazendo as graças aos turistas, ou representado nas moedas de 2 euros da Grécia.

Em seu auge, a Europa foi dama e senhora do mundo, mas logo seus filhos, representados por suas colônias, foram buscando a independência e um deles, os Estados Unidos da América, se fez forte o bastante para substituir o trono que por tanto tempo pertenceu a ela. Mas, a Europa não aceitou permanecer em segundo plano e, como a própria Rainha Olímpia, mãe de Alexandre Magno, ou outras monarcas fortes da Europa, tais como Isabel – a Católica, Elisabete II, ou Catalina II, não se deixou abalar e logo tratou de voltar a se reerguer sem nunca perder o fervor da juventude e se reinvestir, inclusive, tendo alguns desses reinvestimentos sido pagos por seus filhos, como foi o caso do Plano Marshal.

A Europa ressurge na metade do século XX como um bloco que aos poucos aumentaria sua integração até o ápice da União Europeia, apresentando-se como um exemplo a ser seguido, na esperança de voltar a ser o centro de poder da humanidade, bem como o centro cultural, ideológico e econômico[2].

Tudo pareceria destinado ao seu crescimento. O Euro surgiu como uma moeda forte, os países prosperavam e o comércio fluía com todas as partes do mundo e, aos poucos, a Europa reassumia seu papel e sua liderança perdida.  Mas, a partir da segunda década deste milênio o projeto europeu mostrou a sua fragilidade, e passou-se a ver as rugas, mazelas e cicatrizes que não foram curadas no continente.

A Europa, atualmente, sofre com sérios problemas demográficos. A média de idade supera os 40 anos, não havendo renovação populacional suficiente para arcar com os elevados gastos produzidos pela previdência e pelo welfare state que foi em parte reduzido após as medidas de austeridade implementadas pelos países mais afetados pela crise, o que impactou na qualidade de vida e nas taxas de natalidade já muito baixas.

A imigração avança por uma Europa frágil economicamente, desgastada politicamente e cheia de assimetrias expostas durante a crise, transparecendo os profundos estigmas que não foram curados no último século. A visão de mundo europeu, primeiro colonizador e depois imperialista, se opõe a sua necessidade de renovação populacional, frente à suposta ameaça da inserção de milhões de pessoas de outras culturas e o impacto que isso gera na sociedade e na economia.

A crise dos refugiados mostra um lado controvertido da Europa que, a menos de um século, foi ponto de partida de mais de 40 milhões de europeus que emigraram fugindo de duas grandes guerras e ditaduras[3].

A crise promoveu um sentimento de protecionismo dentro do Bloco, tanto em relação aos imigrantes (europeus ou não), como em relação aos refugiados, pois, mesmo havendo pequenos sinais de recuperação econômica, os índices sociais foram gravemente afetados pela crise e as pessoas que moram em pequenas ilhas de prosperidade que não foram afetadas não desejam compartilhar seu espaço.

Por outro lado, conforme vem apontando analistas críticos ao percurso adotado pela Bloco, a centralização da Europa em somente um país acabou minando o delicado equilíbrio da União, onde a soberania se transformou em algo tênue e a democracia em algo flexível aos interesses do Bloco, como foi o caso ocorrido com as considerações sobre o referendum grego.

A fragilidade da Europa também ficou visível com a Crise da Crimeia, pois mostrou sua dependência energética e militar, uma vez que conta sempre com a proteção da OTAN frente a uma Rússia que, hoje, está preocupada e reativa, por estar pressionada por sanções econômicas, mas possui e disponibiliza os recursos energéticos que mantém viva a principal economia europeia.

A Europa parece aos poucos se esfacelar entre movimentos contrários, contínuas crises e um discurso cada vez mais fraco. A queda do Acordo Schengen pode ser o ápice de seu declínio[4]. Seja como for, às vezes, o mito parece verídico e a jovem inocente levada a Ilha de Creta se transformou em uma mulher ambiciosa e depois em uma senhora orgulhosa de seu passado que não irá desistir até o último momento do seu projeto de vida: ser Europa.

————————————————————————————————

Imagem – “Moeda Grega de 2 euros com representação do Mito de Europa” (Fonte):

Montagem – [wikicommons] Touro / Bolsa em Wall Street / Nova York [wikicommons])

————————————————————————————————

[1] Ver:

Ovidio. As Metamorfosis, II, 866 – 875

[2] Ver:

http://europa.eu/

[3] Ver:

BORDÉ E DUPAQUIER, A emigração europeia alémmar.

[4] Ver:

http://eur-lex.europa.eu/legal-content/ES/TXT/?uri=uriserv:l33020

Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!